“Está todo mundo sabendo de tudo”, disse gerente sobre desvios na Santa Casa
Gerente gravou encontro com cerca de 40 médicos e relatou suspeitas à presidente
“Está todo mundo sabendo de tudo”. A frase foi usada por Alessandro Dias Junqueira, então gerente administrativo da Santa Casa de Campo Grande, ao relatar à presidente da instituição, Alir Terra Lima, o tamanho da repercussão interna de suspeitas envolvendo a administração do hospital. Em áudio obtido pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), ele afirma que médicos discutiam abertamente acusações contra Rinaldo Hakme Romano, então diretor administrativo e financeiro, e diz ter gravado uma reunião em que o assunto foi tratado.
RESUMO
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Áudios obtidos pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul revelam que suspeitas de desvio de recursos na Santa Casa de Campo Grande circulavam internamente antes da investigação formal. Em gravações, o gerente Alessandro Dias Junqueira relata à presidente Alir Terra Lima que médicos acusavam o diretor financeiro Rinaldo Hakme Romano de roubar a instituição durante reunião do Sinmed com cerca de 40 profissionais presentes.
A conversa é de 14 de fevereiro de 2026 e passou a integrar a investigação que apura supostos desvios de recursos da Santa Casa e da operadora Santa Casa Saúde. Para o Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), o conteúdo demonstra que as suspeitas investigadas não estavam restritas a poucas pessoas, mas já circulavam entre médicos e integrantes da própria direção.
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No áudio, Alessandro conta que foi convidado pela médica Isabela Falcão para participar de uma reunião do Sinmed (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul). A descrição feita por ele é de um encontro marcado por críticas contundentes à administração.
“O que acontece? A Isabela, a doutora Isabela Falcão, me chamou para participar da reunião do Sinmed. E eu fui no sindicato dos médicos, fui no covil do monstro, né? Gente, vocês não têm noção o tanto que arregaçaram com ela.”
Segundo Alessandro, as reclamações não ficaram concentradas em um único assunto. Ele cita questionamentos sobre despesas do hospital. “Falaram do padre Ricardo, a Maria Augusta desceu a lenha, falou: ‘Onde já se viu, a gente paga salário para padre. Isso aqui é um hospital, não é uma igreja!’.”
Acusação contra diretor chegou à presidente
Depois da reunião, Alessandro afirma ter procurado Alir e contado à presidente o que ouviu dos médicos. Segundo a versão dele, a rejeição a Rinaldo já havia chegado ao ponto de profissionais acusarem o diretor de roubar a instituição.
“Doutora, os médicos falaram que não aceitam o Rinaldo aqui dentro da administração, que ele rouba, a diretoria não faz nada. Isso foi falado na reunião do sindicato, onde tinha 40 médicos.”
A afirmação mostra, segundo o relatório, que uma acusação dessa gravidade não teria permanecido apenas entre os médicos. Ela foi levada diretamente à presidente da Santa Casa.
“Que cara a senhora tem agora para administrar, sabendo que eles sabem da situação, falando isso. Só que não é o assunto para a gente conversar agora. O assunto para a senhora conversar em diretoria. Inclusive, eu posso falar tudo, eu gravei toda a reunião. Eu tenho tudo gravado. Então pode mostrar para a diretoria e usar isso daí para a senhora se livrar do Rinaldo.”
Alessandro também descreve como Alir reagiu ao receber as informações. Segundo ele, a presidente tentou justificar algumas questões e depois permaneceu ouvindo o relato. “Falei, falei, falei, falei, falei, ela só escutou. Ela falou, tudo bem, eu vou absorver tudo isso, dia cinco a gente senta para conversar.”
Na mesma gravação, ele afirma ter alertado Alir de que as discussões sobre a administração haviam ultrapassado a cúpula da Santa Casa. “Eu nem deveria estar falando isso para a senhora, mas a senhora tem que acordar para a realidade. A situação é essa, os médicos pensam isso, está todo mundo sabendo de tudo.”
O MP sustenta que Alessandro não era um funcionário alheio às suspeitas posteriormente apuradas. Para os investigadores, as próprias conversas mostram que problemas envolvendo Rinaldo, Alir e outros nomes da administração já eram tratados internamente.
Carro de Rinaldo também estava na conversa
Ao explicar por que considerava que “todo mundo” sabia do que ocorria dentro da instituição, Alessandro cita episódios específicos que, segundo ele, já eram comentados.
“A história do carro do Rinaldo, a mulher do Carlos Alberto Nobre, a ida no parque da... até a minha viagem e da Mariana para São Paulo, eles falaram. Eles têm uma lista de tudo o que acontece no hospital e a gente achando que a gente está pagando de pavão aqui dentro.”
Em outro trecho da investigação, também de áudio encaminhado por Alessandro, ele relata a repercussão provocada por um carro avaliado em R$ 350 mil que pertenceria a Rinaldo, episódio que o fez desistir de comprar uma caminhonete.
“Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora. E ainda tem mais, tem a conversa do apartamento. Está, assim, acaloradíssima dentro do hospital isso.”
Na investigação, aparecem 4 imóveis comprados, um deles pela presidente, que pagou R$ 400 mil em dinheiro vivo, na Rua João Pessoa, Monte Castelo, em 2025.
Para o GECOC, essa fala demonstra que Alessandro sabia que movimentações patrimoniais dos dirigentes estavam sendo observadas e poderiam provocar questionamentos. O Ministério Público usa o diálogo para defender que ele acompanhava de perto a repercussão das suspeitas dentro da instituição.
“Todo mundo chama ele de ladrão”
A reunião do sindicato também não é a única vez em que Alessandro menciona acusações contra Rinaldo. Em outro trecho do mesmo conjunto de áudios, ao discutir problemas que, na avaliação dele, Alir deveria enfrentar, o gerente afirma:
“Ela tem que acordar para a vida dela, para as paixões, como diz você, amores que matam, regularizar Paulo, Isabela meteu o pau no Rinaldo ontem, os médicos não confiam nele, todo mundo chama ele de ladrão, e isso que ela tem que organizar, e ela tem que surtar aí com isso, o restante do hospital a gente contorna.”
Alessandro encerra o relato da reunião dizendo que concordava com o que havia escutado dos médicos. “A gente, olha, eu lavei minha égua hoje em relação a tudo que eu escutei, sabe? E tudo eu concordo com os médicos.”
Para o MP, o conjunto das conversas é relevante justamente porque mostra que as suspeitas posteriormente levadas à investigação criminal já provocavam discussões dentro da Santa Casa. O relatório sustenta que os fatos “não permaneciam ocultos dentro da instituição”, mas circulavam internamente associados à cúpula administrativa


