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Capital

Pelas mãos do pai, menino soterrado no Lixão chega ao último destino

Por Aline dos Santos e Paula Maciulevicius | 30/12/2011 12:18

O pedreiro - que ontem estava disposto a enfrentar toneladas e toneladas de lixo em busca do filho- chorava baixinho

O caixão estava lacrado e com uma foto do menino colada na tampa. (Foto: Pedro Peralta)
O caixão estava lacrado e com uma foto do menino colada na tampa. (Foto: Pedro Peralta)

Foi pelas mãos do pai que o menino Maikon Correia de Andrade, de 9 anos, chegou ao último destino de sua curta vida.

O pedreiro Reginaldo Pereira de Andrade, de 33 anos, - que ontem estava disposto a enfrentar toneladas e toneladas de lixo em busca do filho, soterrado no Lixão de Campo Grande, - chorava baixinho enquanto conduzia o menino para a cova no Cemitério do Cruzeiro.

O caixão estava lacrado e com uma foto do menino colada na tampa. Sob o céu cinzento e uma garoa fina, a dor de Lucilene Côrrea, de 31 anos, mãe do garoto, se transformava em gritos, lágrimas e desmaios. “Isso é uma tragédia, uma desgraça. Meu filho não vai embora, não vai embora. Pelo amor de Deus”, balbuciava.

Os amigos davam amparo e, com um vidro de álcool, tentavam reanimá-la. Ela foi colocada sentada em um túmulo. No trajeto, os chinelos de borracha se perderam e os pés se sujavam no barro.

Quando acordada, Lucilene, mãe de cinco filhos, fechava os olhos para não ver o sepultamento de Maikon. Por fim, devido aos novos desmaios, ela teve que ser levada ao posto de saúde do bairro Nova Bahia.

A dor da mãe do garoto, se transformava em gritos, lágrimas e desmaios. (Foto: Pedro Peralta)
A dor da mãe do garoto, se transformava em gritos, lágrimas e desmaios. (Foto: Pedro Peralta)

Vizinhos do lixo - Chorando muito, um garoto de 11 anos, amigo do menino morto, buscava explicações. “Ele era muito bom, cara. Não sei por que foi lá?”. A montanha de lixo - que impressiona pela quantidade, pelo odor da decomposição e pela degradação a que se chega para conseguir o pão de cada dia – era vizinha de Maikon e permanece a ser realidade para muitas outras crianças, no bairro Dom Antônio Barbosa.

“Da BR, já para ver as crianças em cima do barranco”, conta Cleber Pereira de Andrade, de 31 anos, tio do menino soterrado pelo lixo. Ele morou 12 anos próximo ao Lixão, que foi seu local de trabalho por sete anos.

“As crianças entram e saem na hora que quer. O que aconteceu com o meu neto pode acontecer com outra criança. Isso não teria acontecido se tivesse segurança”, enfatiza Creuza Pereira de Andrade, avó de Maikon.

A morte em meio ao lixo tornou o fim precoce ainda mais difícil para os familiares. “O menino era tão querido. Não merecia morrer desse jeito. Não queria acreditar que ele morreu assim”, diz a tia Luciana Côrrea.

Pai foi na dianteira, levando o caixão para a cova. (Foto: Pedro Peralta)
Pai foi na dianteira, levando o caixão para a cova. (Foto: Pedro Peralta)

Comoção - O trágico destino do menino que entrou de bicicleta e saiu morto do Lixão comoveu a recreadora Rosemari Oliveira Magalhães, de 45 anos. Ela, que estava no cemitério para o enterro de um conhecido, fez questão de acompanhar o sepultamento do garoto.

“Todos nós temos que morrer. Mas a dor é bem mais intensa quando é um filho. Para a gente que é mãe, é muito doído”, relata, acompanhada pela filha de 6 anos.

Os amigos da família foram levados ao local do enterro por um ônibus do transporte coletivo, que teria sido obtido por meio de intervenção de líderes comunitários. O serviço funerário foi coberto pelo plano de um político.

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