Entre contas e recomeços, trabalhar ganha novos sentidos depois dos 60
Dioneia e Gladia mudaram de profissão, encontraram renda e convivência, mas também desafios
Aos 70 anos, Dioneia Batista dos Santos trocou uma década como cuidadora de idosos pelo refeitório do Comper Itanhangá, em Campo Grande. Desde junho, prepara o café da manhã e serve refeições aos funcionários. Para facilitar a rotina, alugou uma kitnet perto do supermercado.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
No Dia da Pessoa Idosa, histórias de trabalhadores com mais de sessenta anos revelam os desafios e os benefícios da permanência no mercado de trabalho em Campo Grande. Dioneia dos Santos, de setenta anos, e Gladia Cubel, de sessenta e quatro, precisaram mudar de profissão após aposentadorias ou perdas familiares para complementar a renda e manter a saúde mental. Especialistas destacam que a experiência e a troca de gerações enriquecem as empresas.
Mesmo aposentada, ela precisava complementar a renda para continuar pagando o apartamento que havia comprado. Quando o idoso de quem cuidava morreu, em setembro do ano passado, começou a procurar outro emprego. “Eu tinha comprado meu apartamento e precisei voltar a trabalhar, senão poderia perdê-lo”, declara.
Neste 1º de outubro, Dia da Pessoa Idosa, histórias como a de Dioneia mostram os diferentes motivos para continuar no mercado depois dos 60 anos. Além de pagar as contas, o trabalho pode representar uma mudança de rotina, a oportunidade de aprender outra profissão e o convívio com outras pessoas.
Mesmo com dez anos de experiência como cuidadora, Dioneia não quis permanecer na área. Sem experiência em refeitório, recebeu treinamento para assumir a nova função. “Estou amando o que faço aqui. Eles me deram curso na área e foi maravilhoso”, conta.
O emprego trouxe ainda uma rotina diferente e mais contato com outras pessoas. “É uma delícia. É um carinho recíproco, tanto deles comigo quanto meu com eles. É muito gratificante para mim”, diz.
Não foi a primeira vez que Dioneia precisou reorganizar a vida profissional. Durante 21 anos, ficou fora do mercado para cuidar da filha com deficiência. Após a morte dela, começou a trabalhar como cuidadora. Agora, aos 70, vive uma nova mudança de profissão.
De 34 anos no turismo para o caixa - No mesmo supermercado, Gladia Cubel, de 64 anos, também precisou aprender uma atividade diferente depois de décadas na mesma área. Formada em Turismo e guia, ela trabalhou durante 34 anos no setor. Há dois, tornou-se operadora de caixa.
A pandemia afetou o turismo e reduziu a rotina profissional de Gladia. Depois, com a morte da mãe, ela passou por um período difícil. Foi nessa fase que surgiu a oportunidade no supermercado. “Encontrei esse trabalho em um momento em que precisava muito, principalmente psicologicamente. Gostei e continuo aqui”, conta.
O contato diário com os clientes tornou-se uma das razões para permanecer. “Isso foi maravilhoso para mim porque me obriga a conversar com as pessoas. Às vezes, elas vêm conversar, pedem conselhos. Você ajuda e também é ajudada. É uma terapia. Antes não tinha força para sair de casa”, comemora.
A troca de profissão também significou uma redução na renda. Como guia, Gladia tinha mais autonomia para definir quanto cobrava pelos serviços. “Sem dúvida, hoje ganho menos. Antes eu colocava um valor, era bem diferente. Hoje tenho que aceitar o que me pagam”, relata.
Ela, porém, não abandonou o turismo. Agências de diferentes estados continuam a procurá-la e ela aceita serviços como guia sempre que pode. “Semana passada mesmo fiz um trabalho. Acho que o turismo está no meu sangue. Eu gosto muito”, destaca.
Divorciada, sem filhos e morando sozinha, Gladia vê na ocupação uma forma de manter o convívio com outras pessoas. Perto de se aposentar, não pretende parar. “Claro que todo mundo precisa de dinheiro, mas também quero continuar pelo contato com as pessoas, para conversar e me ocupar.”
Mudança de área é um dos desafios - As trajetórias de Dioneia e Gladia mostram que continuar trabalhando pode exigir uma mudança de profissão. Essa dificuldade também aparece nos relatos de candidatos mais jovens, a partir dos 50 anos, segundo a especialista em ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) do Grupo Pereira, Adrileny Bogado Constantino.
Responsável pelas ações de diversidade, ela afirma que a empresa acompanha esse público desde 2019 e, a partir de 2023, passou a desenvolver iniciativas específicas para essa faixa etária.
Segundo Adrileny, uma das principais dificuldades é conseguir recolocação na profissão exercida anteriormente. “A gente recebe muitos relatos sobre a dificuldade de conseguir uma recolocação, principalmente na área deles.”
Outros preferem aproveitar o momento para mudar de carreira, mas podem esbarrar na falta de experiência na atividade escolhida e na resistência de algumas empresas. “Nem todas as empresas estão aptas a recebê-los”, explica.
Entre os candidatos com mais de 50 anos que procuram o grupo, há também aposentados que querem complementar a renda ou manter uma rotina. “Eles optam por retornar ao mercado não só pelo complemento de renda, mas também pela saúde mental”, afirma Adrileny.
No ambiente profissional, ela destaca a pontualidade e a facilidade no atendimento ao público. A convivência entre gerações, segundo a especialista, também traz ganhos para as equipes. “Eles aprendem com os nossos jovens, assim como os jovens também têm o que aprender com eles. Essa troca de gerações dentro da empresa contribui para uma rotina mais equilibrada.”
Segundo o Grupo Pereira, a empresa emprega 1.077 trabalhadores com mais de 50 anos, o equivalente a 20% do quadro de funcionários das lojas do grupo. Conforme os dados apresentados pela empresa, a proporção supera em 4 pontos percentuais a média nacional, de 16%.
Experiência na contratação - Na intermediação feita pela Funsat (Fundação Social do Trabalho), a idade, segundo o diretor-presidente João Henrique Lima Bezerra, não tem impedido o encaminhamento de trabalhadores com mais de 50 anos às empresas.
Para o gestor, a experiência acumulada pode ser um diferencial na contratação. A permanência desses profissionais após o período de experiência é um dos pontos positivos observados pela fundação. “São pessoas comprometidas, ainda com muita energia e dedicação para contribuir no mercado de trabalho. A experiência de uma vida faz total diferença e muitos deles são arrimo de família”, relata.
Conforme o diretor-presidente, há oportunidades para essa faixa etária em Campo Grande. “Pelo menos na nossa intermediação, a faixa etária não é uma barreira para conseguir um emprego. Há vagas para quem quer trabalhar”, assegura.
Para Dioneia, o novo emprego também faz parte dos planos de retomar a graduação em Serviço Social, interrompida enquanto cuidava do idoso. Antes de voltar aos estudos, porém, ela quer organizar as contas. “Este ano quero me estabilizar financeiramente”, afirma.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.






