Muito além do barulho, ronco pode esconder apneia e riscos à saúde
Quem ronca pode estar dormindo mal sem perceber, explica o otorrinolaringologista Gustavo Zangirolami
O ronco ainda é tratado por muita gente como piada de casal, motivo de meme ou simples incômodo da madrugada. Mas, por trás do barulho que atravessa a noite, pode existir um alerta importante do corpo. E, em alguns casos, um problema sério de saúde.
Foi justamente para falar sobre os distúrbios do sono, ronco e apneia que o podcast do Campo Grande News recebeu o otorrinolaringologista Dr. Gustavo Zangirolami. Durante a conversa, o médico explicou que roncar não é algo tão “normal” quanto muitas pessoas imaginam.
“O ronco significa um estreitamento da passagem de ar e a vibração dos tecidos da faringe. Ou seja, alguma dificuldade na entrada e saída do ar está acontecendo durante o sono”, explica.
Segundo o especialista, o grande problema é que o ronco pode ser apenas a ponta de algo maior: a apneia do sono. Diferente do ronco, a apneia acontece quando o fluxo de ar praticamente para durante alguns segundos.
“A apneia é a parada da passagem de ar por pelo menos 10 segundos. E existem pacientes que têm 150, 200 ou até 300 apneias durante a noite”, alerta.
Essa interrupção repetitiva da respiração reduz a oxigenação do corpo e pode trazer consequências importantes para o coração, cérebro e pulmões. Entre os riscos, estão hipertensão, arritmias e até infarto.
“Se falta oxigênio em tecidos vitais como coração e cérebro, isso pode ser muito drástico para o paciente”, afirma.
Mas nem sempre quem ronca percebe sozinho o problema. Muitas vezes, o alerta vem do parceiro, da parceira ou de alguém que divide o quarto. Ainda assim, o corpo costuma dar sinais claros de que algo não vai bem.
Sonolência excessiva durante o dia, irritabilidade, dificuldade de concentração, queda no rendimento no trabalho ou nos estudos e dor de cabeça ao acordar estão entre os principais sintomas observados.
“O paciente começa a perceber que não está tendo um sono correto. E talvez esse ronco seja uma manifestação de algo que precisa ser tratado”, comenta.
O médico explica que a investigação costuma ser feita por meio da polissonografia, exame que monitora o sono, frequência cardíaca, oxigenação e até possíveis despertares durante a noite.
Além do impacto físico, o ronco também afeta diretamente os relacionamentos. Segundo Dr. Gustavo, essa é uma das maiores causas que levam pacientes ao consultório. “Existem pessoas que dormem há mais de um ano longe do cônjuge por causa do ronco. Isso impacta a qualidade de vida de qualquer um”, relata.
E o problema vai além do barulho. A privação do sono pode provocar irritabilidade, baixa libido e mudanças na dinâmica do casal. “Muda a dinâmica da relação. O afeto diminui, surgem outras alterações e isso vai impactando a convivência”, acrescenta.
Apesar de assustar muita gente, o médico garante que o ronco tem tratamento e, na maioria dos casos, solução.
A principal causa hoje, segundo ele, está ligada ao excesso de peso. O acúmulo de gordura na região do pescoço e do abdômen facilita o estreitamento das vias aéreas durante o sono.
“Tem casos em que o paciente sai de uma apneia severa para uma condição leve apenas com perda de peso”, explica.
Outros fatores também podem influenciar, como desvio de septo, aumento das amígdalas, obstruções nasais e até hábitos da rotina moderna.
“O uso excessivo de telas, a vida acelerada, o estresse e a dificuldade de descansar impactam diretamente a qualidade do sono”, afirma.
Nos casos moderados e graves de apneia, um dos tratamentos indicados é o CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) ), aparelho usado durante o sono para manter a passagem de ar funcionando corretamente.
Embora muita gente tenha resistência inicial ao equipamento, Dr. Gustavo afirma que os pacientes costumam mudar de opinião depois de sentir os benefícios.
“Depois de cerca de um mês usando a máscara, a qualidade de vida melhora tanto que o paciente não quer mais ficar sem”, comenta.
O médico lembra ainda que crianças também podem roncar e apresentar apneia, principalmente por aumento da adenoide ou das amígdalas. E isso pode afetar desenvolvimento escolar, concentração e até crescimento.
Ao longo da carreira, um caso marcou profundamente o especialista. Um paciente procurou ajuda por conta do ronco e, durante a investigação, descobriu um grave problema cardíaco.
“Ele voltou meses depois agradecendo. Durante os exames, identificaram alterações importantes no coração e ele precisou fazer tratamento. Talvez aquilo tivesse evoluído para algo muito pior”, relembra.
Filho de otorrinolaringologista e vindo de uma família de médicos, Dr. Gustavo conta que se aproximou dos distúrbios do sono justamente pela necessidade de entender melhor os pacientes.
“Eu percebi que não conseguia tratar completamente apenas com o conhecimento tradicional da otorrino. Precisava entender mais sobre sono, comportamento e qualidade de vida”, explica.
Hoje, além do consultório, ele também atua no Hospital Proncor e participa da formação de novos especialistas em otorrinolaringologia em Mato Grosso do Sul.
No fim da conversa, o recado foi direto: ronco não deve ser ignorado.
“O ronco pode ser o corpo pedindo ajuda. É um sinal de que alguma coisa pode não estar funcionando bem”, finaliza.
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