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Capital

Filhos das drogas: bebês são as pequenas vítimas da dependência química

A síndrome de abstinência neonatal assola o comportamento e a saúde de quem acabou de nascer

Por Aline dos Santos | 08/02/2021 11:57
Morando nas calçadas, mulher é o retrato do flagelo da dependência química. (Foto: Marcos Maluf)
Morando nas calçadas, mulher é o retrato do flagelo da dependência química. (Foto: Marcos Maluf)

A tormenta das drogas, essa que faz adultos perambularem em farrapos pelas ruas da cidade, não poupa nem quem acaba de nascer. Os recém-nascidos trazem na pele ressecada, no choro inconsolável, na agitação noturna e em quadros graves de saúde as marcas da dependência química, que nestes casos, passam de mãe para filho. A chamada síndrome de abstinência neonatal.

“A droga usada pela mãe passa para o bebê através da placenta e pode causar mal formações, convulsões e outras complicações com sequelas permanentes”, diz o médico Alberto Cubel, coordenador da linha materno infantil do HRMS (Hospital Regional), em Campo Grande.

 Atualmente, a unidade atende a três gestantes dependentes químicas. “Temos aqui no Hospital Regional um percentual alto de mães usuárias de drogas”, afirma o pediatra.

Após o nascimento, a criança é acompanhada na unidade neonatal, onde a equipe médica adota o escore de Finnegan, para avaliar as manifestações clínicas e indicar o melhor tratamento.

“Que vai do uso de anticonvulsivantes a até mesmo a morfina. Além disso, devem ser submetidos a alguns exames, entre eles ultrassom para avaliar o cérebro, ultrassom de abdômen, ecocardiograma e fundoscopia para analisar o aparelho ocular”, explica Cubel.

Infelizmente, nem sempre o quadro é reversível. “Pois além das mal formações intraútero, temos também aquelas causada pela falta de oxigênio durante a gestação. É um problema de saúde grave com consequências imprevisíveis e importantes, que muito preocupam os nossos neonatologistas”, diz o médico.

Na Maternidade Cândido Mariano, foram 11 casos atendidos de síndrome de abstinência neonatal no ano passado. A vida de incertezas dos recém-nascidos é acompanhada pela assistente social Taline Mara Ricardino Bronze da Cruz.

As pequenas vítimas das drogas têm a pele extremamente ressecada. “É uma pele seca, acinzentada. Não tem a delicadeza da pele de criança. O choro é bem forte, muito parecido com o cólica. Difícil de acalentar”, relata.

As noites e madrugadas agitadas dessas crianças no berçário têm relação com o horário em que as mães consumiam a droga. A dependência química da mãe também pode resultar em outro comportamento do bebê: a apatia.

“É uma sonolência fora do comum. Sabe que está vivo pela respiração. É diferente, por exemplo, de bebê que tem febre forte. Ele fica sonolento, mas mexe se você dá banho, se faz cosquinha no pé”, lembra Taline.

No ano passado, maternidade Cândido Mariano atendeu onxe casos de síndrome de abstinência neonatal. (Foto: Henrique Kawaminami)
No ano passado, maternidade Cândido Mariano atendeu onxe casos de síndrome de abstinência neonatal. (Foto: Henrique Kawaminami)

Da felicidade à tristeza – De todas as histórias que testemunhou, a assistente social só viu uma mulher conseguir concluir o tratamento de desintoxicação e obter a guarda da filha.

"Foi a única entre as tantas que passaram por nós. Sinto uma felicidade imensa de ver ela e a filha nas redes sociais. Elas estão se desenvolvendo bem e juntas ", conta Taline.

No entanto, as histórias que mais se repetem trazem a marca da tristeza. Como a da mulher que após a morte do marido entrou a fundo no consumo de pasta-base. Antes, a droga era maconha, mas com uso esporádico. Nas ruas, foram três gestações: em 2017, 2018 e 2019.

“Ela fala alemão, inglês, francês, é viajada. Mas vive em estado deplorável, extremamente magra. Algumas vezes, volta para saber do filho, chora. A gente tenta cuidar”, diz Taline, que acompanha a saga das mulheres e as crianças.

O setor de Assistência Social da maternidade procura a família da gestante, arruma a documentação para o registro da criança e comunica a situação à Justiça.

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