Depois que o bebê nasce, quem olha para o corpo e a saúde da mãe?
Evento em Campo Grande reúne especialistas e mães para falar de gestação, pós-parto, família e rede de apoio
Para a ginecologista e obstetra Maria Auxiliadora Budib, falar sobre maternidade vai muito além de acompanhar uma gestação. É preciso olhar para a mulher, para a família e para tudo o que acontece antes, durante e depois da chegada de um filho. Foi com essa proposta que nasceu a Materne, feira realizada neste fim de semana, em Campo Grande, com uma programação voltada ao público geral.
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A Materne, feira sobre maternidade realizada em Campo Grande, reuniu mais de 42 atrações gratuitas no Ondara Buffet, com palestras, rodas de conversa e oficinas sobre temas como parto, fertilidade, amamentação e saúde pélvica. Idealizada pela ginecologista Maria Auxiliadora Budib, o evento buscou unir informação científica e acolhimento, com especialistas e mães compartilhando experiências sobre diferentes fases da vida familiar.
“Esse evento tem uma curadoria técnica para o público leigo para a gente falar tudo sobre maternagem. Então, não é só gestação, é o que acontece para essa mulher, para essa família e como ter uma proteção, uma segurança”, explica Maria, que também é a curadora do evento.
Realizada no Ondara Buffet, a Materne reuniu mais de 42 atrações gratuitas, distribuídas em três espaços, com palestras, rodas de conversa, cursos, oficinas, lançamentos de livros e atividades para diferentes momentos da vida familiar. A programação abordou assuntos como parto, fertilidade, contracepção, primeiros socorros, desenvolvimento infantil, maternidade atípica, adoção, educação financeira, saúde pélvica e amamentação.
A ideia, segundo Maria Auxiliadora, foi criar um evento em que a informação científica pudesse ser apresentada de maneira acessível e acolhedora. Em vez de uma programação exclusivamente técnica, a feira também abriu espaço para que mães compartilhassem experiências e dúvidas.
“É um evento vivo. A inspiração é de muitos anos, o que acontece em Amsterdã, na Holanda, que existe essa fala, esses eventos. No Brasil é muito evento técnico e nasceu a Materne hoje. A gente entrega para Campo Grande, para Mato Grosso do Sul, na intenção de trazer informação, ciência com afeto”, afirma.

Mais de 30 expositores participaram da feira, mas, para a organizadora, o protagonismo não deveria ficar apenas com quem estava apresentando produtos e serviços. Especialistas e, principalmente, mulheres com histórias diferentes também ocuparam os espaços de conversa.
“Quem faz o momento-palco não é o expositor, é o especialista, quem tem notório saber, quem tem muita vivência. E as rodas de conversas, amanhã vai ter rodas de conversas de mãe que perdeu o filho, mães que viveram o luto e que vivem, mães de prematuros. Então não é só o especialista, é a mulher falando também”, destaca.
Entre os assuntos abordados durante a programação esteve a saúde íntima da mulher no pós-parto. A ginecologista Ana Helena Mattos, de 55 anos, participou da feira com a palestra “Parir e Permanecer Inteira”, voltada justamente para os impactos que o parto pode provocar no corpo feminino e para os cuidados necessários depois desse período.
“Eu sou ginecologista e hoje trabalho especificamente com uma área de regeneração da região perineal. E sempre no pós-parto, seja ele cesariana e principalmente se for parto normal, é muito importante que a mulher se atente a isso. O organismo da mulher, depois de parir, nunca é o mesmo”, explica.

Segundo Ana Helena, algumas mulheres passam a conviver depois do parto com situações como incontinência urinária, alterações na região vaginal e desconfortos que podem interferir inclusive na vida sexual. Para ela, falar sobre essas questões é uma forma de devolver à mulher o olhar para o próprio corpo após um período em que todas as atenções costumam se voltar para o bebê.
“Tem muitas mulheres que depois de um parto, que é um momento tão feliz, acabam desenvolvendo uma incontinência urinária, ficam perdendo xixi ao sorrir, ao pular. Tem mulheres que ficam com um alargamento vaginal que acaba gerando uma série de constrangimentos, até sexuais”, relata.

A ginecologista defende que os cuidados com o assoalho pélvico comecem o quanto antes e cita exercícios perineais e tecnologias utilizadas na recuperação como possibilidades que podem ser avaliadas individualmente com acompanhamento médico.
“É justamente isso: parir e ficar inteira. Mesmo com o evento gravidez, porque carregar ali nove meses, bebê, líquido amniótico, placenta, e depois dar um jeito desse neném sair, vai deixar sequelas. Mas você tem que se recompor”, afirma.
Para Ana Helena, cuidar da saúde física também tem impacto na autoestima e nas relações da mulher. Ela lembra que o pós-parto pode ser um período de grande vulnerabilidade emocional e que recuperar a confiança no próprio corpo faz parte desse processo.
“É muito comum que depois do parto a mulher entre num estado meio depressivo. E você reconstituir essa autoestima, explicar para ela que ela continua bela, que ela continua mulher em todos os sentidos, mesmo depois de todo o ciclo gravídico e corporal, é muito importante”, diz.
Na avaliação da médica, iniciativas como a Materne ajudam justamente a aproximar informação de quem muitas vezes não sabe que determinados problemas podem ser tratados. Para ela, o papel do médico também passa por estar nesses espaços e conversar diretamente com a população.
“Hoje nós temos um bombardeio de informações de todo quanto é tipo, totalmente acessíveis pelas redes sociais, mas informações que nem sempre são de qualidade, informações que às vezes são equivocadas. Você reunir num espaço pessoas e serviços que estão todos de mãos dadas com esse objetivo de fornecer boas informações (...) vai sem dúvida fazer da maternidade um momento feliz, como tem que ser”, afirma.
A programação da Materne também reforçou a importância da rede de apoio e do compartilhamento de experiências entre mães e famílias. No encerramento, o evento promoverá o “Mamaço: Mães e Crianças em Amamentação”, dentro da programação do Agosto Dourado.
Para Ana Helena, o desejo é que a iniciativa não fique restrita a uma edição. “Eu espero que seja um evento perene, que aconteça todos os anos. Espero que outros lugares do Brasil se deem o exemplo, que de repente isso se torne algo nacional, que seja nascido aqui, parido em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, mas que se torne algo bem maior.”
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