“Não é trânsito, é mobilidade”, diz urbanista sobre caos na BR-262
Especialista aponta falhas de logística, cultura do carro e acesso único como causas do colapso

O colapso no trânsito durante e pós o show do Guns N' Roses, em Campo Grande na noite de quinta-feira (9), não foi surpresa nem resultado de um único erro operacional. Para o arquiteto e urbanista Fayez José Rizk, com mais de 50 anos de atuação na área, o problema já estava “cantado” e revela uma falha estrutural na forma como a cidade planeja seus deslocamentos.
RESUMO
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Urbanista com mais de 50 anos de experiência, Fayez José Rizk afirma que o colapso no trânsito durante o show do Guns N' Roses em Campo Grande era previsível e revela falhas estruturais históricas na mobilidade urbana da cidade. Segundo ele, a ausência de departamentos dedicados ao tema, a priorização da fiscalização em detrimento da operação de tráfego e a dependência excessiva do carro pela população tornam eventos de grande porte suscetíveis ao caos.
Em entrevista ao Campo Grande News, ele fez uma distinção que considera essencial e frequentemente ignorada. “Mobilidade urbana não é só trânsito. Trânsito é apenas um componente”, afirmou. Segundo ele, esse conceito ainda é pouco compreendido pelas autoridades locais, o que ajuda a explicar por que situações como a registrada na BR-262 continuam se repetindo.
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Na avaliação do especialista, Campo Grande sequer possui, na prática, uma estrutura dedicada à mobilidade urbana. “Nem a prefeitura, a quem cabe planejar, operar e fiscalizar, tem realmente um departamento de mobilidade urbana. E nem o Estado tem”, disse.
Outro ponto central é a forma como o trânsito é tratado. Rizk afirma que há uma distorção histórica na atuação dos órgãos responsáveis, que priorizam a fiscalização em detrimento da operação de tráfego. Ele lembra que o próprio Código de Trânsito Brasileiro substituiu o conceito de “policiamento” por “fiscalização”, retirando o tema da esfera da segurança pública e inserindo-o no campo do planejamento urbano.
Na prática, porém, essa mudança não se consolidou. “Os órgãos de trânsito têm uma dedicação errônea à fiscalização. Operação de tráfego praticamente não existe”, afirmou. Ele cita situações cotidianas para ilustrar o problema, como motoristas que param em locais inadequados sem qualquer orientação. “Um operador de tráfego impede, orienta, organiza. Sem isso, o sistema se desorganiza.”
No caso específico do show, o especialista afirma que o fracasso era previsível diante dos números envolvidos. “Era evidente que o deslocamento não seria feito de forma adequada”, disse.
Em um exercício simples, ele calcula que um público de 30 mil pessoas, mesmo considerando cinco ocupantes por veículo, resultaria em cerca de 6 mil carros. “Em uma rodovia de pista simples, isso daria uma fila de aproximadamente 36 quilômetros. É simplesmente impossível”, afirmou.
Segundo ele, essa conta ainda parte de um cenário irreal. “Isso exigiria que todos saíssem na mesma hora, com a mesma velocidade, com o mesmo número de pessoas por carro. Não existe isso na prática”, completou.
Mesmo a alternativa de transporte coletivo enfrenta limitações. Para transportar esse público em uma única viagem, seriam necessários cerca de 750 ônibus. “E provavelmente não temos esse número disponível. Além disso, o sistema de ônibus da cidade não é estruturado para atender uma demanda dessas”, disse.
“Cabeça, tronco e carro” - Para além da estrutura, Rizk aponta que o comportamento da população também pesa diretamente no resultado. “Mobilidade também é cultura”, afirmou.
Segundo ele, Campo Grande tem uma relação excessivamente dependente do carro. “Aqui a pessoa é cabeça, tronco e carro”, disse, em tom crítico.
Essa característica, segundo o especialista, cria uma expectativa incompatível com eventos de grande porte. “Em cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo, as pessoas já sabem que vão precisar caminhar, usar transporte coletivo, sair com antecedência. Aqui existe a expectativa de chegar de carro praticamente na porta.”
Para ele, enquanto esse comportamento não mudar, qualquer operação estará sempre sob risco de colapso.
Rizk também chama atenção para a ausência de medidas operacionais básicas, como sinalização temporária adequada. “Existe previsão legal para sinalização temporária, com cones, placas de proibição de parada, ordenamento de tráfego. A pergunta é: isso foi feito como deveria? E quem paga por isso?”, questionou.
Ele reforça que o problema não se resume ao fluxo na rodovia, mas à falta de planejamento logístico como um todo. “Não é só trânsito. É logística”, disse.
Entre as alternativas, ele cita a restrição de acesso de veículos particulares após determinado horário e a priorização do transporte coletivo como formas de distribuir melhor o fluxo ao longo do dia.
Apesar das críticas, Rizk evita apontar um responsável direto pelo caos registrado. Para ele, o problema é resultado de uma construção histórica. “Não é uma pessoa ou uma gestão. É uma construção de décadas”, afirmou.
O episódio, segundo ele, apenas evidenciou uma falha que já existia. “Esse fracasso deve reduzir, e muito, a confiança do público, especialmente de quem veio de fora”, disse.
Como síntese, deixa um alerta direto: “Mobilidade urbana é matéria de urbanismo, atribuição de arquitetos e engenheiros. Do jeito que está sendo tratado, não vai funcionar.”
Melhor local - Ao avaliar possíveis soluções, o especialista afirma que o local do evento também influencia diretamente na mobilidade. Na avaliação dele, hoje, o Estádio Morenão seria uma opção mais adequada para grandes eventos. “O Morenão tem mais acessos e permite deslocamento a pé. Isso já faz diferença”, afirmou.
Ainda assim, ele alerta que nem mesmo o local resolveria o problema sozinho. “Mesmo lá, precisa de planejamento. Não dá para permitir que todo mundo vá de carro.”
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