Médica reúne histórias que mostram a maternidade longe da perfeição
Maria Auxiliadora transforma relatos de pacientes em livro sobre a maternidade além das partes boas

RESUMO
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A ginecologista e obstetra Maria Auxiliadora Budib lançou o livro "Onde as Flores Falam", que reúne relatos reais de pacientes sobre maternidade. A obra, desenvolvida ao longo de anos e finalizada nos últimos 12 meses, busca apresentar a maternidade de forma menos idealizada. Entre as histórias está a de Cristiane Santander, cuia filha Maite nasceu prematura com 900 gramas e hoje é universitária.
Maria Auxiliadora Budib passou anos ouvindo histórias de mulheres dentro do consultório. Agora, algumas delas viraram livro. A ginecologista e obstetra reuniu relatos reais de pacientes em “Onde as Flores Falam”, mas faz questão de não tomar para si o papel de autora dessas trajetórias. Prefere dizer que foi a “jardineira”.
“Elas não foram contadas por mim, foram por pacientes que me mandavam orquídeas, flores, que elas sabem do meu gosto por planta. E essa narrativa aconteceu dentro dessa fala. A história foi contada por elas, eu fui só jardineira”, explica.
O livro reúne experiências de mulheres que passaram pelo consultório e criaram algum vínculo com a médica. O projeto começou há alguns anos e ganhou forma artística nos últimos 12 meses, com direção de José Arthur e aquarelas de Rafaela, ambos de Minas Gerais.
A proposta é falar de uma maternidade distante daquela imagem em que tudo precisa ser perfeito.
“Ele fala sobre a maternidade não romantizada. Então, para todas as mulheres que têm medo, têm angústia, ou têm uma dissonância. Ela abre um caminho da possibilidade que ninguém ali é super-heroína, somos todas mulheres”, afirma.
Uma dessas histórias é a de Cristiane Santander, de 52 anos. A servidora pública conheceu Maria Auxiliadora durante uma gravidez planejada e que transcorria normalmente até a 28ª semana.
Foi quando a bolsa rompeu e Cristiane entrou em trabalho de parto. Maite nasceu prematura, com apenas 900 gramas.
Naquela noite, porém, não havia leito disponível em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal em Campo Grande. Enquanto a central de regulação procurava uma vaga, Cristiane passou cerca de quatro horas no centro cirúrgico esperando.
Daquele período de incerteza, ela guarda uma lembrança da médica que hoje também está eternizada na história das duas.
“Ela não soltou da minha mão em nenhum momento. Todo tempo que ela ficou lá, ela ficou segurando na minha mão, rezando comigo, a equipe toda rezando, fazendo oração e pedindo para que essa vaga surgisse”, lembra.

Enquanto aguardava a vaga, Maria Auxiliadora também precisava conversar com a família e explicar a gravidade da situação. Para Cristiane, porém, a médica conseguiu separar a preocupação profissional da necessidade de oferecer segurança naquele momento.
A vaga finalmente apareceu. Um respirador foi levado de outro hospital em uma ambulância e, depois de mais de dois meses na UTI, Maite conseguiu seguir em frente.
Hoje, a menina que nasceu com 900 gramas é universitária. E a relação entre a família e Maria Auxiliadora também ultrapassou a relação entre médica e paciente.
“Ela é uma pessoa humana, é uma pessoa que se envolve emocionalmente com os pacientes e a gente cria uma ligação com ela que é incrível”, diz.
Cristiane conta que chegou a escrever sua experiência para Maria Auxiliadora há alguns anos, a pedido da médica. Depois, acabou esquecendo do texto. Quando soube que o livro estava sendo preparado, sabia que havia a possibilidade de sua história aparecer, mas não tinha certeza.
A surpresa veio quando recebeu a primeira edição e descobriu que sua experiência estava entre as 200 histórias apuradas.
A história de Cristiane e Maite ganhou como representação a sempre-viva, uma flor associada à permanência. No livro, cada relato recebe uma representação visual em aquarela e também uma classificação simbólica, como raiz, broto ou fruto.
Para Cristiane, ter a trajetória da filha registrada dessa forma é uma maneira de preservar uma parte importante da memória familiar.
“Foi uma história bonita, foi uma história intensa, porque ela aconteceu de uma forma difícil no início. Mas que teve uma evolução feliz”, afirma.
A escolha das flores não aparece apenas como elemento estético em “Onde as Flores Falam”. Ela também representa a forma como Maria Auxiliadora enxerga a relação construída com suas pacientes.
A própria médica conta que se emocionou ao descobrir como o livro começaria e terminaria. Sem que a equipe soubesse quem deveria ocupar essas posições, a primeira personagem que nasceu junto com ela ficou responsável pelo início, enquanto a mãe dessa personagem aparece no encerramento da obra.
“Eu tive uma grande emoção porque o roteiro artístico não sabia quem começava e quem finalizava o livro. E foi ao acaso”, conta.
Para Cristiane, o livro também reforça que não existe apenas uma forma de viver a maternidade. Algumas histórias são leves, outras carregam dor, medo e sofrimento, mas todas merecem ser contadas.
As histórias reunidas no livro nasceram de uma relação que, para muitas pacientes, não terminou depois do parto. São relatos de mulheres que continuam próximas da médica anos após seus filhos nascerem, como Cristiane e Maite. “Ela não solta da mão de ninguém”, finaliza Cristiane.
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