Camila esperava 900, mas arrecadou 19 mil livros em 3 semanas
Bibliotecária criou disputa para incentivar doações e terminou com caixas espalhadas por todos os lados
O que começou como uma campanha de arrecadação de livros terminou com 19.407 exemplares reunidos em pouco mais de três semanas. A bibliotecária Camila Rocha Lopes, de 24 anos, esperava conseguir cerca de 900 livros, mas viu a mobilização crescer até envolver alunos, pais e pessoas de fora da escola.
RESUMO
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Bibliotecária arrecada 19 mil livros em três semanas após campanha escolar em Campo Grande. Camila Rocha Lopes, de 24 anos, esperava reunir 900 exemplares, mas a disputa entre as casas da escola mobilizou alunos, pais e a comunidade. Os livros foram doados a escolas públicas, à comunidade Tia Eva, à Biblioteca Municipal e à Gibiteca, com distribuição também nos terminais de ônibus da cidade.
A campanha começou no dia 28 de julho, com término previsto para 18 de agosto. Antes mesmo de comunicar os estudantes em sala ou enviar mensagens aos pais, Camila espalhou apenas três cartazes pelo espaço onde trabalha. No primeiro dia, 200 livros já foram doados.
A estratégia para estimular a arrecadação foi simples: transformar a doação em uma disputa entre as casas da escola onde ela trabalha. Os alunos acumulam pontos ao longo do ano e a casa que arrecadasse mais livros receberia 150 pontos, enquanto as demais ganhariam 30 pela participação.
“As casas são: Griffin Phoenix Pegasus e Dragons. Parece que eu cutuquei um formigueiro e fiquei lá com a mão dentro do formigueiro esperando receber livro.”
A competição fez com que os estudantes acompanhassem de perto a quantidade arrecadada por cada grupo. Todos os dias, Camila era questionada sobre quem estava na frente e, segundo ela, a liderança mudava constantemente.

“Nas primeiras semanas, foi tipo corrida de cavalo. O dia começava com uma casa na frente. Aí 10h era outra casa. E no final do dia era uma quarta.”
A mobilização também chegou aos pais, que criaram grupos no WhatsApp para cada casa e passaram a pensar em estratégias para conseguir mais doações. Alguns chegaram a buscar livros fora da comunidade escolar.
No começo da campanha, Camila imaginava que conseguiria cerca de 900 livros. Uma professora chegou a apostar em 10 mil, mas o número parecia exagerado para a bibliotecária.
“Eu achei um absurdo". Quando terminou de contabilizar os exemplares, porém, o total era de 19.407 livros. “Eu falei: ‘Meu Deus, o que eu faço com 19 mil livros?’”
A quantidade fez com que o destino inicialmente planejado precisasse ser ampliado. Camila pretendia doar os livros para algumas escolas e uma comunidade indígena. Ao longo do processo, parte dos exemplares foi destinada a escolas, à comunidade Tia Eva, à Biblioteca Municipal e à Gibiteca.
Em uma ação de arrecadação na Avenida Afonso Pena, ela chegou a entregar cerca de 2 mil a 3 mil livros para a Gibiteca. Mesmo assim, aproximadamente 80% do que foi arrecadado ainda permanecia onde Camila trabalha.
Entre os materiais recebidos também estavam muitas apostilas e livros que não estavam em condições de serem destinados diretamente às escolas públicas. Para continuarem circulando, Camila passou a levar parte deles aos pontos de coleta da Gibiteca espalhados pelos terminais de ônibus de Campo Grande.
“Eu saio daqui 6 horas da tarde. Toda noite, quando eu saio daqui, eu levo duas sacolas e eu vou parar em um terminal diferente da cidade para poder abastecer esses pontos de coleta com apostila, com livros que não estão em ótimas condições, mas que fazem totalmente a diferença.”
Apesar de a competição entre as casas ter sido o combustível para a arrecadação, o objetivo de Camila sempre foi maior do que a disputa por pontos.
“O propósito foi sempre esse cuidado em democratizar o acesso à leitura, à informação, ao conhecimento.” Para ela, a campanha acabou deixando um resultado que vai além dos milhares de livros arrecadados. A mobilização aproximou alunos, pais e funcionários em torno de uma mesma causa.
“Eu acho que cresceu muito um senso de comunidade, uma coisa assim, absurdamente linda e difícil.” Mesmo cansada após semanas cercada por caixas e livros, Camila diz que o esforço valeu a pena. “Tem sido lindo o senso de comunidade, tem sido lindo a proposta, eu estou muito feliz com o resultado e nossa, muito cansada, muito cansada que pariu.”
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