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Alunas denunciam assédio sexual praticado por 5 professores da rede particular

“Eu tinha 17 anos, ele tinha 37”, conta uma das meninas. Campo Grande News viu relatos que envolvem pelo menos 5 professores

Por Izabela Sanchez | 04/06/2020 15:19
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

“Ele puxou meu cabelo e perguntou se eu gostava”. É o que denuncia adolescente, aluna do Ensino Fundamental em uma das muitas escolas da rede particular de Campo Grande.

A denúncia ainda não chegou à polícia, mas é só uma das centenas que surgiram contra, pelo menos, 5 professores da cidade nesta semana no Twitter, com a tag #exposedcg, parte um movimento nacional de relatos de assédio sexual e até estupro. Por aqui, o que chama atenção extra é o número de denúncias de assédio em sala de aula.

Na rede particular, a reportagem identificou ao menos seis escolas diferentes onde atuam esses professores. Muitas vezes, mais de uma é local de trabalho do mesmo profissional. Em outros casos, o professor peregrina por colégios da Capital, depois de demissões por comportamento inadequado.

 “Ele já passou a mão na bunda da minha melhor amiga e falava que era sem querer”, contou adolescente de 13 anos sobre um deles.

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“Ele falou pra ela: que pena que tinha gente, queria aproveitar um tempo a sós com você”.

Os relatos abrangem práticas contra meninas de diferentes idades. Vão desde comportamentos às vezes difíceis de serem identificados como ilegais: “Ele passou a mão no meu pescoço”, contou uma das estudantes, ao relatar o desconforto ao procurar o professor, com a sala de aula cheia, para tirar uma dúvida na carteira onde ela estava sentada.

Abrange, também, escalada de crimes mais sérios, como enviar fotografias do corpo, os famosos “nudes”, para meninas com idades de 14 até 17. “Eu tinha 17 anos, ele tinha 37. Me mandava nudes o tempo todo falava de sexo 24hrs por dia”, contou uma das vítimas, hoje mais velha.

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“Até que eu tive que falar que não me sentia confortável com a diferença de idade e ele parou”.


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Eu nunca vou esquecer do que ele fez comigo”.

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Muitas vezes, as meninas relatam que denunciaram os abusos à direção das escolas, sem que nenhuma providência fosse tomada.

Um dos professores que a reportagem apurou, trabalha em duas diferentes escolas hoje, conforme indicam prints e relatos.

Ele costuma conversar com as alunas pelas redes sociais. Um indício, também, de que os pais e mães precisam acompanhar melhor o que crianças e adolescentes conversam no celular e quais redes sociais utilizam.

Um das conversas foi compartilhada no Twitter:

- “Já sei. Tá querendo aulas particulares, né? Não acredito que você tá perto de reprovar.
- kkkkk

-você faz isso com todo mundo que reage seus posts?
- Só com aquelas:
1) que reagem sem nem terem me adicionado como amigo
2) que me deixam curioso sobre os motivos de estarem me stalkeando
3) que eu acho gatinhas (sei que não deveria, mas foda-se)”
.

“Porque eu não consigo deixar de ser homem, pra ser professor”.

Traumas – Entre os diferentes tipos de assédio relatados pelas estudantes, muitas delas já na faculdade (onde inclusive contam terem topado com o mesmo comportamento) fica também o trauma.

O espaço aberto nas redes sociais serve para mostrar o quanto abusos psicológicos têm efeitos no desenvolvimento dos alunos. Há um relato, por exemplo, que a menina lembra de ser envergonhada em público, um episódio que a marcou “para sempre”.

 “Como eu disse, eu era magricela demais naquela época e eu tenho uma baixa auto estima descomunal....esse professor de Biologia sempre escolhia um aluno diferente para ajudar... um dia tava feliz porque eu tinha ganhado um pouco de peso e meus jeans estavam mais justo em mim. Nesse dia, ele me chamou para anotar no quadro. Quando ele terminou, ele me pediu para ficar parada e disse: ‘é ótimo chamar aluna assim para fazer esse trabalho, porque alguém desse jeito não vai distrair os meninos’”.

É preciso falar sobre isso – Neuropsicóloga e coordenadora de Psicologia Educacional da SED (Secretaria Estadual de Educação), Paola Nogueira Lopes afirma que não há saída para mudar esse cenário, a não ser discutir nas escolas abertamente a questão. Falar é o primeiro passo, diz. Ela afirma que o movimento que tem surgido no Twitter “é muito positivo”.

“Um ponto é quando ela [criança ou adolescente] relata, a gente já tem um protocolo de como proceder, um acolhimento, uma escuta e, à partir disso vamos encaminhar para a rede porque é uma violação, vai passar para o conselho tutelar e delegacia”, explicou, sobre os casos de abuso que ocorrem em casa e são relatados na escola. “O outro ponto é quando professor e é o assediador. Elas estão fazendo um movimento muito positivo”, relata.

Ela afirma que neste caso, a rede estadual abre procedimento interno, comunica a polícia e o departamento jurídico estadual e inicia, também, o “acolhimento” da vítima com psicólogos.

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“O mais importante é falar, criar grupos operativos de fazer essa conversa. Hoje as informações chegam mais fácil e as estudantes estão mais conscientes sobre essas questões. Acompanhei um caso no ano passado onde tinha um professor assediador, o diretor acionou toda uma rede”, destaca.

Para ela, a rede pública está mais avançada do que a rede privada. “Há todo um corporativismo no privado. É muito abafado na escola e o impacto é muito mais difícil. Na rede pública é muito mais escancarado e há programas e projetos que desenvolvemos sistematicamente”, diz.

“Estamos num momento que não cabe mais só conversa, tem que ser sistematizado, eu preciso tratar durante todo o ano. Então acho que estamos num momento muito propício para discutir tudo isso. Acredito que a primeira questão é dar espaço para essa fala e dar voz para essa fala. Como as redes sociais estão muito ao encontro desse momento, estamos conseguindo ter voz”, conclui.