Da pindaíba ao dólar, quem escolhe os nomes das ruas e batiza os bairros?
Em novos loteamentos, a escolha geralmente parte do empreendedor, mas precisa seguir regras
Pindaíba, Dólar, personagens da Turma da Mônica, elementos da tabela periódica e até uma famosa ópera trágica. Basta prestar atenção nas placas enquanto circula pelos bairros de Campo Grande para encontrar uma coleção de nomes curiosos. Mas quem escolhe o nome de rua? E o que é preciso fazer para trocar um nome que já existe?
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Em Campo Grande, os nomes das ruas seguem regras definidas pela Lei Municipal nº 5.291/2014, que permite ao loteador batizar até 50% das vias em novos empreendimentos. Nomes ofensivos ou discriminatórios são proibidos, e homenagens exigem que o homenageado seja falecido e tenha contribuído para o desenvolvimento local. A mudança de nome depende da concordância de dois terços dos moradores e aprovação da Câmara Municipal. Atualmente, cinco projetos de alteração tramitam na Casa de Leis.
A resposta depende de como a rua surgiu. Em novos loteamentos e condomínios fechados, a Lei Municipal nº 5.291/2014 permite que o loteador escolha os nomes de até 50% das vias. As demais podem ser batizadas por proposta de vereadores, a pedido dos moradores. Em todos os casos, o nome precisa ser oficializado por lei.
- Leia Também
- Vida anda tão difícil, que morar na rua Pindaíba já virou piada entre moradores
- Bairro mais fofo da cidade, por muito tempo também foi um dos mais esquecidos
Também há regras para a escolha. Não são permitidos nomes ofensivos, discriminatórios ou que possam virar motivo de chacota. Quando a ideia é homenagear alguém, a pessoa precisa ter falecido e ter contribuído de forma significativa para o desenvolvimento local, estadual ou nacional, além de não apresentar restrições de conduta.
Como mudar o nome – Trocar o nome de uma rua que já existe dá um pouco mais de trabalho. Conforme a Câmara Municipal, a mudança só pode ser proposta quando o nome original não tiver maior significado e precisa da concordância de dois terços dos moradores. A lei também impede a troca quando a denominação existente homenageia uma pessoa.
O pedido precisa chegar à Câmara com documentos que expliquem e justifiquem a mudança. Se o novo nome for uma homenagem, são necessários currículo ou biografia e certidão de óbito, além de documento do município confirmando a localização exata da rua.
Depois, o projeto passa pela Câmara e precisa ser aprovado pelos vereadores. Se receber o aval, segue para sanção do Executivo. Com a mudança oficializada, cabe à Prefeitura instalar as novas placas de identificação.
Atualmente, cinco projetos para mudar nomes de ruas tramitam na Câmara Municipal de Campo Grande. Um deles pretende trocar Rua Galo da Serra, no Bairro Octávio Pécora, por Rua Airton Cantero. Corretor de seguros e ex-dirigente sindical, Cantero morou por cerca de 30 anos no bairro, participou da associação de moradores e esteve entre os fundadores do Sindicato dos Securitários de Mato Grosso do Sul. Ele morreu em dezembro de 2023.
Outra proposta quer transformar em Avenida Santa Inês o trecho da Rua Zulmira Borba entre a Rua Major Giovani Nadalin e a Avenida Ana Pimentel, no Bairro Nova Lima. Conforme a justificativa, o trecho foi prolongado pela empresa Santa Inês, que também doou a área necessária e fez obras de alargamento, com canteiro central e ciclovia. A intenção é adequar o nome às mudanças na região e facilitar a identificação da via.
No Jardim Los Angeles, está em análise a mudança de um trecho da Avenida Henrique Bertin para Avenida Policial Penal Federal Davi Guilherme da Silva. A parte que pode ganhar o novo nome dá acesso à Penitenciária Federal de Campo Grande. Davi trabalhou na unidade e morreu de câncer em 2025, aos 50 anos. Conforme a justificativa, não há residências no trecho.
Há ainda uma proposta para chamar de Rua Flora Mareco Fujie o trecho da Rua Domingos Sahib que começa na Avenida Zila Corrêa Machado e segue até o fim da via. O projeto diz que a mudança ajudaria na identificação dos endereços e na atualização de cadastros e serviços públicos, mas não informa quem foi Flora Mareco Fujie nem explica por que o nome foi escolhido.
Nomes ligados a figuras associadas a regimes ditatoriais também aparecem nas discussões sobre a memória das cidades. Na Capital, atualmente não há projeto tramitando na Câmara com o objetivo específico de trocar essas denominações, segundo a Casa de Leis.
Um caso recente ajuda a entender como uma mudança sai do papel. No Bairro Amambaí, um trecho de cerca de 100 metros da Rua Allan Kardec, que manteve o mesmo nome por mais de 50 anos, passou a se chamar Alameda Eliseu Feitosa de Alencar, em homenagem ao fundador da Assembleia de Deus em Mato Grosso do Sul. O pedido partiu de familiares e passou pela Câmara Municipal.
Da Pindaíba ao Dólar – Enquanto alguns nomes mudam, outros atravessam décadas e despertam curiosidade. Na Vila Carlota, é possível morar na Rua do Dólar. Já entre Sílvia Regina, Vila Coutinho e Bosque da Saudade está a Rua Pindaíba, nome que remonta ao período de expansão da região, entre as décadas de 1970 e 1980.
A Vila Sílvia Regina, na região urbana do Imbirussu, começou a se consolidar nesse período, com loteamentos populares e ocupações na região do Bairro Santo Antônio. A origem exata do nome Rua Pindaíba não está esclarecida.
Morador da via há cerca de quatro décadas, o metalúrgico Pedro Norato, de 49 anos, acredita que o nome tenha relação com a paisagem daquela época. Segundo ele, havia nas proximidades uma chácara com bastante vegetação e um pequeno curso d'água.
A palavra chama atenção porque, no uso popular, “estar na pindaíba” significa estar sem dinheiro. “O pessoal diz que pindaíba é quem está na miséria, mas também pode ter relação com aquele lugar, que tinha muito mato e um rio. Ali era uma chácara”, conta, enquanto aponta para um terreno cercado na região.
Conforme o estudioso de línguas indígenas Batista Caetano de Almeida Nogueira, pindaíba tem origem tupi e está relacionada à pesca, mas não significa rio. O termo é formado por pindá, anzol, e iba, vara, significando “vara de anzol”. A associação com a falta de dinheiro surgiu da ideia de alguém que, sem outros recursos, ficava reduzido a uma vara simples para pescar.
Na Rua do Dólar, na Vila Carlota, os moradores preferem associar o endereço à sorte. Lucimeire Aparecida de Souza, de 63 anos, mantém um ponto de salgados no local desde a pandemia e acredita que o nome tem dado sorte. “Acredito que aqui dê muita sorte, porque até hoje continuo aqui. É um bairro bom de morar, uma rua tranquila. Temos clientes que estão com a gente há muitos anos”, afirma.
Para a dona de casa Cleice Pedrosa Olarte, de 53 anos, a sorte começou há quase duas décadas. Vinda de Rio Verde de Mato Grosso, ela conheceu o marido e passou a morar na Rua do Dólar, onde está há 19 anos. “Deu muita sorte. Conheci meu marido e viemos morar aqui”, conta. A família chegou a colocar a casa à venda, mas mudou de ideia. “Desisti, porque aqui é muito bom de morar. É paz, sossego", conta.
Morador da mesma rua há oito anos, o administrador e corretor de imóveis Elânio Neres Nunes, de 61 anos, também aprova o endereço. “Acho que dá sorte, sim. Tenho vivido bem aqui e tudo tem dado certo”, diz.
Quem escolhe – Para o presidente do Secovi-MS (Sindicato da Habitação), Geraldo Paiva, quem cria os loteamentos costuma buscar nomes simples, fáceis de falar e de lembrar. Estados, animais, plantas e personalidades estão entre as referências usadas para batizar conjuntos de ruas. Um exemplo está no loteamento Costa Verde, onde personagens criados pelo cartunista Maurício de Sousa foram parar nas placas. A homenagem à Turma da Mônica chegou a ser mencionada em um livro sobre a trajetória do desenhista.
O arquiteto e urbanista Ângelo Arruda explica que a participação dos responsáveis pelos loteamentos ajuda a entender por que alguns bairros têm várias ruas seguindo o mesmo tema. “A Capital é uma das poucas cidades do Brasil que entrega para o proprietário da gleba a possibilidade de encaminhar para a prefeitura uma lista de nomes que ele quer utilizar para batizar as ruas”, afirma.
Segundo Ângelo, algumas denominações curiosas são anteriores às regras atuais. No Estrela do Sul, há ruas com nomes em outros idiomas, como Madame Butterfly, referência à ópera de Giacomo Puccini. “Existem nomes em inglês e francês, e a lei não permite. Por que isso passou? Porque essa norma é de 1988 e o Estrela do Sul é de 1981”, explica.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.







