A caneta emagrece, mas e a compulsão?
Nunca se falou tanto sobre emagrecimento, as chamadas “canetas emagrecedoras” chegaram com tudo no mercado formal e informal, cercadas de expectativas, elas prometem: diminuir o apetite, aumentar a saciedade, facilitar a perda de peso e, para muitas pessoas, finalmente produzir o corpo desejado. E quando utilizadas com indicação e acompanhamento médico, essas medicações podem ser importantes ferramentas terapêuticas, o problema começa quando passam a ser utilizadas de maneira indiscriminada, sem avaliação profissional, como se fossem apenas mais um recurso estético.
Mas há uma pergunta que talvez precise ser feita antes de qualquer outra, o que exatamente as pessoas estão tentando emagrecer? Essa pergunta pode parecer estranha. Afinal, o corpo está ali, o peso está na balança e a fome pode ser reduzida pela ação do medicamento, entretanto, quando falamos de peso, não estamos falando apenas dos problemas fisiológicos e palpáveis disso, mas também da falta de controle, compulsão, e dessa forma, estamos entrando em um território que não é exclusivamente biológico.
Para a psicanálise, comer não é apenas uma resposta à fome.
Freud nos ensinou que o corpo humano não é governado somente pelas necessidades fisiológicas, existe algo que ultrapassa a necessidade e que está relacionado à satisfação pulsional. Comemos quando temos fome, evidentemente, mas também podemos comer para aliviar uma ansiedade, preencher um vazio, suportar uma frustração, comemorar, compensar uma perda ou simplesmente produzir uma determinada forma de satisfação. É aí que a questão da compulsão ganha outra dimensão.
Em um programa de televisão chamado quilos mortais, acumuladores ou até mesmo retratados em filmes como A Baleia, é apresentado a dificuldade em lidar com problemas maiores como a compulsão, a falta de controle e a justificativa cognitiva que faz com que as pessoas comam, não se apliquem na perda de peso ou não mudem, vem com toda a força em relação a compulsão. Quem já viveu algum tipo de compulsão conhece a contradição: “eu sei que não deveria, mas faço mesmo assim”.
E muitas pessoas sofrem com o conceito dos outros sobre essa "falta de vontade”, como se o não emagrecimento fosse algo apenas da vontade acerca do mental, como se fosse algo meramente robótico e controlável. Pois bem, o sujeito sabe, sabe que não precisa daquela comida, sabe que está satisfeito, sabe que depois poderá se arrepender. E, ainda assim, repete.
Freud chamou atenção para essa dimensão da repetição. Nem tudo aquilo que repetimos está submetido à lógica simples do prazer. Existe uma satisfação paradoxal que pode estar presente justamente naquilo que também produz sofrimento.
Por isso, quando uma medicação reduz significativamente o apetite, algo interessante pode acontecer: a pessoa deixa de comer ou diminui drasticamente a quantidade de comida. A compulsão parece ter desaparecido. Mas será que desapareceu? Ou apenas mudou uma de suas formas de expressão?
Essa é uma pergunta especialmente importante para a psicanálise.
Imagine alguém que utilizava a comida para lidar com a angústia. Se a medicação reduz a fome, a pessoa pode deixar de procurar a comida. Mas a angústia continua existindo. E aquilo que antes encontrava uma saída pela alimentação pode procurar outro caminho. Pode aparecer em uma necessidade excessiva de controle, em compras, em exercícios, no trabalho, nas redes sociais, na busca incessante pela aparência perfeita, ou em outra forma de repetição.
Não significa que isso necessariamente acontecerá. Significa apenas que o comportamento compulsivo não pode ser compreendido isoladamente da função que ele exerce para cada sujeito. É aqui que Lacan acrescenta uma questão fundamental: a diferença entre necessidade, demanda e desejo. A necessidade pode ser satisfeita. O desejo, não.
O sujeito humano é marcado por uma falta que nenhum objeto consegue preencher definitivamente. E talvez seja justamente por isso que a promessa contemporânea de um corpo perfeito seja tão sedutora.
“Quando eu emagrecer, vou me sentir melhor.” “Quando chegar aos 60 quilos, vou gostar do meu corpo.” “Quando meu corpo estiver como eu quero, minha vida vai mudar.”
Quantas vezes depositamos no corpo a promessa de uma felicidade futura?
O problema é que, quando o peso desejado finalmente chega, frequentemente aparece outro objetivo. Mais alguns quilos. Outra roupa. Outro procedimento. Outro padrão. Outra comparação. A falta retorna. E não porque a pessoa fracassou. Mas porque a falta é constitutiva do sujeito e nenhum corpo, nenhum peso e nenhum objeto será capaz de eliminar completamente essa falta.
Isso não significa que cuidar do corpo seja inútil ou que emagrecer não possa produzir benefícios reais. Tampouco significa que medicamentos para tratamento da obesidade devam ser demonizados. Pelo contrário, há situações em que seu uso é clinicamente indicado e pode representar uma mudança significativa na qualidade de vida.
No entanto, a caneta pode reduzir a fome, mas não responde a pergunta que deveria ser feita sobre aquela compulsão, “por que o sujeito precisava comer daquela maneira?". Então entendemos que a caneta pode conter um comportamento, mas não elabora o motivo disso, e inevitavelmente se o sujeito não for em busca de autoconhecimento, entendimento de si e trabalhar sua inteligência emocional,para compreender o real motivo de tamanha “fome”, infelizmente uma caneta não fará milagres.
Assim como um medicamento psiquiátrico, ela auxilia, contém impulsos, organiza e regula o biológico, mas não elimina a ação. E é de extrema importância que o indivíduo busque um processo terapêutico com profissionais, psicólogos, adequados e que possa de fato trabalhar sua angústia, falta e desejo.
(*) Lia Rodrigues Alcaraz Spengler é formada em psicologia (2011), Especialista em orientação Analítica (2015), Especialista em neuropsicologia (2026) e está em Formação para Psicanalista. Trabalha como psicóloga clínica em consultório particular.

