Plano logístico da celulose prevê ferrovias privadas e rodovias públicas em MS
Investimentos de R$ 4 bilhões em infraestrutura preparam o Estado para novo ciclo de expansão industrial
A estratégia para melhorar a logística de escoamento da crescente produção de celulose em Mato Grosso do Sul até o Porto de Santos, principal rota das exportações brasileiras, combina investimentos privados em corredores ferroviários com aportes públicos em rodovias. É nesse modelo que o governo estadual trabalha, explicou o secretário Jaime Verruck, da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), em entrevista ao Campo Grande News.
RESUMO
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O governo de Mato Grosso do Sul planeja melhorar a logística de escoamento da produção de celulose, que deve quase dobrar até 2028, atingindo 11 milhões de toneladas adicionais. A estratégia combina investimentos privados em ferrovias, como os projetos da Arauco e Eldorado, com aportes públicos em rodovias, estimados em R$ 2 bilhões. O Porto de Santos continua sendo o principal destino das exportações, com foco em mercados como China, Europa e Estados Unidos. Paralelamente, o estado enfrenta desafios na qualificação da mão de obra, com programas como o MS Qualifica e o Voucher Caminhoneiro. A alta rotatividade e o déficit habitacional são questões críticas, especialmente com a chegada de trabalhadores de outros estados e países. O governo busca equilibrar o crescimento acelerado do setor com medidas para minimizar os impactos sociais e garantir infraestrutura adequada.
A produção de celulose deve quase duplicar até 2028, com um acréscimo de cerca de 11 milhões de toneladas, dentro do plano que começa pela Arauco e Bracell, somado aos projetos da Suzano e da Eldorado.
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Reforçando a importância das PPP (Parcerias Público-Privadas), o secretário destacou o pioneirismo da chilena Arauco, que já obteve autorização para construir um ramal ferroviário de 47 quilômetros de trilhos. O projeto, estimado em R$ 2 bilhões, ligará a fábrica em Inocência, no Vale da Celulose, à Malha Norte, sistema ferroviário que conecta o Centro-Oeste ao Porto de Santos, passando por Rondonópolis (MT), Chapadão, Inocência e Aparecida até o litoral paulista.
“Toda a operação da Arauco, quando a fábrica começar a operar, será feita através de uma linha ferroviária.”
A Eldorado, instalada em Três Lagoas, também recebeu licença para construir um ramal ferroviário de 97 quilômetros, ligando a unidade à Aparecida.
Segundo Verruck, 100% da celulose produzida em Mato Grosso do Sul tem como destino o Porto de Santos, movimento que deverá ser mantido mesmo após a operação da Rota Bioceânica. O terminal paulista é porta de acesso a mercados como China, principal destino das exportações sul-mato-grossenses, com participação de aproximadamente 47%, além de Europa, Índia e Estados Unidos.
Todas as empresas atuantes no estado possuem terminal próprio em Santos: Eldorado, Suzano, Bracell e, mais recentemente, a Arauco, que fechou acordo para construir unidade na região da Alemoa, área predominantemente servida por TUPs (Terminais de Uso Privado). “Cada empresa começa, obviamente, a focar numa certa estratégia. Mas a estratégia primordial e prioritária para todas é a questão da ferrovia”, reforça o secretário.
Atualmente, Suzano e Eldorado transportam celulose por caminhões, enquanto a Bracell estuda alternativas, incluindo hidrovias.
Paralelamente, o governo estadual estima investir cerca de R$ 2 bilhões na melhoria do sistema rodoviário para atender à demanda crescente do setor. Além disso, há programas conjuntos com empresas e o Sistema S voltados à formação de mão de obra para fábricas que devem acelerar a produção a partir de 2028, com a entrada dos novos players.
“Fica muito claro que o caminho logístico é uma solução ferroviária. Ao mesmo tempo, temos que buscar uma solução interna para a logística do eucalipto, em que o governo do Estado está fazendo investimentos em infraestrutura.”

Logística do eucalipto - O governo também atua para melhorar o transporte de toras de eucalipto entre o campo e as rodovias. Os investimentos, da ordem de R$ 2 bilhões, incluem a licitação da Rodovia 320, que conecta à BR-377, até Três Lagoas, e a concessão da chamada Rota da Celulose (BR-262, BR-267 e BR-040), considerada um dos principais projetos de infraestrutura rodoviária do estado.
Segundo Verruck, a partir de segunda-feira será convocado o Consórcio Caminhos da Celulose, liderado pela XP Investimentos, para assumir as próximas etapas da obra, após a desclassificação do primeiro colocado, o Consórcio K&G Rota da Celulose, que teve recurso negado pela CEL (Comissão Especial de Licitação).
“O foco do governo do Estado é o investimento rodoviário, e o da indústria, as ferrovias. Dessa forma, acreditamos que o planejamento de médio e longo prazo para a questão logística esteja equacionado em Mato Grosso do Sul.”
Mão de obra - Outro desafio é a qualificação profissional. O estado opera em situação de pleno emprego, com taxa de desocupação de apenas 2,9%, a quarta menor do país, atrás de Santa Catarina (2,2%), Rondônia (2,3%) e Mato Grosso (2,8%).
“Temos pouca disponibilidade de pessoas para trabalhar no estado de Mato Grosso do Sul. Quem tem disponibilidade de trabalhar hoje é aquele cara que está na informalidade, que precisa de qualificação.”
O governo lançou o programa MS Qualifica, uma rede de capacitação profissional voltada ao setor florestal. A iniciativa envolve o Sistema S, a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e universidades da Costa Leste (Ribas do Rio Pardo, Água Clara, Inocência, Três Lagoas e Paranaíba), além do curso de Engenharia Florestal em Chapadão. Estruturas estão sendo erguidas em Inocência e Ribas do Rio Pardo.
Entre os programas, destaca-se o Voucher Caminhoneiro, que oferece qualificação gratuita. Só a Arauco deve abrir mais de 800 vagas para motoristas nos próximos dias. “Temos o voucher transportador, que isenta o custo da carteira, em parceria com Sesi e Senai. É um conjunto de ações para minimizar e apoiar as empresas nesse crescimento.”
Apesar das iniciativas, o secretário apontou baixa adesão aos cursos, atribuída à alta rotatividade da mão de obra e à carência de moradias. “Boa parte dessas pessoas que trabalham no setor estão em alojamento, contribuindo para a expressiva rotatividade de mão de obra.”
O déficit habitacional, somado ao fluxo migratório de trabalhadores vindos de estados como Pará e Maranhão, além de estrangeiros, é visto como um desafio. No caso da Arauco, a fase de construção da fábrica deve gerar 17 mil empregos, com previsão de 7 mil postos permanentes após a conclusão.
O governo estuda ampliar a oferta de residências a partir de programas sociais de habitação próximas às cidades produtoras de celulose.
O secretário avalia, contudo, que o crescimento acelerado da produção de celulose em Mato Grosso do Sul vem sendo conduzido com planejamento e diz que os impactos sociais são as inevitáveis “dores do crescimento”, frase criada pelo governador Eduardo Riedel (PP) para explicar o descompasso entre o desenvolvimentismo e as limitações da região. “Temos que olhar os impactos sociais e conseguir mão de obra localizando os jovens que queiram trabalhar.”