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18/06/2019 06:35

Quando os cães ficaram desempregados

Mário Sérgio Lorenzetto
Quando os cães ficaram desempregados

A Revolução Industrial pode ter trazido grandes mudanças para a humanidade, mas essa revolução mudou mesmo foi a vida dos cães domésticos. Antes de ser pai do cachorro, o homem era seu patrão. Até o começo do século XIX, a era dessa revolução, os cachorros tinham de trabalhar para viver. Guiar ovelhas e vacas, guardar a casa, puxar trenós na neve: era a função que garantia a ração. Mesmo os cães-caçadores da aristocracia, precisavam mostrar serviço. E assim foi... até o êxodo rural, a migração em massa do campo para a cidade. Com a indústria e a migração, muitos cães ficaram desempregados.

Quando os cães ficaram desempregados

Uma nova peneira nos cachorros que saíram dos campos.

Mas essa mudança de ares não levou a uma extinção em massa dos cães ou a sua volta às origens selvagens. O que aconteceu foi uma nova peneira: assim como na pré-história os lobos mais gentis haviam entrado nas aldeias, na Revolução Industrial eram os cachorros mais dóceis e adaptáveis que entravam nas cidades. Livres das obrigações da lida rural, os cães passaram a usufruir de mimos, guloseimas e passeios. Transformado em bibelô e símbolo de status, o cão deixou de ser avaliado por sua função, e passou a ser pela aparência.

Quando os cães ficaram desempregados

As primeiras olimpíadas e shows caninos.

Os primeiros "dog shows", mistos de olimpíadas e concurso de beleza, foram realizados na Inglaterra na década de 1.830. Como os prêmios eram divididos por raça, havia estímulo para que novas fossem criadas, para abocanhar a premiação em dinheiro. E logo essa demanda ultrapassou as passarelas. Ter um cachorro diferente em casa passou a ser um símbolo de status. Partindo da matriz britânica, de 1.873, pelo mundo inteiro surgiram os "kennel clubs", clubes que promoviam o desenvolvimento de variedades regionais. As cerca de 20 raças existentes em 1.800 dobraram para 40 em 1.873, e chegaram a 70 no início da Primeira Guerra Mundial. Hoje, há cerca de 400 raças.

Quando os cães ficaram desempregados

O surgimento de novas raças levou a defeitos genéticos.

Ringo têm 3 anos de idade. É um cão bonito, obediente e adora humanos, assim como os demais boxers que costumam ser muito sociáveis. Mas, quando Ringo conhece gente nova, não age como um cão normal. Em vez de pular e latir, ele cai no chão e começa a tremer, babar e se contorcer. Quando a convulsão termina, Ringo solta um ganido terrível. Ele têm epilepsia, doença que afeta 5,7% dos cães - taxa 8 vezes maior que a dos humanos.
Talvez você não conheça um cão com epilepsia, mas certamente conhece algum cão que ficou cego ou surdo ou manco ou morreu antes da hora por alguma doença. É triste saber que 1 em cada 4 cachorros carrega algum defeito genético sério. Eles sofrem mais problemas nos olhos e nos ossos e têm mais câncer do que nós. Como se isso não bastasse, também estão herdando as aflições humanas: um terço dos cães é gordo, e boa parte deles é neurótica. E nada menos de 14% deles sofre da chamada "síndrome de separação", um distúrbio que causa dependência insuportável do dono. Isso significa que, percentualmente, o mundo têm 9 vezes mais cachorros doidos do que gente doida (estimam que 1,5% da população humana têm algum transtorno mental). Nós impusemos aos cães algumas deliciosas mudanças, mas outras são insuportáveis.

Quando os cães ficaram desempregados

Mudanças para embelezar.

Em apenas um século, reduzimos pela metade as patinhas do salsicha. Turbinamos as dobrinhas do shar-pei e as orelhas do bassê. Reduzimos drasticamente o cérebro do buldogue e deixamos o bul terrier com crânio de dinossauro. Tudo isso e muito mais porque, a partir do século XX, os cães assumiram uma única função. Eles não têm de caçar, guardar, nem pastorear. Na quase totalidade dos casos, eles só devem ser bonitinhos para agradar os donos. Para satisfazer essa demanda puramente estética, os criadores foram selecionando os animais que possuíam as características desejáveis, e castrando ou matando os demais. Mas acabaram indo longe demais....

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