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Comportamento

Cliente é esculhambado, mas loja vive cheia na Calógeras

Por Ângela Kempfer | 29/08/2011 11:06
Cliente é esculhambado, mas loja vive cheia na Calógeras

Entre o burburinho de uma pequena multidão de mulheres, muitas com crianças no colo, o destaque de uma loja de roupas na avenida Calógeras é a proprietária, pessoa que, de tão sincera, mais parece uma personagem maluca de novela.

A empresária Magda Murad não para de gritar e é sempre muito direta. A loja cheia, ao contrário do que parece, para ela é “um tormento”. “Vender para pobre é complicado, eles acham que R$ 10,00 é dinheiro”, reclama aos berros, sem o menor constrangimento diante das clientes.

Ao conversar com a empresária, a impressão é de que na loja, localizada entre a Barão do Rio Branco e Dom Aquino, cliente nunca tem razão e é um incomodo, antítese ao que prega todo marqueteiro. “Estou já há quinze anos aqui me degradando”, comenta, lembrando que o pai já teve loja há 40 anos na Calógeras. “Mas era granfa. Depois quebrou e morreu”, diz.

A “turca”, como é chamada pelas clientes, tem planos para daqui a dois anos. “Vou vender a loja e mudar para São Paulo, morar com minha filha que casou”, solta a gargalhada. “Cansei de tanta tormenta”, explica.

Na fila, as consumidoras já não se assustam com as ofensas, só dão risada, cheias de peças nos braços. Já a proprietária continua: “No Natal, me chamaram de p...”, protesta.

Dona Magda, do outro lado do balcão em mais um dia de loja lotada. (Foto: João Garrigó)
Dona Magda, do outro lado do balcão em mais um dia de loja lotada. (Foto: João Garrigó)

As vendedoras, com ar assustado, andam de um lado para o outro, sempre com olhos arregalados. “Tem sempre alguém roubando”, justifica dona Magda.

Para evitar o prejuízo, também há seguranças. São homens fortes, com cara fechada, posicionados em locais estratégicos e sobre patamares para ver tudo por cima.

A irmã também ajuda nas vendas e é ainda mais pitoresca. Ao se irritar com o falatório da mulherada, avisa em tom áspero: “O santo vai azedar, a ciganona vai baixar aqui, porque hoje o sangue tá pesado”, avisa, também gritando.

Depois, ela mira em uma mulher e apontando para sacolinha que a cliente tem na mão solta o aviso: “Você sabe que tem de pagar isso, né?!”

A consumidora vai para fila e ouve outra bronca, agora da dona Magda, que fica o tempo todo no caixa. “Ei, fica quieta aí na fila porque você tá dando muito trabalho hoje. Tá bem doidona hoje”.

Constrangida, a cliente diz bem baixinho: “Eu só queria pagar”.

Sobre o motivo de loja sempre cheia, apesar dos pesares, a proprietária ensina: “Nosso lucro em cima das mercadorias é pequeno e por isso garantimos um preço bom e nosso cliente”.

Depois de tantos berros e desabafos, dona Magda abre o sorrisão para a equipe do Lado B e diz tchau, com direito a beijo jogado.

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