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26/09/2017 06:53

Guerra: conflito entre economias e exércitos

Mário Sérgio Lorenzetto
Guerra: conflito entre economias e exércitos

Rudolf von Havenstein era um funcionário público da mais alta qualificação : um homem gentil e generoso, de integridade inquestionável, que havia estudado direito, atuado como juiz e feito uma carreira de destaque no Ministério das Finanças da Prússia.
Ele também foi, muito provavelmente, o pior presidente de banco central da história.
Criado em 1876, o Reischsbank alemão foi crucial para o surgimento da nova nação unificada como potência industrial e financeira global. Quando Ravenstein assumiu a presidência desse banco central, em 1908, o banco estava em vias de estabelecer um sistema financeiro moderno, tirando lenta e gradualmente de circulação o ouro, prata e moedas de cobre e implementando as cédulas de papel. A Alemanha se tornou um dos principais exportadores de ferro, aço e produtos químicos. Todavia, logo começaram a se espalhar nefastos rumores de conflitos armados na Europa. A Primeira Guerra Mundial se avizinhava.
Dois dias antes que as balas que mataram o Arquiduque Franz Ferrdinand e dessem início a esse conflito, Havensteisn convocou os principais banqueiros comerciais da Alemanha. Não ficou claro se ele fez um pedido, deu uma ordem ou fez uma ameaça: eles precisariam dobrar a liquidez do sistema bancário, garantindo que os marcos circulassem na economia, em vez de ficar parados nos cofres dos bancos. Aparentemente, a medida pretendia direcionar a Alemanha durante um momento difícil. O verdadeiro objetivo era garantir que o país tivesse capacidade financeira para participar da guerra.
Havenstein encarava a guerra, corretamente, como um confronto tanto das economias quanto de exércitos. Ele não demonstrou qualquer relutância em fazer o Reichbank financiar a guerra, que, no início, era considerado um conflito passageiro e rápido. Mas uma guerra só têm data para começar, jamais para terminar. Seu principal objetivo era levar ao comércio alemão uma velocidade nunca vista. Era uma "blitzkrieg financeira".
Os cidadãos alemães foram encorajados a abrir mãos de suas reservas de moedas, de ouro e de prata em troca de papel moeda. O governo alemão, nos primeiros dias da guerra tinha mais dinheiro que o inglês e o frances em conjunto. Só nos primeiros dias... O incentivo ao dinheiro de papel assumiu uma qualidade patriótica. Um cartaz de propaganda foi impresso e divulgado em toda a Alemanha "Ouro para a Pátria! Dei ouro para nossa defesa e recebi ferro como recompensa". Não é piada, é suicídio. A emissão em massa de papel moeda a uma velocidade inadmissível reduziu o valor do marco. Havenstein atribuiu o aumento geral dos preços aos que acumulavam estoques. A inflação era, de fato, alta - mas logo a seguir seria catastrófica. No início da guerra a taxa de câmbio era de 4,2 marcos para um dólar norte americano. Logo a seguir, iria a 7,4 marcos para o mesmo um dólar. As máquinas impressoras de dinheiro não paravam de lançar notas no mercado. Os produtos não paravam de subir os preços. A estratégia de herr Havenstein - contraindo um dívida extraordinária - tinha como premissa a vitória na guerra. Mesmo se a Alemanha tivesse vencido o conflito armado, teria saído e continuado como um país pobre. A dívida era estratosférica. O Ocidente aprendeu. O Brasil esqueceu dessa história.

Guerra: conflito entre economias e exércitos

O modelo econômico chinês que originou a recessão brasileira.

Criado em 1948, o BPC, em suas primeiras décadas, não era somente o Banco Central da China, mas também o único banco, a instituição financeira estatal responsável por disponibilizar crédito para as empresas estatais. Em 1983, quando a China iniciava sua mudança em direção a uma economia híbrida de mercados liberalizados e controle estatal, quatro bancos diferentes se originaram a partir do BPC. Mas o BPC continuou realizando uma variedade de tarefas para o governo chinês, incluindo impressão e circulação de dinheiro, execução de política de taxa de juros e cambial e apoio aos bancos. Os trilhões de dólares em reservas que o governo chinês detêm para se precaver contra os altos e baixos da economia global são mantidos em contas no BPC.
Há outra diferença fundamental entre nosso Banco Central e o dos chineses. Todo governo têm uma ampla gama de ferramentas que pode utilizar para influenciar a economia - de forma mais significativa, tributação e gastos, regulamentação, política monetária doméstica e política cambial internacional. O Brasil delega essas ferramentas a braços distintos do estado: tributação e gastos são territórios do executivo em comunhão com o legislativo. E a política monetária é de exclusividade do executivo.
O sistema chinês coloca todas essas ferramentas do poder do estado sobre a economia nas mesmas mãos, nos mais altos níveis de educação, todos são obrigatoriamente doutores ou pós doutores em economia. O objetivo é usar essas ferramentas em conjunto. Eles entendem que têm um contrato implícito com os 1,2 bilhão de cidadãos do país: "deixe-nos no poder, e vamos dar continuidade ao rápido crescimento que resultará em constante aumento do padrão de vida".
No outono de 2008, quando o sistema financeiro mundial entrou em colapso, o acordo entre o governo chinês e os cidadãos corria o risco de ser rompido. Quanto operários desempregados seriam necessários para que as massas tomassem as ruas?
Em 5 de novembro, o governo anunciou um estímulo de 4 trilhões de renmibi, ou cerca de US$587 bilhões - o equivalente a 12% do PIB chinês daquele ano. "Eles tinham um carimbo vermelho e carimbavam todos os projetos que apareciam pela frente", afirma o mais famoso observador da economia chinesa Victor Shih, professor de uma universidade norte-americana que vive na China. "Uma vez que você tivesse o tal papel - da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma - era só levar ao banco e dizer: dê-me o dinheiro". Sem burocracia. Sem demora. A economia chinesa foi inundada com 4 trilhões de renmibi.
Foi esse modelo que o governo Dilma copiou. Se teve sucesso, porque não copiá-lo? A resposta é simples. O Brasil comprou dinheiro - mais de US$200 bilhões - a taxas elevadas para os padrões internacionais. Estamos pagando algo entre 12% e 14% dos bilhões que compramos para disponibilizá-los aos empresários. A China não comprou um só renmibi. Os 4 trilhões estavam nos cofres aguardando um dia como esse de sérias dificuldades. Acabamos de sair da recessão, mas continuaremos a pagar essa imensa dívida contratada pelo governo Dilma. A China não entrou um só dia em recessão e nada deve.

Guerra: conflito entre economias e exércitos

Porque os mercados estão otimistas?

O principal fator de estímulo dos mercados vem de fora. Com o crescimento sincronizado da economia mundial, farta liquidez, juros baixos e maior apetite por ativos de risco - leia-se investir em países perigosos como o Brasil - o céu das finanças globais é de brigadeiro. Extremamente benigno. Não há sinais visíveis de mudança desse quadro.
Os motivos domésticos também se fazem presentes. Há o prenúncio de um crescimento econômico na casa dos 3% a 4% do PIB em 2018. Os mais pessimistas falam em 2,5%. Apesar da fragilidade política do governo e das dificuldades de consertar o rombo das contas públicas herdado da gestão de Dilma, os mercados não contam com a queda de Temer. Isso só existe no Jornal Nacional. Há ainda a novidade da crise militar. Essa assusta.
A maior parte dos analistas acredita que ainda que Temer não consiga aprovar a reforma da previdência, ela será a primeira iniciativa do próximo presidente. Situo-me na corrente minoritária nesse aspecto. Não creio que isso ocorrerá tão facilmente. Mas há uma parcela do mercado que ainda acredita que Temer aprove a idade mínima e a regra de transição. Difícil, dificílimo. Essa reforma, ainda que pequena, daria credibilidade ao teto para o gasto público e viabilizaria uma taxa de juros muito baixa. A inflação baixa e a queda da taxa de juros para algo entre 6,7% a 7% ao ano é o sonho do mercado inteiro. Destaca-se o pagamento de R$180 bilhões do BNDES para o Tesouro nacional. Serão R$50 bilhões neste ano e R$130 bilhões em 2018. Esse é um movimento financeiro que preocupa o mercado. Tirarão dinheiro do cofre voltado para o mercado e destinarão para os governantes. Só encaram esse pagamento como benigno caso seja aplicado em investimentos de vulto. Mas é sonho, não há tempo hábil para licitações e projetos. A outra alternativa que acreditam que ocorrerá será de alocarem esses R$ 180 bilhões em pagamentos da dívida.
Nem todos têm uma visão otimista sobre o futuro. As eleições de 2018 preocupam. Por enquanto há a visão de que o brasileiro não gosta de extremos e votará no centro. Mas qual centro? Ele está pulverizado. Lula e Bolsonaro estão sólidos nas pesquisas. Neste momento, esse será o embate do segundo turno de 2018. Ambos preocupam os mercados. Lula por voltar a ser caudatário do extremismo da esquerda. Bolsonaro por persistir no mutismo, nada diz sobre seus planos para a economia. Ainda assim, os mercados acreditam que Lula têm uma candidatura muito improvável. Sem ele Bolsonaro encontrará pela frente algum candidato de centro.



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