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14/04/2019 00:32

A surpreendente história do uso do éter na cirurgia

Mário Sérgio Lorenzetto
A surpreendente história do uso do éter na cirurgia

Na pequena cidade de Jefferson, na Geórgia, EUA, um médico de 26 anos chamado Crawford Williamson Long removeu um tumor do pescoço de um homem chamado James Venable anestesiado com éter. A data era 30 de março de 1842. Há 77 anos o mundo começou a se livrar das dores aterrorizantes nas cirurgias. Mas poucos tomaram conhecimento dessa façanha.

A surpreendente história do uso do éter na cirurgia

Morton fez uso do éter e fez propaganda.

Mais de quatro anos depois da experiência de Long, em Boston, EUA, no dia 16 de outubro de 1846, Thomas Morton, um dentista, serviu como anestesista, enquanto o médico John Warren realizava uma cirurgia no pescoço de um paciente. A notícia chegou aos jornais e revistas médicas. E assim a história foi escrita - incorretamente. O legado pertence a Long e não a Morton.

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O Éter Dome do Hospital de Boston.

Durante anos, o Hospital de Boston, até hoje célebre hospital de ensino de Harvard, recebia grandes doações por "esse feito histórico". Uma delas, visava a construção do Éter Dome no local onde muitos acreditavam ter ocorrido a primeira cirurgia sem dor.

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As manobras de Morton para receber prêmios.

Morton trabalhou - sem sucesso - durante anos para que o Congresso dos EUA reconhecesse sua "descoberta" e conceder-lhe um grande prêmio em dinheiro. Tentou disfarçar seu éter com outras substâncias e agentes que lhe davam nova coloração. Chegou a nomear essa substância de "Letheon" - o rio da mitologia grega que induziria ao esquecimento - em seu esforço - malsucedido- para patenteá-lo. O Letheon foi rapidamente identificado como éter, que já estava no domínio público e ninguém teria de pagar ao Morton para usá-lo.

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Um procedimento doloroso e a hipnose.

Até o início do século XIX, havia poucas opções para cirurgia sem dor. O mesmerismo - hipnose - era usado em hospitais e algumas escolas médicas o ensinavam, ainda que não oferecesse resultado algum.
A descoberta de algo para prevenir a dor foi saudado como quase um milagre médico pelo mundo. A história da expertise de Long com o consentimento de seu paciente Venable não ocorreu por acaso. Médico e paciente participavam do "uso recreativo do éter" , algo como o uso recreativo da maconha nos dias atuais. Para médicos e para farmacêuticos, que forneciam o éter, era aceitável. O uso não atingia a medida da inconsciência. Todavia, Long observou que tinha quedas e golpes, durante o uso de éter, sem sentir dor. E assim, Long operou Venable. Mas adiou a publicação da experiência no Southern Medical Journal até 1849. E esse adiamento o tornou um médico ainda mais respeitável.

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As razões de Long para adiar a publicação da descoberta.

Long afirmou que apesar de não acreditar no mesmerismo, necessitava de observar o uso do éter em mais casos. Para conseguir o consentimento de pacientes em uma pequena clinica do interior levou anos. No primeiro caso, removeu três tumores de um paciente no mesmo dia. Os tumores um e três foram removidos sem éter e o tumor dois com éter. Apenas a remoção do tumor dois foi indolor. Dois anos depois, Long amputou dois dedos de um menino no mesmo dia. Um com e outro sem éter. Apenas a amputação com éter era indolor. Long ainda registrou outros poucos casos envolvendo as experiências com éter. E só depois delas, resolveu publicar a experiência.
Mark Twain, o renomado escritor, escreveu sobre as peripécias de Morton para faturar com o éter: "O monumento [Eter Dome] é feito de material resistente, mas a mentira pode durar um milhão de anos".



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