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Problema crônico, fiação baixa atrasa entregas e expõe ao perigo de acidentes

Frequente, rompimento de cabos por caminhões provocam interrupções nas redes de energia, telefonia e internet

Por Jones Mário, Clayton Neves e Ana Beatriz Rodrigues | 06/08/2020 14:00
Caminhão-baú passa a centímetros da fiação sobre a Rua 15 de Novembro, no Centro (Foto: Kísie Ainoã)
Caminhão-baú passa a centímetros da fiação sobre a Rua 15 de Novembro, no Centro (Foto: Kísie Ainoã)

Trabalhadores e frequentadores do Centro de Campo Grande lidam quase que semanalmente com problemas envolvendo o sistema de cabeamento de energia e telefonia na região. A fiação baixa e os emaranhados que se formam pelos postes são constantes causas de incidentes, como o ocorrido no início da semana, na Rua 15 de Novembro, após caminhão romper fios e deixar comerciantes dois dias sem acesso à internet.

Os cabos soltos ou frouxos também atrasam os serviços de carga e descarga de mercadorias no Centro. Sem se identificar, motorista de caminhão de uma empresa de bebidas, de 39 anos, relata que desvios por caminhos mais longos do que o normal são rotina, a fim de evitar ruas onde a fiação pode acabar levada pelo veículo.

"Comigo mesmo já aconteceu [de romper fios] duas vezes: uma no Amambaí e outra no Cabreúva. Infelizmente é um risco que a gente corre. Tem vezes que tem que pegar outros caminhos mais longos ou desviar três, quatro quadras, Às vezes a gente até entra na rua e quando vê está em cima do fio, tem que manobrar, dar ré, dar um jeito de sair”, relata o motorista, que dirige carreta com 3,5 metros de altura.

Funcionário de concessionária de energia trabalha para recuperar fiação danificada (Foto: Kísie Ainoã)
Funcionário de concessionária de energia trabalha para recuperar fiação danificada (Foto: Kísie Ainoã)

Funcionário de uma loja na 15 de Novembro, entre a Rua 14 de Julho e a Avenida Calógeras, Aldo Sanchez, 21, testemunhou o acidente de segunda-feira (3). Em oito meses no local, foi a segunda vez que viu um caminhão derrubar a fiação naquele ponto.

“Foi um transtorno muito grande, porque bloqueou a 15, impediu clientes de passar, se tornou perigoso. Muitos carros subiram na calçada, porque não conseguiam passar pela rua. Aqui e em pelo menos mais três lojas ficamos sem internet dois dias”, lembra.

Sanchez aponta para vários emaranhados de fios no alto dos postes naquele mesmo ponto e recorda que crianças passavam na calçada quando o caminhão rompeu o cabeamento. Ele garante que teve quem se expusesse ao perigo e pegasse os fios soltos com as mãos após o incidente, sem nenhum tipo de equipamento de proteção.

Fios emaranhados no poste em rua do Centro e ao alcance de quem passar pelo local (Foto: Kísie Ainoã)
Fios emaranhados no poste em rua do Centro e ao alcance de quem passar pelo local (Foto: Kísie Ainoã)

Exemplo - As obras de revitalização da Rua 14 de Julho, concluídas no ano passado, extinguiram os postes do trecho entre as avenidas Fernando Corrêa da Costa e Mato Grosso. Pelo menos 78 mil metros de cabos foram embutidos em rede subterrânea.

Até a reforma, o comerciante Walter Izídio de Souza, 55, já havia perdido as contas de quantas vezes viu incidentes com caminhões e fiação na rua.

Comerciante Walter Izídio de Souza se diz "aliviado" após embutimento de fios na Rua 14 de Julho (Foto: Kísie Ainoã)
Comerciante Walter Izídio de Souza se diz "aliviado" após embutimento de fios na Rua 14 de Julho (Foto: Kísie Ainoã)

“Fico sabendo de coisas como foi na 15 de Novembro e dá até um alívio em saber que não vai acontecer mais na frente da minha loja. A rede subterrânea poderia ser em toda cidade, mas é complicado. É um transtorno para fazer, leva tempo”, acredita.

Aposentada, Creuza Gregório, 65, fala em “medo de levar choque só de passar embaixo do emaranhado de fios”. “É muito perigoso. Poderia ser assim [cabeamento embutido] na cidade toda. Melhoraria o estético e reduziria o perigo”, completa.

Bairros - Os problemas com a fiação não são exclusividade da região central. Graças a um fio solto na Avenida Jerônimo de Albuquerque. região do Nova Lima, a vendedora de churros Ivonete Apolinário teve um acidente com seu carrinho.

Segundo relatos da vítima via canal Direto das Ruas, o item estava preso no reboque de seu carro e enroscou em fio da rede de internet que estava solto no local. O incidente quebrou utensílios usados por Ivonete para trabalhar.

A Ligue Net, responsável pela fiação, informou que os fios foram arrebentados por uma carreta. Assim que notificada, a empresa abriu uma ordem de serviço e fez o reparo horas depois.

O grupo relatou que entrou em contato com Ivonete e vai arcar com todos os gastos para conserto do carrinho de churros.

Outro lado - Procurada sobre projetos, em andamento ou em elaboração, para melhorar o sistema de cabeamento de energia, telefonia e internet em Campo Grande, a prefeitura disse que a responsabilidade é das concessionárias de energia e de telefonia.

Porém, obras como a da rede subterrânea na Rua 14 de Julho são de iniciativa da administração municipal.

Rua 14 de Julho sem postes com fiação de energia e telefonia após as obras de revitalização (Foto: Kísie Ainoã)
Rua 14 de Julho sem postes com fiação de energia e telefonia após as obras de revitalização (Foto: Kísie Ainoã)

O Plano Municipal de Iluminação Pública, publicado em 2019, contava 92.744 postes distribuídos por Campo Grande, só entre os que tinham luminárias acopladas. Destes, 10 mil apenas no Centro.

Sobre o problema, a concessionária responsável pelo fornecimento de energia na Capital. afirma que a altura dos cabos da rede de distribuição de energia atendem rigorosamente aos padrões e normas técnicas do setor elétrico.

Segundo a Energisa, periodicamente são realizadas inspeções nas áreas urbanas e rurais , com a manutenção de fios e estruturas da rede de distribuição, assim como o alinhamento e adequações necessários. "A concessionária notifica as demais empresas de telefonia e internet que utilizam as estruturas como suporte de seus cabeamentos quando há irregularidades", afirma a assessoria em nota.

A reportagem procurou também a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que regula as operadoras de telefonia. Mas não houve resposta até a publicação deste texto.