Embaixador chinês projeta salto comercial com MS após avanço da Rota Bioceânica
China amplia interesse no Estado enquanto ponte entre Brasil e Paraguai chega à reta final

Estratégica para integrar Mato Grosso do Sul aos países asiáticos pelos portos do norte do Chile, o chamado Corredor Bioceânico de Capricórnio deve impulsionar as relações comerciais e fortalecer a parceria entre o estado e a China. A análise é do embaixador da República Popular da China no Brasil, Zhu Qingqiao, que participou, na noite de terça-feira (12), em Brasília, do encontro sobre a Rota Bioceânica chamado “Summit Bioceânica”.
RESUMO
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“Mato Grosso do Sul é um estado muito importante para as relações econômicas e comerciais entre o Brasil e a China, cooperação que vem crescendo muito rapidamente. E a Rota Bioceânica vai impulsionar essa relação e fortalecer a parceria entre o Brasil, Mato Grosso do Sul, a China e toda a Ásia”, disse ele ao Campo Grande News.
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Patrocinado pela Itaipu Binacional e organizado pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), o encontro reuniu 48 embaixadores e mais de uma dezena de prefeitos sul-mato-grossenses.
Sem cravar uma projeção numérica sobre potenciais novos negócios entre China e Mato Grosso do Sul, o embaixador chinês aposta que os negócios devem expandir consideravelmente a partir da operação da Rota Bioceânica.
“As relações entre China e Brasil vivem atualmente o melhor momento de sua história e queremos que esse desenvolvimento seja contínuo e possa trazer mais benefícios aos dois povos. Estamos muito otimistas com essa a cooperação com o Brasil e, em especial, com Mato Grosso do Sul.”
Exportações
Em 2025, Mato Grosso do Sul bateu recorde no volume de exportações, alcançando cerca de US$ 10,7 bilhões, sob a liderança das compras da China, principalmente soja, celulose e carne bovina. O desempenho positivo vem sendo mantido nos primeiros quatro meses deste ano, segundo dados oficiais.
Os investimentos chineses no estado também ganharam força. Entre os novos movimentos está a previsão de investimentos da chinesa Broad Wire em Três Lagoas, voltada à produção de arames metálicos para a cadeia da celulose. O protocolo de intenções foi assinado em 6 de maio de 2026 pelo governo estadual.
Zhu Qingqiao reiterou o otimismo em relação à cooperação e prevê mais oportunidades com integração regional facilitada pelas obras de infraestrutura em andamento.
Entre as oportunidades de negócios estão o potencial de aumento do comércio, facilitação logística com redução do tempo de transporte, além de atração de investimentos ao longo do corredor.
Segundo ele, as empresas chinesas estão “entrando” cada vez mais no Brasil e buscando oportunidades. “Para nós, o Brasil é muito importante, porque é um grande mercado, com estabilidade política e orientação estratégica entre os dois chefes de Estado. Essa cooperação está cada vez mais ampliada e queremos manter essa tendência de crescimento e desenvolvimento para resistir às turbulências do cenário internacional.”
Para o senador Nelsinho Trad, o corredor internacional bioceânico representa uma janela de oportunidades para o comércio exterior do estado. Estudos apontam 17 dias a menos no tempo logístico para países asiáticos e redução de cerca de 8 mil quilômetros marítimos, podendo chegar a até 10 mil. Isso reduz em até 40% o custo dos produtos no transporte de ida e volta “não apenas para o mercado asiático, mas também para outros países que utilizam o Oceano Pacífico”.
Reta final
Com cerca de 2,4 mil quilômetros de extensão, a Rota Bioceânica conectará os oceanos Atlântico e Pacífico, passando pelo Brasil, Paraguai, Argentina e Chile; e é vista como alternativa ao escoamento tradicional pelo Oceano Atlântico e Canal do Panamá. A porta de entrada brasileira à Rota Bioceânica será viabilizada pela ponte entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai, cujas obras estão com mais de 90% concluídas.
A ponte entra na fase final de construção. Restam cerca de 20 metros para a união das duas extremidades da estrutura sobre o Rio Paraguai, momento conhecido como “beijo da ponte”. Os mais otimistas acreditam que esse marco pode ocorrer entre 1º e 12 de junho, em uma coincidência simbólica com o mês dos namorados.
Apesar de entraves burocráticos da máquina pública, o avanço das obras da ponte é visto com otimismo pelo diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri.
Segundo ele, a ponte é financiada pela Itaipu, na parte da margem paraguaia, com investimento de US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões). Ou seja, esse acordo de integração envolveu o financiamento de duas pontes em partes iguais para os dois países. A segunda ponte liga Foz do Iguaçu a Presidente Franco, cujo investimento, superior a R$ 450 milhões, foi financiado pela Itaipu na parte brasileira.
O trecho do lado do Paraguai estará pronto paralelamente à concretização do “beijo da ponte”. Já do lado brasileiro, sob comando do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), vinculado ao Ministério dos Transportes, as obras de acesso e alfândegas, entre outras, devem ser concluídas nos próximos meses, com recursos federais do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), estimados em R$ 472 milhões.
Alfândegas
Gargalos regulatórios e alfandegários podem atrasar a operação logística, conforme estudo liderado pelo BID que aponta a necessidade de harmonizar regras entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, segundo noticiou o Campo Grande News.
Do lado brasileiro, a estrutura do ACI (Área de Controle Integrada) em Porto Murtinho ainda não saiu do papel. A estrutura deve integrar Receita Federal, Polícia Federal, órgãos do Ministério da Agricultura (Vigiagro), Anvisa, DNIT, entre outros órgãos.
Contudo, o cenário projetado representa risco de gargalo logístico, podendo comprometer a fluidez do transporte internacional de cargas diante do volume esperado com a operação plena do Corredor Bioceânico, segundo o estudo liderado pelo BID.
Isso porque o pátio de estacionamento será integrado ao Paraguai, com capacidade limitada. Serão 240 vagas para caminhões, 36 para liberação rápida, 14 para ônibus de passageiros e 38 para automóveis.
O estudo compara a estrutura com a fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, que possui cerca de mil vagas em cada lado e já enfrenta restrições em períodos de maior movimento.
Carroça de abóboras
Verri reconhece a complexidade, mas disse que há espaço e não há problema quanto à ampliação futura do pátio, em eventuais necessidades.
“Costumamos dizer que ‘as abóboras se ajustam com o andar das carroças’. Ou seja, é preciso começar com veículos pequenos, depois liberar caminhões apenas à noite e, posteriormente, caminhões durante todo o dia, ajustando gradualmente o corredor logístico.”
Segundo ele, após o “beijo da ponte” e a conclusão dos acessos, será iniciado o trabalho das equipes técnicas e operacionais dos dois países para realizar os testes e ajustes do tráfego, gradualmente. “Não é algo imediato. A ponte não estará totalmente operacional assim que ocorrer o ‘beijo’ da estrutura.”
Verri fez questão de frisar que o corredor internacional deve transformar o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul e também do Paraguai.
Do lado brasileiro, não há pendências estruturais na ponte em si, mas ainda faltam recursos para a conclusão dos acessos ao corredor internacional e a construção do CTI, estimados em cerca de US$ 60 milhões.
Nelsinho Trad chamou atenção para eventuais impactos na infraestrutura dos municípios por onde a rota irá passar, considerados normais para projeto de tamanha envergadura. Contudo, é necessário planejamento. A Prefeitura de Porto Murtinho, por exemplo, vem investindo mais de R$ 100 milhões na estrutura do município para atender novas demandas, reforçando serviços básicos como hospital, aeroporto, escolas e pavimentação, segundo prefeito Nelson Cintra.


