Entre faxinas e sustos, Nedir já viu amiga aspirar até morto na Europa
Trabalhadoras relatam histórias curiosas, dificuldades da rotina e a falta de garantias no trabalho

Parece brincadeira, mas, durante os 43 anos que Nedir Ribeiro Marques trabalha como empregada doméstica, ela já viu de tudo, inclusive presenciou uma amiga aspirar as cinzas de um morto debaixo de uma cama, achando que era pó. A cena inusitada vivida na Inglaterra ficou na memória e virou história. Aliás, nesta segunda-feira (27), Dia da Doméstica, algumas abriram o coração para contar as alegrias e tristezas de quem faz parte da vida de famílias que não são delas.
RESUMO
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No Dia da Doméstica, trabalhadoras de Campo Grande compartilharam histórias marcantes da profissão, entre casos inusitados, como cinzas de um falecido aspiradas por engano em uma faxina na Inglaterra, e relatos de dificuldades cotidianas, como a falta de direitos trabalhistas e o não reconhecimento da profissão. Algumas atuam como diaristas por necessidade, sem garantias, enquanto outras defendem a valorização e autonomia financeira que a profissão pode oferecer.
Aos 61 anos, Nadir relembra que a situação foi tensa em solo inglês. No país, o uso do aspirador é quase uma obrigação, e foi com ele que tudo aconteceu.
“Eu morei lá um ano. A maioria das casas são carpetadas, e nós fomos limpar a casa de uma senhora. Lá tinha um prato embaixo da cama, tipo uma farinha. Pensamos: ah, vamos limpar, é pra limpar, vamos limpar. Meu Deus, no final era cinza do finado marido da mulher. Foi tudo para dentro do aspirador. Pensa na função, ter que tirar tudo aquilo do aspirador, peneirar a sujeira. Mas a cinza voltou para o prato com tudo”.
Longe da romantização, viver limpando e organizando casas alheias está longe do ideal de vida de muitas pessoas, mas, apesar dos pesares e da falta de assistência que enfrentam, o que não falta na rotina das mulheres que trabalham como domésticas são histórias, sejam felizes ou tristes.
Nedir fala sem rodeios. Depois de anos trabalhando com carteira assinada, hoje vive da diária. Apesar de todos esse anos ela ainda continua. Não por escolha confortável, mas porque precisa. E faz questão de deixar claro: como diarista, é pior.
Ela explica o motivo de forma simples. Vai à casa uma vez por semana, precisa dar conta de tudo e não pode faltar. Se faltar, perde o dia. Não tem garantia, não tem segurança e não tem margem para imprevistos.
Nem tudo vira história engraçada. No dia a dia, Nedir lida com algo mais constante e mais desgastante: a relação com o patrão. Ela conta que passou horas limpando o quintal, com pedras brancas, e a área gourmet, e que, sem aviso, o jardineiro apareceu no meio da tarde. Ou seja, parte do serviço perdeu o sentido. Ela não esconde o impacto. “Acabou com meu psicológico. Eu chorei o final de semana inteiro”.
A irmã, Sandra Ribeiro Marques, de 60 anos, também é empregada doméstica. Começou aos 16 anos. Não teve escolha: teve necessidade. A mãe era viúva, tinha seis filhos e contas para pagar. Sandra foi trabalhar e, no primeiro emprego, já morava na casa da patroa. Não sabia fazer o serviço. Aprendeu ali mesmo, na base da exigência e da repetição. Estudava quando dava, faltava quando precisava trabalhar.
Terminou o ensino médio só aos 28 anos, grávida da filha. A faculdade ficou fora do plano. Não por falta de vontade, mas porque a conta não fechava. Mesmo assim, fala que se orgulha do trabalho que proporcionou tudo o que ela tem na vida, principalmente a filha.
“Trabalho há 40 anos como doméstica. A gente teve que trabalhar para poder ajudar ela. Aí eu fui trabalhar a primeira vez com 16 anos, já para morar no serviço com a pessoa. Eu trabalhava, estudava, só que chega uma hora que as coisas ficam meio difíceis. Eu fiz até o terceiro ano, terminei já tinha 29 anos, e aí você vai reprovando, às vezes faltava na escola para poder trabalhar”.
Hoje, também atua como diarista, e a situação não melhorou. Pelo contrário. Sem carteira assinada, não há garantia. Se falta, perde o dia. Se adoece, perde renda. E precisa dar conta de uma casa inteira em poucas horas. Mais corrido, mais pesado e com menos proteção.
“Ter que brigar com patrões para não ser explorada fazendo aquilo que não teria sido combinado. O trabalho doméstico tem que ser mais valorizado, mais reconhecido, e que a gente possa ter nossas folgas sem ter descontos. Porque, geralmente, quando a gente tem um trabalho, o patrão desconta. Ele acha que a gente não tem esse direito de descansar um dia”.
Para ela, o orgulho é ver a filha formada, ter feito isso com dinheiro das faxinas. “Meu orgulho é nunca ter desistido, de ver que, apesar de tudo, pude dar uma formação para minha filha, ter a minha casa e poder continuar trabalhando”.
“Gosto e continuaria trabalhando como doméstica”
A fala é de Ivonete Silva do Nascimento. Começou ainda mais cedo, aos 15 anos. Hoje, aos 67 anos, se aposentou há três anos. Diferente de Sandra e Nedir, ela diz que gostava do serviço pesado. Nunca se adaptou a trabalhar em uma empresa. Tentou uma farmácia por uma semana e saiu. Preferia trabalhar em casa de família, organizar, limpar e fazer aquilo que muita gente evita.
Mas isso não significa facilidade. Ao telefone, ela lembra da vez em que saiu para jogar o lixo fora e a porta do apartamento bateu. Ficou trancada para fora. Teve que pedir ajuda na rua para conseguir entrar de novo.
As experiências dela variam entre extremos. Teve patrões que a tratavam muito bem, viajavam com ela, não deixavam nem que trabalhasse durante viagens e até cediam a casa de praia para a família dela. E teve quem demitiu sem hesitar. Bastou avisar que estava com dor.
“Todo mundo gostava de mim, eu arriava panela, arrumava armário, coisa que as pessoas não gostavam de fazer. Todo mundo reclamava de trabalhar, mas todas as casas que trabalhava me tratavam como rainha. Teve uma patroa que falou que, na casa dela, ninguém trabalha sem carteira assinada. Por causa dela que me aposentei. Eu sempre tive sorte”.
Aos 44 anos, Marina Morenna de Oliveira Figueredo já soma mais de duas décadas trabalhando como diarista e não gosta de ser chamada de “empregada doméstica”. Para ela, o termo é ultrapassado e carrega um peso desnecessário para quem sai da própria casa para cuidar da casa dos outros com dedicação. Prefere “diarista”, e não é só questão de nome, é de visão de trabalho.
Nascida no Tocantins, onde é concursada como guarda-parque e atua como educadora ambiental, ela deixou o cargo por um motivo simples: o salário não acompanhava o custo de vida. Em Campo Grande, reorganizou a própria vida apostando na organização de residências e afirma que deu certo. Hoje, em uma semana de trabalho, consegue ganhar mais do que recebia no mês. Para ela, isso também quebra outro preconceito comum, o de que quem trabalha em casa de família não tem formação ou estratégia.
Na prática, o trabalho vai além da limpeza. Segundo ela, o serviço é de organização, conforto e funcionalidade. “Elas mandam mensagem querendo que eu seja mensalista em suas casas e dizem que estão com dó de usar a casa, porque eu entrego para o cliente um ambiente confortável, bem limpo e organizado”.
Nem sempre, porém, o valor cobrado é compreendido de imediato. Em um caso, passou o dia inteiro organizando um apartamento extremamente bagunçado. Quando apresentou o preço, a cliente se assustou.
“Eu realmente me dediquei das 8 às 18, consegui entregar um apartamento quase novo para a cliente, e, quando fui falar o valor, ela se assustou, mas expliquei que, no meu serviço, eu pontuei: tempo, serviço de qualidade, grau de dificuldade, bem como entrega do ambiente completamente organizado, lavo roupa nesse combo. Depois, ela me chamou mais outras vezes e, até hoje, quando precisa, eu vou”.
Para ela, o maior erro ainda é enxergar esse trabalho como algo simples. Marina defende que muitas mulheres poderiam ganhar mais e ter melhor qualidade de vida atuando como diaristas, em vez de ficarem presas a um único emprego mensalista.
“Acho que as empregadas domésticas deveriam realizar cronogramas de trabalho. Acredito que ser mensalista demanda muito tempo de vida perdido em uma casa que não é a sua”.
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