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Campo Grande, Domingo, 15 de Setembro de 2019

17/11/2017 18:09

A família descobriu, depois do suicídio, o bullying que Karina sofria

Neste sábado, uma passseata organizada por parentes da menina, vai alertar sobre o problema

Geisy Garnes
Karina tinha 15 anos e sonhava em ser delegada (Foto: Arquivo pessoal)Karina tinha 15 anos e sonhava em ser delegada (Foto: Arquivo pessoal)

No dia 7 deste mês Karina deixou essa vida. Enforcou-se no quintal de casa e foi encontrada horas depois pela mãe. A dor que sentia, as agonias de uma adolescente marcada pela divulgação de fotos íntimas, bullying e pelo discurso de ódio de colegas da escola só foram descobertas pela família depois, quando em meio ao sofrimento, se depararam com o desrespeito à imagem da jovem já morta. 

“Queremos entender o porquê, como isso começou. Se foi quando as fotos íntimas foram divulgadas e até se o bullying tem ligação com isso”, explicou Aparecido de Souza Oliveira, de 47 anos, sem detalhar o conteúdo das imagens que vazaram há um ano. 

Neste sábado, 10 dias depois da morte, uma passeata na cidade onde ela vivia, Nova Andradina - a 300 km de Campo Grande -, vai alertar sobre os riscos que  o bullyng representa.

Karina tinha 15 anos quando se foi, mas para a família, que agora tenta entender tudo que aconteceu, o sofrimento da menina começou um ano antes, quando conheceu um rapaz, na época com 17 anos. Do relacionamento, a adolescente viu a intimidade exposta, contada de boca em boca pelas pessoas com quem convivia diariamente. Viveu o fantasma do vazamento de fotos íntimas e a propagação instantânea pelas redes sociais.

A menina estudava na Escola Nair Palácio de Souza e à tarde fazia curso técnico em administração. Vivia entre a casa do pai e da mãe, que são separados.

“Há uns dois meses atrás ela me perguntou se achava que ela era vagabunda. Me contou que não era mais virgem, falei que isso era normal e aí soube que esse rapaz tinha espalhado o fato [que Karina fazia sexo]. Mas não sabia de foto, isso só descobrimos depois, quando ela morreu”, contou o pai de Karina, o bacharel em direito Aparecido.

Os sinais da jovem de que algo não estava bem eram mínimos segundo o pai, e só começaram a aparecer nos últimos dias. “Há 20 dias mais ou menos fui chamado na escola, me falaram que ela havia tomado remédio na casa de uma amiga, eu não sabia que remédio era esse. Ela me contou que não queria mais morar aqui, que queria sair da escola”, lembra Aparecido.

De férias, o pai começou a se preparar para a mudança, iria voltar a Paranaíba, onde se formou em Direito, e junto levaria Karina. Ela tinha o sonho de se formar na mesma carreira do pai, virar delegada e na cidade começaria a se preparar para a faculdade. Nesse intervalo, a tragédia encontrou a família.

Bullying - Foi só depois da morte de Karina que os pais descobriram a proporção do sofrimento. Mesmo depois de algo tão trágico quanto o suicídio, mensagens de ódio passaram a circular nas redes sociais, colegas de escola afirmando que a morte não mudariam o fato de não gostarem da menina, a chamando de “cão”.

Críticas sobre o cabelo crespo, que ela costumava alisar, chegaram ao conhecimento dos pais.

“Eu não sabia que estava acontecendo isso, que essa dor dela era tão grande a esse ponto. Que uma pessoa que ri com você, tirar foto com você, sofria tanto. O mundo deles é tão fechado e geralmente eles não contam, acham que podem resolver sozinhos”, lamentou Aparecido.

Nas redes sociais, amigos e familiares lamentaram a morte da adolescente (Foto: Arquivo pessoal)Nas redes sociais, amigos e familiares lamentaram a morte da adolescente (Foto: Arquivo pessoal)

Foto até depois da morte - Aprendendo a lidar a com a perda, a família se deparou com a imagem de Karina sendo exposta mais uma vez. Imagens do cenário de sua morte foram compartilhadas e exibidas em grupos de WhatsApp. “Mandaram uma foto para a irmã dela, em Lins (SP). Ela passou mal, precisou ficar internada”, conta o pai.

Tudo foi levado à polícia. As mensagens de ódio, a exposição da morte, as possíveis causas do desespero que levaram a adolescente a tirar a própria vida.

Como homenagem, e também uma mensagem de alerta, os parentes de Karina organizam uma passeata, que vai acontecer neste sábado (18).

“Eu não tive nem tempo de salvar ela. Essa passeata, que tem foco nos jovens, é para que eles tomem conhecimento do mal que essas atitudes causam e também para que eles respeitem a pessoa após a morte. É em nome da paz, do amor, um não ao ódio. Porque as políticas públicas estão sempre na mesma, não estão conseguindo lidar com o suicídio, que está sempre aumentando”.

Na escola que Karina estudava, os alunos receberam atendimento psicológico, uma maneira, segundo Aparecido, de ajudar aqueles que podem estar passando pelo mesmo problema da filha.

A jovem sofria bullying e falou para o pai que não se aceitava como era (Foto: Arquivo pessoal)A jovem sofria bullying e falou para o pai que "não se aceitava como era" (Foto: Arquivo pessoal)

Investigação - A morte da adolescente é investigada pela 1ª Delegacia de Polícia Civil de Nova Andradina. Segundo o delegado responsável pelo caso, Luiz Quirino Antunes Gago, alunos da Escola Nair Palácio de Souza, parente e amigos de Karina estão sendo ouvidos.  A polícia aguarda o resultado dos laudos para confirmar as circunstâncias da morte.

Ainda de acordo com o delegado, mesmo com a comprovação do bullying, dificilmente será possível comprovar a ligação com a morte. “O Código Penal considera crime induzir ao suicídio, mas para isso a pessoa tem que ter agido diretamente. Nesses casos é difícil fazer essa ligação, mas vamos investigar se alguém teve responsabilidade direta na morte”, explicou.

Um boletim de ocorrência por vilipêndio a cadáver, cometido por quem divulgou as imagens de Karina já morta, também foi registrado. A pena para esse tipo de crime é de 1 a 3 anos de detenção e multa aos acusados.

Prevenção - O CVV (Centro de Valorização da Vida) funciona como um canal de prevenção ao suicídio. Pessoas que pensam em tirar a própria vida podem fazer contato pelo telefone, pelo número 141, e-mail ou Skype, e até pessoalmente. Os voluntários estão dispostos a ouvir e o sigilo é garantido.

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