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Capital

Para denunciar pai por agressões, menina ligou 9 vezes até ser atendida no 190

Criança era vítima constante do homem, que foi preso. "Se ele for solto, vai matar eu e ela", diz a mãe

Por Dayene Paz e Raíssa Rojas | 04/01/2026 14:09
Para denunciar pai por agressões, menina ligou 9 vezes até ser atendida no 190
Menina de 9 anos, que chamou a polícia para salvar a mãe. (Foto: Paulo Francis)

Uma menina de apenas 9 anos precisou insistir nove vezes ao telefone para conseguir ajuda. Do outro lado da linha, o pedido era desesperado: ela não aguentava mais as agressões dentro de casa. A última ligação ao 190 foi atendida e resultou na prisão em flagrante do pai, um borracheiro de 28 anos, após mais um episódio de violência doméstica, na noite de sexta-feira (2), no Jardim Los Angeles, em Campo Grande.

RESUMO

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Uma menina de 9 anos precisou ligar nove vezes para o número 190 até conseguir ajuda policial durante mais um episódio de violência doméstica em Campo Grande. O pai, um borracheiro de 28 anos, foi preso em flagrante após agredir esposa e filha na noite de sexta-feira (2), no Jardim Los Angeles. A família vive em situação de vulnerabilidade e, segundo relatos, as agressões se intensificaram após 2020. A filha mais velha era o principal alvo das violências, tendo sofrido tentativas de sufocamento e agressões físicas desde os três anos de idade. A mãe, de 25 anos, teme pela vida caso o agressor seja solto.

A reportagem esteve na casa da família na manhã deste domingo (4). O cenário traduz a vulnerabilidade: rua sem asfalto casa muito simples, de reboco cru, com o muro precário. “Se ele [pai} pular, não aguenta”, comentou a própria criança, apontando para a estrutura frágil. Dentro, poucos cômodos e tudo revirado, ainda com objetos espalhados desde a noite das agressões.

Enquanto conversava com a equipe, a mãe - extremamente magra, abatida e visivelmente em choque - se encolhia, com os braços envolta do corpo. Durante todo o tempo, olhava para os lados fazendo a mesma pergunta: “Ele foi solto? Se ele for solto, vai matar eu e ela”.

Ao Campo Grande News, a mulher contou que o casal se conheceu ainda jovem, na igreja. Ela tinha 15 anos, ele 18. A mãe dela, desde o início, alertava que ele não parecia um bom parceiro e o aviso nunca saiu da memória. O comportamento agressivo começou a se intensificar após a morte da sogra, em 2020, vítima de infarto. Foi a partir dali que as violências se tornaram frequentes.

Segundo o relato, o foco sempre foi a filha mais velha. Ele rasgava as roupas da menina, a impedia de brincar, xingava e batia. Aos 3 anos, quebrou um celular na cabeça da criança e aos 6, empurrou-a contra uma porta; o olho da menina atingiu a maçaneta. Em outra ocasião, tampou sua boca e nariz, impedindo que respirasse.

Na última semana, o pai voltou a sufocar a criança, que já chegou a ter crises de desmaio por causa das agressões. Foi durante um desses episódios que a mãe se revoltou.

Para denunciar pai por agressões, menina ligou 9 vezes até ser atendida no 190
Mulher mostra a ligação feita pela filha enquanto conversa com a reportagem. (Foto: Paulo Francis)

Durante a entrevista, a própria criança contou, com firmeza impressionante para a idade, que aprendeu na escola, aos 6 anos, como chamar a polícia e foi o que fez na sexta-feira passada. “Falei que meu pai e minha mãe estavam brigando”, disse. O irmão mais novo, de 6 anos, nunca foi agredido. “O foco dele era nela (menina de 9 anos)”, resumiu a mãe.

Na noite em que o pai foi preso, a menina ligou nove vezes para o 190. “Na última, eles atenderam. Eu nem sei como vai ser se ele sair. É a primeira vez que vai preso. Se eu tivesse denunciado antes, talvez fosse diferente”, disse a mulher.

De acordo com o boletim de ocorrência, a Polícia Militar fazia rondas pela região quando foi acionada para atender o caso. No local, encontrou a mulher com os dois filhos e o agressor ainda dentro da casa. A menina confirmou aos policiais que as agressões eram constantes e que o pai já tentou matar a mãe com um canivete, sendo impedido por vizinhos.

O homem foi preso em flagrante e o caso registrado na Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher). Mesmo assim, o medo permanece. A mulher ainda não registrou boletim de ocorrência formalmente por conta própria e se diz insegura para ir à delegacia sozinha com as duas crianças. Na sexta-feira, acabou indo embora da Deam porque estava transtornada e já era muito tarde. Ela repete que se sente sem rumo, em extrema vulnerabilidade, e acredita que ele vai voltar.

Se você vive ou testemunha qualquer forma de violência doméstica, denuncie. O Ligue 180 funciona 24 horas, de forma gratuita e sigilosa, para orientação e acolhimento. Em situações de risco imediato, ligue 190. Um telefonema pode salvar vidas.

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