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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

29/12/2016 06:05

Após 2 anos visitando marido morto, portuguesa achou alento na cozinha em MS

Thailla Torres
Emocionada, ainda lembra a história de amor que a fez ir dois anos visitar as cinzas do marido. (Foto: Alcides Neto)Emocionada, ainda lembra a história de amor que a fez ir dois anos visitar as cinzas do marido. (Foto: Alcides Neto)

Olívia desembarcou de vez no Brasil há 3 meses, a pedido do filho, que não queria mais ver a mãe na solidão, depois que o marido se foi há 2 anos. O coração ainda se enche de saudade, mas ela resolveu dar a volta por cima, dizendo até a logo à vida em Portugal, para recomeçar na cozinha, na profissão que sempre amou. 

Olívia Sousa Gomes, tem 70 anos, é tímida e de poucas palavras. Foi o filho, Frederico Guimarães, quem descreveu o jeitinho que tanto admira na mãe portuguesa, até que ela topou dar entrevista para contar um pouco da história.

Nascida em Vila de Nova Gaia, foi lá que viveu as duas grandes histórias de amor, pelo marido Mario Guimarães e pela gastronomia.

O casamento durou 53 anos, mas o câncer no pulmão surgiu e foi fatal. Por conta da saudade, Olívia visitou durante dois anos o roseiral onde ficaram as cinzas do marido lá em Portugal. As visitas eram diárias, mesmo contra a vontade dos filhos.

Frederico trouxe a mãe para o Brasil, para mudar de vida com a gastronomia. Frederico trouxe a mãe para o Brasil, para mudar de vida com a gastronomia.

Ela justifica as idas no costume. Diz que é tradição de muitas pessoas, em consideração aos que já partiram. "Acho uma hipocrisia ir apenas em datas importantes do ano. Para mim, tinha que ser todo dia. Eu nunca deixava de ir. Visitava, fazia oração e conversava com ele", recorda emocioda.

As lágrimas surgem a cada palavra e o filho é quem ajuda nas lembranças. "Os olhos dela ficam vidrados toda vez que lembra do meu pai. Viveram uma história de amor das que são raras. Quando ele morreu, ela chegou a visitar o Brasil, mas voltou para não ficar longe dele e das visitas que fazia", diz Frederico.

A tristeza, mesmo que à distância, incomodou o filho que fez de tudo para a mãe superar a saudade. "Ela não podia mais viver na solidão e por isso trouxe ela para junto de mim", diz ele. Em memória à história dos pais, Frederico é quem carrega nos braços uma singela homenagem que foi tatuada. "Só os grandes heróis deixam saudades, Pai", mostra a escrita no braço direito. 

"Era um homem de muita força e amor pela minha mãe. Apesar do jeito sério, ele nos criou da melhor maneira. Do modo tradicional e que hoje faz todo sentido", descreve.

Outro motivo de orgulho, é a garra de Olívia. Só na gastronomia, ela tem 50 anos de história. Uma cozinheira de mão cheia que gostaria de voltar a trabalhar em Campo Grande com o que sabe fazer. "Minha mãe trabalhava de 18 a 20 horas por dia e nunca se cansava", conta Frederico de quando a mãe era dona de restaurante, em Portugal.

Filho fez homenagem falando da saudade que o pai deixou. (Foto: Alcides Neto)Filho fez homenagem falando da saudade que o pai deixou. (Foto: Alcides Neto)
Olívia, Frederico e Mário. (Foto: Arquivo Pessoal)Olívia, Frederico e Mário. (Foto: Arquivo Pessoal)

O gosto dela pela culinária surgiu aos 12 anos, quando aprendeu a cozinhar receitas centenárias de sua mãe. Hoje, na cozinha, reencontrou motivos para sorrir. "Sempre gostei, minha especialidade é o bacalhau e agora vou voltar para onde sempre estive", resume.

Olívia tem um jeito peculiar. É de pouco sorriso, mas carrega uma simpatia na voz. Levanta cedo, ajoelha aos pés de Nossa Senhora de Fátima, como fazia todos os dias em Portugal. Mantém no sangue a vontade de trabalhar.

O filho conta que Olivia fica ligada o dia todo no canal português e sente falta do acolhimento dos amigos, que não encontrou no brasileiro. "Lá a vida era diferente. Aqui as pessoas têm amigos de infância, lá conversava com as pessoas na rua e nos cafés. As pessoas abrem a porta de casa, sem te conhecer, isso aqui faz muita falta pra ela. Por isso ela quer tanto voltar a trabalhar. Para ter o contato e distribuir afeto as pessoas", diz.

Era assim também no olhar entre ela e o marido. "Tinha também a cumplicidade, o que mais deixou saudade a ela. Eles trocavam frases pelo olhar. Tinha coisa que  a gente nem entendia, mas eles sabiam só de olhar um ao outro", diz. 

Olívia reforça, falando palavras do que gostaria de dizer ao marido se estivesse com ele novamente. "Tenho saudades, 50 anos foi uma vida, e uma vida boa. Tenho saudades", declara.

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