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Capital

Dengue complicou e deixou universitária com apenas 3% da visão em um dos olhos

Jovem de 24 anos se recupera, mas quase ficou cega por causa do vírus

Por Cassia Modena | 28/02/2024 13:04


O vírus da dengue mata, mas mesmo que não chegue ao extremo, pode causar complicações sérias enquanto estiver na corrente sanguínea. Isabela Kemp, de 24 anos, sentiu o quanto o Aedes aegypti é perigoso. Estudante de Medicina em Campo Grande, ela teve a visão afetada por causa do mosquito.

Ela chegou a ficar com apenas 20% da visão do olho esquerdo e apenas 3% do olho direito. O diagnóstico da doença saiu no último domingo (18), e sintomas como coceira e vermelhidão nas palmas das mãos e dos pés, começaram na sexta-feira (23).

O que ela não esperava é que o vírus fosse "escolher" se instalar em sua retina e provocar a perda temporária de visão. Ela decidiu viajar para se consultar às pressas com um oftalmologista da capital de São Paulo, que teve a experiência de atender paciente com a mesma complicação em 2015.

A jovem explica que um dia antes de a coceira "pipocar", seu quadro estava estável. Teve dor muscular e nas articulações nos primeiros dias, nada além disso. "Fazia exames de sangue para acompanhar a taxa de plaquetas e leucócitos que o vírus faz cair, mas sem imaginar o que viria depois", ela contou à reportagem.

Começaram a surgir pontos de embaçamento na visão na fase aguda da incubação da dengue, já num quadro inflamatório intenso, o que a levou a procurar atendimento médico imediato. Ela só contava com 30% de visão três dias depois disso.

Mão de Isabela ficou bastante vermelha e coçava (Foto: arquivo pessoal)
Mão de Isabela ficou bastante vermelha e coçava (Foto: arquivo pessoal)

Hoje (28), Isabela relata que recuperou boa parte da visão, mas ainda não está enxergando como antes. "Tenho dificuldade para diferenciar algumas cores claras e ficou um embaçamento na região central do campo de visão do meu olho esquerdo", detalha.

Possíveis sequelas - Infectologista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) que estuda a doença há quase quatro décadas, Rivaldo Venâncio confirma que complicações nos órgãos e sequelas relacionadas à dengue são possíveis mesmo entre quem não tem comorbidades, como é o caso de Isabela Kemp, que chegou a acompanhar nos últimos dias.

"O vírus da dengue circula no organismo como um todo. Embora raro, nos órgãos onde ele passa pode haver complicação, inclusive nos olhos. Se ele se replica no fígado, é possível algumas pessoas terem complicações sérias nele. Assim como no coração pode comprometimento cardíaco e no rim, o hepático", descreve o especialista.

Tudo depende da resposta imunológica de cada paciente, afirma, e não são conhecidas condições de saúde que favoreçam o agravamento da doença. "É preciso ver como o organismo reage à presença do vírus. Mas, no caso da dengue, complicações assim são sempre raras", reforça.

Em MS, crianças de 10 a 11 anos podem se vacinar contra a dengue no SUS (Foto: Marcos Maluf)
Em MS, crianças de 10 a 11 anos podem se vacinar contra a dengue no SUS (Foto: Marcos Maluf)

Vacina inclusa no calendário de vacinação do SUS, a Qdenga, pode prevenir essas complicações, recomenda Venâncio. Em Mato Grosso do Sul, ela está disponível para crianças de 10 a 11 anos, mas já liberada para a faixa etária de 12 até 14 nas cidades que possuem doses suficientes. Pessoas de outras idades poderão se vacinar também quando mais imunizantes puderem ser comprados e distribuídos aos estados.

Visão central - Médico que atendeu Isabela em Campo Grande, o oftalmologista Alvaro Hilgert afirma que cerca de 25% dos casos de dengue afetam os olhos. Na maioria deles costuma ocorrer uma inflamação leve chamada episclerite.

A estudante teve outro tipo de inflamação: uma neurorretinite rara causada pela dengue. "Infelizmente, ele pode deixar uma sequela na visão com a diminuição da acuidade visual principalmente no campo central", diz.

A maior preocupação é quando o sintoma chega o centro da visão, como aconteceu com a estudante, continua o médico. Isso aumenta, segundo ele, a possibilidade de ficarem sequelas.

Arte: Bárbara Campiteli
Arte: Bárbara Campiteli

Ter procurado atendimento nas primeiras horas ajudou a estudante a limitar os danos aos olhos. "É muito importante quando o paciente tem uma perda da acuidade visual, que seja atendido prontamente. Isso favorece uma recuperação melhor e com menos sequelas", atesta Hilgert.

Problemas parecidos com o que Isabela teve também podem ser causados pelo zika vírus e a chikungunya, alerta ainda o médico.

Melhora - A jovem segue tomando medicação para controlar a inflamação e fazendo tratamento para que a visão se restabeleça em 100%. Ela acredita que isso será possível.

"A visão é uma dádiva e nós precisamos agradecer por ela. Cada luzinha que eu vejo, estou agradecendo. Tenho fé que vou melhorar cada vez mais", disse nas redes sociais.

Isabela também falou à reportagem que é necessário ter "consciência que a dengue é uma doença grave e merece atenção, tanto no individual quanto no coletivo".

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