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Cidades

Universidades públicas reduzem cursos noturnos e afastam quem precisa trabalhar

Jornada até o ensino superior também é feita de pressão, cursinho para vencer desigualdades e proposta de mensalidade para ricos

Por Aline dos Santos | 30/07/2020 15:09
Na UFMS de Campo Grande, de 76 cursos apenas 21 são noturnos e seis na modalidade à distância. (Foto: Henrique Kawaminami)
Na UFMS de Campo Grande, de 76 cursos apenas 21 são noturnos e seis na modalidade à distância. (Foto: Henrique Kawaminami)

Trabalhando o dia todo, de segunda a sábado, Eranil Gonçalves Júnior, 28 anos só pôde falar por telefone com a reportagem no horário de almoço. Foto para a matéria só seria possível no próximo domingo, quando tem folga.  Na rotina corrida de trabalhador brasileiro também não cabe o sonho de cursar medicina veterinária em universidade pública de Campo Grande, pois não há essa graduação em período noturno.

Enquanto trabalha como tosador de animais em pet shop, ele “quebra a cabeça” pensando em qual curso e universidade vai ter chances de chegar ao ensino superior.

“Gosto de mexer com animais, mas faço pesquisas para ver os cursos que sejam noturnos e que não sejam complicados para ingressar no mercado”, diz Eranil, que a vida toda estudou na escola pública e chegou a ficar dez anos longe da sala de aula. “Parei aos 16 e voltei aos 26 anos. Mesmo cansado, decidir focar e persistir, porque senão nunca vou conseguir”, diz.

Ao longo dos anos, o distanciamento entre as universidades gratuitas e o “público” da escola pública é aumentado pela concorrência com os egressos da rede particular do ensino médio, marcada por altas mensalidades e melhor preparação, e também pela opção das instituições por graduação durante o dia, período em que muitos precisam trabalhar.

Na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), na realidade antes da pandemia do novo coronavírus, de 76 cursos em Campo Grande, apenas 21 são noturnos e seis na modalidade à distância. Até mesmo Jornalismo migrou da grade noturna para o período integral. O curso faz parte da Faculdade  de Artes, Letras e Comunicação, que tem agora apenas um curso à noite: Música.

 Em Três Lagoas, por exemplo, a mesma instituição de ensino tem outro perfil: de 18 cursos, 12 são no período noturno.

Na Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), dos 11 cursos de graduação em Campo Grande, a reportagem localizou três no período noturno. Na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), dos 37 cursos de graduação ofertados, menos da metade é no período noturno: quinze.

Pedagoga no Instituto Luther King, Renilda conta que a pandemia forçou a migração para a aula virtual e a classe encolheu. (Foto: Kisie Ainoã)
Pedagoga no Instituto Luther King, Renilda conta que a pandemia forçou a migração para a aula virtual e a classe encolheu. (Foto: Kisie Ainoã)

Em 16 anos, cinco aprovados em Medicina 

O Instituto Luther King faz jus ao nome e também tem um sonho: “criar uma sociedade mais justa, com a inclusão de cidadãos menos favorecidos”. Em 16 anos, o cursinho gratuito para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e vestibulares conquistou 1.300 aprovações no ensino superior. Mas outro número chama a atenção: em 16 anos, foram cinco aprovados em Medicina. Ou seja, é muito difícil pobre ser doutor.

Pedagoga do instituto, Renilda Ferreira dos Santos lembra que Medicina é um curso muito disputado com alunos da rede particular, com maior poder aquisitivo. “O aluno até pensa como vou concorrer? Mas se ele se dedicar, consegue. Tem aluno da escola particular que estuda três períodos, tem aluno que estuda dois períodos e tem aluno que estuda um período. Você pode concorrer com ele”, afirma.

Na rotina dos estudantes do cursinho gratuito, o horário do ensino era à noite. Antes da pandemia, a aula presencial ia das 18 às 22h, horário que atendia ao alunos e professores voluntários, pois ambos precisam trabalhar durante o dia.

Diante do novo coronavírus, o ensino presencial migrou para o ambiente virtual, mas a classe encolheu: passou de 130 para 110 alunos. Uma aluna adiou o projeto de estudar para o ano que vem porque não conseguiu conciliar estudo em casa com os cuidados de um filho pequeno.

“O pessoal da particular estuda muito mais”

Sempre estudando em escola pública, Thaila Melo Sant’Ana, 19 anos, se viu diante de uma dúvida comum para  quem tem medo de apertar ainda mais o orçamento familiar: pagar ou não um cursinho particular ?

Ela optou por estudar em casa. “Ficava preocupada em ter que pagar cursinho e não passar. Minha mãe é professora e meu pai autônomo, tem horta em casa”, conta.  Da experiência antes da aprovação e o ingresso em universidade pública, no curso de fisioterapia, a lembrança era de pressão e insegurança.

“Quando eu ia fazer as provas, ficava muito insegura. Querendo ou não, o pessoal da particular estuda muito mais. Nunca pensei que conseguiria passar para o ensino público”, diz Thaila. Hoje, a distância entre a aluna e o ensino superior gratuito é de dois ônibus e caminhada por uma quadra.

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Retrato do ensino 

 Em Mato Grosso do Sul, a maioria dos universitários é branca (58.364), seguido por pardos (38.603)  e pretos (7.771). O total de matriculados em cursos presenciais e à distância é de 128.250 pessoas. A maior parcela é absorvida pela rede particular: 92.418. Já as instituições públicas de ensino superior comportam 35.832 acadêmicos.

O financiamento estudantil é a realidade para 60.679 universitários. A maioria dos alunos tem faixa etária de 25 a 29 anos.

PEC quer rico pagando mensalidade 

Apresentada pelo deputado federal Roberto Sebastião Peternelli Junior (PSL), o General Peternelli, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 206/19 quer mudar a legislação para que as universidades públicas cobrem mensalidade dos alunos, excluindo da exigência aqueles que comprovarem não ter condição de pagar.

“A gratuidade generalizada, que não considera a renda, gera distorções gravíssimas, fazendo com que os estudantes ricos – que obviamente tiveram uma formação mais sólida na educação básica – ocupem as vagas disponíveis no vestibular em detrimento da população mais carente, justamente a que mais precisa da formação superior, para mudar sua história de vida”, afirma o deputado na justificativa.

Em resumo, a proposta defende que “quem pode paga e quem não pode não paga”.

 A reportagem solicitou por email informações à UFMS, Uems e UFGD sobre a previsão de ampliar curso no período noturno e perfil socioeconômico dos alunos, mas não obteve resposta até a divulgação da matéria.

Vista aérea da UFGD, que fica em Dourados. (Foto: Divulgação)
Vista aérea da UFGD, que fica em Dourados. (Foto: Divulgação)


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