Consórcio desperdiçava R$ 400 mil/mês só com diesel, com R$ 0,50 a mais no litro
Intervenção identificou compra por intermediário e diferença de mais de R$ 400 mil em custo adicional mensal
O diesel, um dos principais custos do transporte coletivo de Campo Grande, também foi alvo de revisão da intervenção no Consórcio Guaicurus após a equipe identificar que as empresas gastavam cerca de R$ 4,6 milhões por mês com combustível. O relatório preliminar, entregue ontem (22), aponta que, no início da intervenção, o óleo diesel era adquirido por meio de um TRR (Transportador-Revendedor-Retalhista), com preço aproximadamente R$ 0,50 por litro acima do valor disponível diretamente nas distribuidoras.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A intervenção no Consórcio Guaicurus identificou que o diesel, responsável por 30% dos gastos mensais das empresas de transporte coletivo de Campo Grande, era adquirido por intermediário a um preço R$ 0,50 por litro acima do valor das distribuidoras, gerando custo adicional superior a R$ 400 mil mensais. A equipe também detectou variações no consumo entre veículos e garagens e propõe priorizar ônibus mais econômicos e desenvolver aplicativo de monitoramento de abastecimento.
Considerando o volume consumido pelas empresas, a diferença representava mais de R$ 400 mil em custo adicional em apenas um mês, sem aumento correspondente na quantidade de combustível adquirida ou na oferta de viagens.
- Leia Também
- Intervenção aponta perda de confiança em Consórcio e queda de 10% de passageiros
- Após relatório, cobranças da CPI se concentram em frota nova e ar-condicionado
O diesel representa aproximadamente 30% de todos os recursos gastos pelas empresas e mais de 60% dos pagamentos feitos a fornecedores. Por isso, a intervenção classificou a aquisição, o recebimento, o armazenamento, o abastecimento e o consumo do combustível como processos críticos de gestão.
A dimensão do gasto ganha ainda mais peso diante da situação financeira encontrada no início da intervenção. Com restrição de caixa, uma diferença de aproximadamente meio milhão de reais por mês em um insumo essencial reduz a disponibilidade de recursos para outras despesas necessárias à operação, como manutenção dos ônibus, compra de peças e pagamentos a fornecedores.
Combustível era comprado por intermediário - Quando a intervenção começou, em 16 de junho de 2026, o fornecimento de diesel era realizado por uma empresa enquadrada como Transportador-Revendedor-Retalhista, o TRR.
Esse tipo de empresa é autorizado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) a comprar combustíveis a granel, armazenar, transportar e revender o produto ao consumidor final.
O modelo é regular e pode ser utilizado por empresas que precisam também dos serviços logísticos relacionados ao armazenamento e transporte do combustível. O relatório, porém, aponta que a economicidade da operação precisa ser analisada quando se trata de consumidores com um volume elevado de consumo, como é o caso das empresas do transporte coletivo.
Na situação encontrada pela intervenção, o combustível adquirido por meio do TRR custava aproximadamente R$ 0,50 por litro a mais do que o preço disponível para compra diretamente das distribuidoras, que estava na ordem de R$ 5,90 por litro. Isso representa um custo cerca de 8,5% maior por litro
Com o volume consumido pelo Consórcio Guaicurus, a diferença chegava a mais de R$ 400 mil por mês.
O relatório destaca que esse valor não correspondia a uma quantidade maior de combustível nem a uma ampliação da oferta operacional. Tratava-se, portanto, de uma diferença no custo de aquisição do mesmo insumo.
Pequena diferença por litro, impacto milionário - O caso mostra como uma diferença aparentemente pequena no preço unitário pode ganhar grande dimensão quando aplicada ao consumo de uma frota de transporte coletivo.
O diesel representa aproximadamente R$ 4,6 milhões dos gastos mensais das empresas. Além de responder por cerca de 30% dos recursos despendidos, o combustível concentra mais de 60% dos pagamentos realizados aos fornecedores.
Diante desse cenário, a intervenção passou a atuar em duas frentes: buscar a redução do preço pago pelo combustível e melhorar o controle sobre a quantidade utilizada pelos ônibus.
O relatório aponta que não basta analisar apenas quanto custa cada litro comprado. Também é necessário verificar quanto combustível cada veículo utiliza para cumprir a mesma operação.
Consumo varia entre ônibus - A análise realizada pela equipe identificou diferenças no rendimento dos veículos e também entre as garagens.
No período avaliado, a garagem VCG (Viação Campo Grande) apresentou rendimento ponderado de 3,10 quilômetros por litro, enquanto a garagem VCM (Viação Cidade Morena) registrou 3,02 km/l. Segundo o relatório, isso representa uma eficiência aproximadamente 2,8% superior da VCG em relação à VCM.
A diferença pode parecer pequena, mas ganha relevância quando aplicada ao volume de combustível consumido pelas empresas ao longo do mês.
O relatório ressalta, porém, que não é possível atribuir a diferença entre as garagens a um único fator. O desempenho pode estar relacionado a características e condições da frota, perfil das linhas, manutenção e práticas operacionais.
A análise individual dos veículos também encontrou diferenças relevantes, inclusive entre ônibus da mesma categoria.
Um dos exemplos de maior rendimento foi o veículo de prefixo 3904, da JTU (Jaguar Transporte Urbano), da categoria micro, que apresentou média de 4,69 km/l, resultado 4,8% superior à média de sua categoria.
Na outra ponta, o prefixo 1202, da VCM, categoria articulado, registrou média de 1,29 km/l, desempenho 10,3% inferior à média da categoria.
O relatório identificou ainda 15 veículos como outliers de baixo desempenho e oito como outliers de alto desempenho por meio do método estatístico IQR.
A classificação, contudo, não significa automaticamente que os veículos tenham problemas mecânicos ou sejam ineficientes. O próprio documento ressalta que o consumo pode variar conforme as características da linha, relevo, condições do trânsito, quantidade de passageiros, uso do ar-condicionado, modo de condução, idade e características técnicas do ônibus.
Por isso, um resultado fora do padrão é tratado como um sinal para investigação das causas.
Frota mais econômica deverá ser priorizada - Uma das mudanças analisadas pela intervenção envolve a programação dos ônibus em períodos de menor demanda, principalmente aos sábados, domingos e feriados.
Atualmente, segundo o relatório, a definição dos veículos escalados nesses dias não considera de forma sistematizada o histórico de consumo e a eficiência energética de cada ônibus.
Na prática, veículos com desempenhos diferentes podem ser utilizados indistintamente, mesmo quando há maior flexibilidade para definir quais unidades serão colocadas em operação.
A proposta é incorporar o histórico de consumo como um dos critérios para a escala, permitindo priorizar, quando for operacionalmente possível, os veículos de melhor rendimento dentro de categorias equivalentes.
A medida permitiria reduzir o consumo sem necessariamente diminuir a quantidade de viagens oferecidas aos passageiros.
Intervenção prepara aplicativo para acompanhar consumo - Para melhorar o controle, a equipe de intervenção está desenvolvendo um aplicativo específico para leitura, registro e acompanhamento dos dados de abastecimento e consumo de cada veículo.
A ferramenta pretende reduzir a dependência de lançamentos manuais, que podem apresentar erros de digitação e inconsistências, além de permitir que as informações sejam consolidadas com maior rapidez.
Com os dados reunidos, será possível acompanhar continuamente o desempenho de cada ônibus e compará-lo com veículos equivalentes.
A intenção é identificar rapidamente alterações relevantes no rendimento e encaminhar veículos com consumo anormal para avaliação.
O sistema também poderá ser usado para verificar se uma intervenção de manutenção produziu efeito sobre o consumo de combustível.
Diesel vira indicador de gestão - A proposta da intervenção é que o consumo de diesel deixe de ser observado apenas como uma despesa e passe a ser utilizado como indicador de gestão operacional e de manutenção.
O acompanhamento permitirá comparar o desempenho entre garagens e categorias, identificar perda progressiva de rendimento, direcionar veículos com consumo fora do padrão para avaliação e medir os efeitos de intervenções mecânicas.
A estratégia também está relacionada à programação da frota nos dias de menor demanda, quando existe maior margem para escolher quais veículos serão utilizados.
O relatório resume a estratégia em duas frentes: reduzir o preço pago pelo combustível e reduzir a quantidade necessária para executar a mesma oferta operacional.
Com uma despesa mensal de aproximadamente R$ 4,6 milhões, mesmo ganhos aparentemente pequenos de eficiência podem produzir impacto financeiro relevante quando aplicados à frota inteira e acumulados ao longo do tempo.
A equipe de intervenção, portanto, passou a tratar o diesel não apenas como um dos maiores gastos do Consórcio Guaicurus, mas como uma variável que pode revelar problemas de manutenção, operação e gestão da frota.



