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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

08/07/2018 07:10

Aos 14 anos, Fabrício luta por respeito à diversidade após ver um amigo sofrer

Menino defende igualdade e explica, cientificamente, a diferença entre sexo, gênero e orientação sexual à geração conservadora

Willian Leite
Este é o cenário que define o menino que conquistou o maior prêmio de iniciação cientifica do país(Foto: Willian Leite)Este é o cenário que define o menino que conquistou o maior prêmio de iniciação cientifica do país(Foto: Willian Leite)

Foi depois de perceber o sofrimento causado a um colega gay, que começou namorar uma menina hétero e os dois eram questionados pelos amigos de sala de como isso era possível, um gay se relacionar com uma mulher, que Fabricio iniciou um estudo sobre as diferenças entre sexo, gênero e orientação sexual a partir da análise literária da obra “A garota dinamarquesa”, de David Ebershoff.

Numa conversa informal o garoto que já foi notícia aqui no Lado B, por desenvolver junto a um grupo de colegas um aplicativo que disponibilizava informações sobre vereadores às vésperas das eleições de 2016, não perde a postura de estudioso e com jeito de professor universitário começa a explicar o que o levou a se aprofundar no assunto.

“Tudo começou há um ano e meio a partir da minha percepção de existir um colega na minha sala que enfrentava o preconceito por uma parte dos colegas e percebi que isso era chato pra ele. Partindo do caso deles me interessei pelo tema sexualidade”.

Mesmo com a pouca idade o menino começou a pesquisa e de cara descobriu dados alarmantes sobre assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil, e isso aumentou o interesse pelo tema. “A cada 17 horas uma pessoas LGBT é morta no Brasil e isso coloca o país na liderança de assassinatos de gays, segundo dados da UNESP”, explica.

Outro fator que chamou atenção do pequeno prodígio foi uma pesquisa da UNESCO, que diz que 89% da comunidade escolar, ou seja, professores e alunos dizem ter algum grau de homofobia e outros 49% dos alunos do sexo maculino afirmam que não gostariam de ter amigos homossexuais.

Em universidade Fabricio ministra palestra até para doutores. (Foto: Arquivo pessoal)Em universidade Fabricio ministra palestra até para doutores. (Foto: Arquivo pessoal)

“Esses dois dados me levaram ao objetivo do projeto que é estudar e diferenciar os conceitos, sexo, gênero e orientação sexual, a partir da história da personagem do livro A Garota Dinamarquesa”, relembra.

Fabricio diz que a inspiração veio após assistir o filme, quando percebeu que a obra tinha uma diferença em comparação ao livro. “Depois que assisti fui procurar críticas sobre o material e descobri que ele acaba ocultando alguns fatos da história verdadeira. Por isso decidi fazer a analise literária”, Analisa.

Ao analisar o contexto da obra, o pesquisar júnior percebe que o personagem principal do filme tem dissidência de gênero. Einar Wegner se relaciona com um colega do mesmo sexo quando ainda era criança, eles se beijam e seu pai vê a cena e espanca os dois, atitude que oprimiu o menino e desde então ele nuca mais deixou que sua vontade aflorasse.

“Após isso, fui procurar mais referencias para agregar à minha pesquisa, nisso descobri uma série onde encontrei a psicanalista Leticia Lanz, autora do livro 'O Corpo da Roupa'. Esse livro funciona como dicionário das questões de gênero e sexualidade, conceitua e diferencia os termos relacionado ao assunto”, salienta.

Desde que começou o trabalho de pesquisador não parou mais e até hoje é convidado a ir em instituições ministrar palestras, inclusive a estudantes de mestrado na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

“Não tenho como descrever a satisfação que é estar nesse meio, minha rede de colegas aumentou de forma inexplicável e essa foi a maneira que encontrei de causar discussões sobre um tema que as pessoas não gostam de discutir”.

O menino que mesmo com toda essa bagagem científica não deixou de ser criança, afirma que amadureceu mais rápido que o necessário, mas que não é diferente de outros adolescentes, porque a vida além das pesquisas e militância é de tranquilidade e normalidade, como a de qualquer jovem na sua idade.

“O estudo me proporcionou reconhecimento e muitos prêmios como 1º lugar na Fetec MS em2017 na área de letras e literatura. Já em nível nacional minha maior conquista foi o 1º lugar na Febrace, maior feira do Brasil, onde concorri até com universitários”, descreve orgulhoso.

Troféu de 1º lugar na maior feira de tecnologia de MSTroféu de 1º lugar na maior feira de tecnologia de MS

Hoje por conta da apresentação do projeto em São Paulo, Fabricio ganhou uma bolsa para iniciação cientifica júnior custeada pela USP (Universidade de São Paulo). “No início de 2018 comecei outro projeto que tem relação com primeiro e com orientação de um mestre em ciências sociais na UFMS”.

Além de proporcionar a discussão do tema, Fabricio se sente realizado em saber que por meio do estudo ele foi pioneiro em desenvolver trabalho com esse tema. Hoje participa das aulas no curso de mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, onde debate tudo que o trabalho abordou ao longo do tempo.

“É gratificante ter a oportunidade de ver as pessoas encantadas em ver que mesmo com a pouca idade, eu falo e estudo este tema tão peculiar. E outra coisa esse estudo me proporcionou falar em conferências como o Intercom e até convites para dar palestras em escolas do ensino médio”, finaliza.

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