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05/09/2018 09:20

Museu, a Casa dos Pássaros Queimados

Mário Sérgio Lorenzetto
Museu, a Casa dos Pássaros Queimados
Museu, a Casa dos Pássaros Queimados

Tristes trópicos. Há três anos vimos o Museu da Língua Portuguesa derreter em São Paulo. Agora, o Museu Nacional segue o mesmo caminho. Partes de nossa história foram queimadas. A Casa dos Pássaros é de 1784. Por vinte anos, a casa guardava produtos naturais e indígenas na época do Brasil Colônia, para enviar a Portugal. Com a fuga da família real para o Rio de Janeiro, não havia mais necessidade de enviar peças para Portugal. A casa foi fechada. Entretanto, durante o século XIX, a corte portuguesa continuou seu processo de "modernização" do Brasil, com a construção de museus, jardins botânicos e zoológicos.

O surgimento da Casa dos Pássaros ocorrera pela necessidade do conhecimento de nossas matérias primas. Portugal enfrentava a Revolução Industrial e só tinha uma saída: conhecer melhor sua colônia na América do Sul para melhor explorá-la. A retirada do ouro das Minas Gerais estava em declínio. Os portugueses pensavam em valorizar a agricultura brasileira, transformando a história natural em um núcleo de forte interesse. A casa tinha um jardim botânico e gabinetes de história natural, medalhas, panos, sedas, pinturas e manufaturas, embarcações, vestidos e armas, além de uma boa biblioteca. Mas o que despertava maior interesse eram os gabinetes direcionados aos reinos vegetal, mineral e animal.

Em 1818, foi criado o Museu Real - o atual Museu Nacional - por Dom João VI, herdeiro de todas as peças da Casa dos Pássaros. Foi fundamental o interesse de D.Leopoldina nas ciências naturais.

Foi ela quem veio ao Brasil não só acompanhada por damas de companhia, mas trazia os primeiros cientistas naturalistas em seu séquito. D.Leopoldina acreditava na necessidade do progresso científico e econômico do país. Mas as aves empalhadas da Casa dos Pássaros eram as que continuavam despertando maiores interesses da população brasileira e dos estrangeiros. O local contava com doações de estudiosos, mas a corte resolveu ampliar o Museu exigindo de cada governador das províncias a doação anual de pelo menos duas coleções típicas. Muitos itens se perderam nos caminhos das províncias até o Rio de Janeiro. O Museu desde aquela época se ressentia da falta de verbas e não conseguia manter a chegada de novas coleções do interior e nem de outros países.

O incêndio do Museu Nacional não é uma história nova. É uma longa história da desfaçatez de nossos governantes. Da falta de interesse pela nossa cultura e educação. Não sabemos quem somos. Não sabemos de onde viemos. Outros incêndios, roubos e destruições de nossa memória virão.

Museu, a Casa dos Pássaros Queimados
Museu, a Casa dos Pássaros Queimados

Do Paraguai, uma história sobre igualdade racial.

Há pouco, o New York Times lembrava a disposição dos latino-americanos de buscar a tolerância racial. Recordou que, já em 1858, o México elegia Benito Juárez, um presidente indígena. Desde então, 33 dos 36 presidentes do México têm sido mestiços, alguém oriundo do casamento de um europeu com uma indígena.

Mas, há um momento incomum - e controverso - que é o ápice da hegemonia dos mestiços. Houve um momento em que o governo paraguaio tornou ilegal o casamento entre um europeu e uma europeia. Europeus só podiam casar com indígenas.

Era 1 de março de 1814, José Gaspar Rodríguez de Francia estava prestes a se tornar "Ditador Supremo", título que ocuparia até sua morte em 1840. Muitos creditam à Francia a existência da sociedade pluriétnica, plurilíngue e multicultural do Paraguai. Ele permanece uma figura misteriosa. Tinha um doutorado em teologia, mas na política se comportou como um jacobino francês, um defensor de opiniões revolucionárias extremistas. Administrando um governo austero e organizado, Francia garantiu a independência do Paraguai, mas, ao mesmo tempo isolou seu país do resto do mundo.

Em 1814, Francia emitiu um decreto proibindo casamentos entre "homens europeus" e "mulheres conhecidas como espanholas" - nascidas na Espanha ou descendente de espanhóis. Homens europeus só poderiam se casar com mulheres paraguaias indígenas, mestiças ou negras. As negras e indígenas nômades, na prática, foram alijadas dessa lei. Além de proibir homens europeus de casar com mulheres de mesma origem, Francia também confiscou as terras do reinado espanhol e da igreja e as doou aos indígenas como "fazendas do Estado". Em troca, esses indígenas serviram como soldados leais ao Ditador Supremo. Mas nem um deles poderia assumir um posto acima de capitão. A ideia que estava por trás dessa tentativa de obter igualdade racial à força era a de derrotar a "oligarquia" comercial sediada em Assunção. Essa ideia caiu em desuso logo após sua morte e, logo em seguida, quase toda a população masculina foi aniquilada na Guerra do Paraguai.

Museu, a Casa dos Pássaros Queimados

O daltônico que viu os átomos.

John Dalton não podia ver o mundo como a maioria das pessoas. "Normalmente pergunto seriamente a uma pessoa se uma flor é azul ou rosa, mas normalmente pensavam que estava brincando", conta em uma de suas múltiplas anotações que fez sobre a cegueira para as cores que sofria. Uma patologia que dedicou, intrigado, muitas horas de sua vida. Ainda assim, seus problemas de visão não lhe impediram de compreender mais além do invisível. Teve tempo para postular a primeira teoria atômica da história.

Nascido em uma família inglesa demasiadamente pobre para proporcionar-lhe uma educação elementar, John Dalton (1766-1844), seguiu com determinação um caminho longo e sinuoso para conseguir instrução e poder progredir na vida. Depois de mudar-se para Manchester, produziu estudos profundos em química, física e meteorologia.
Sem dúvida alguma, a maior contribuição de Dalton à ciência foi a primeira teoria científica da história sobre a composição da matéria. Depois de estudar as propriedades físicas do ar atmosférico e de outros gases, recuperou e ampliou o suposto enunciado de mais de 2.000 anos feito pelo grego Demócrito, que defendia que a matéria era formada por partículas indivisíveis chamadas átomos.

A publicação dos estudos de Dalton teve grande repercussão. Ele demonstrou que os átomos de um mesmo elemento, como por exemplo o hidrogênio, são iguais entre si e têm a mesma massa e propriedade. Também demonstrou que os compostos químicos se formam pela união de átomos de dois ou mais elementos. Ele construiu a base da tabela periódica dos elementos. Foi o precursor dos grandes avanços da química do século XIX.

Enquanto estudava as questões da química, um tema recorrente na vida de Dalton o intrigava: seu problema de visão o levou a escrever sobre si mesmo. Até então, a cegueira para cores nunca havia sido descrita. Sua investigação, rigorosa e metódica, foi tão amplamente reconhecida que "daltonismo" se converteu no termo universal para designar essa patologia. Sua hipótese, sobre seu próprio problema, era que ele via o mundo através de um filtro azul, já que pensava que o humor vítreo - substância gelatinosa existente dentro do globo ocular - de seus olhos era azulado. Decidido a que alguém comprovasse sua hipótese, doou seus olhos, após a morte, para que fossem analisados. Estava equivocado. Seu humor vítreo era tão transparente quanto o de qualquer pessoa, o que levou os cientistas a pensarem que o problema estava em como o cérebro percebe as cores. Dalton só enxergava o amarelo, o azul e o púrpura.



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