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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

23/07/2018 08:15

Há 62 anos Sebastian arrisca a vida e pretende chegar aos 75 como trapezista

Thailla Torres
Sem nenhuma proteção, a habilidade de Sebastian, aos 62 anos, é de tirar o fôlego. Sem nenhuma proteção, a habilidade de Sebastian, aos 62 anos, é de tirar o fôlego.

São cinco minutos de deixar qualquer um sem fôlego. Sob uma lona cheia de furos, a 20 metros de altura, está Sebastian Bonaldo, de 62 anos, fazendo acrobacias em um trapézio, sem rede de proteção, para o desespero de quem o assiste ao homem de cabeça para baixo.

Enquanto muita gente aproveitava o agito das festas julinas pelas cidade, na noite de sábado, cerca de 15 espectadores formavam o respeitável público do Top Circo, um dos mais antigos em atividade em Mato Grosso do Sul, com lona levantada em terreno na Avenida Manoel da Costa Lima, na Vila Piratiniga.

O Top é modesto, mas se orgulha de levar a cultura circense à periferia. Junto, também vai a alegria de família Peres, já na quarta geração do circo, que há décadas faz de tudo para chamar a atenção de adultos e crianças que ainda acreditam na magia do circo e o que ele é capaz de proporcionar toda vez que chega à cidade.

Do alto ele parece um menino. (Foto: Thailla Torres)Do alto ele parece um menino. (Foto: Thailla Torres)
E ele pretende chegar aos 75 anos nas alturas. (Foto: Thailla Torres)E ele pretende chegar aos 75 anos nas alturas. (Foto: Thailla Torres)

O chão de terra batida é a base para as cadeiras de metal que podem servir de assento para 100 pessoas, plateia rara nos últimos anos.

Sebastian é sempre o maior espetáculo da noite. Do alto, sua habilidade não denuncia a idade que tem. O homem com seis décadas de história se movimenta como um menino e é assim desde que se encantou pelo circo. "Sou de uma família que vem do circo desde 1928, com uma mistura de ciganos e família italiana. É uma vida inteira proporcionando sorrisos", comenta Sebastian, depois de descer do palco, intacto.

Ele diz que se apaixonou pelo trapézio ao se inspirar em um acrobata do Ringling Bros. and Barnum and Bailey Circus, criado nos Estados Unidos em 1871, que encerrou suas atividades no ano passado, após 150 anos de história. "É um circo que marcou o mundo e todos que são apaixonados pela arte circense. Nele tinha um trapezista chamado Sebastian, daí veio meu nome e foi nele que eu sempre me inspirei".

Sebastian não faz parte da equipe do Top Circo, mas é primo do dono e está de passagem por Campo Grande. Resolveu ficar uma temporada com a família e contribuir com o espetáculo. "Eu comprei um caminhão novo aqui em Mato Grosso do Sul e quando vim buscar, decidi ficar uns dias por aqui".

O Top Circo é modesto, mas um dos mais tradicionais em Mato Grosso do Sul. (Foto: Thailla Torres)O Top Circo é modesto, mas um dos mais tradicionais em Mato Grosso do Sul. (Foto: Thailla Torres)

Para ele o trapézio é a poesia do circo. "Já fui toureiro, domador de fera e motociclista no globo da morte, mas nada me tira do trapézio. É no alto que eu me sinto livre".

A coragem é o estímulo para fazer cada espetáculo dar certo. "No circo não se pode ter medo, é preciso enfrentar os desafios. Não é à toa que a última vez que cai foi há 36 anos".

Pai de 5 filhos e com uma família gigante, as acrobacias fizeram Sebastian esquecer da velhice. "Esse é um ponto muito interessante, porque ao longo do tempo a gente vai se preocupando com a idade, mas no circo eu não consigo isso. Não me sinto velho, não vejo a idade chegando. Já estou com 62, mas quero chegar aos 75 no trapézio. Se a vida me permitir ir mais longe, eu serei a pessoa mais feliz do mundo".

Longe do medo o único desgaste, segundo o artista, é manter um circo em pleno 2018. "O mais desgastante é o conceito de circo, as autoridades acham que tudo isso é uma palhaçada, enquanto o circo é uma das atividades culturais mais antigas do mundo. Hoje para você rodar o Brasil levando sua lona e sua trupe, é muito difícil", diz Sebastian.

O primo, Hugo Perez, dono do Top, concorda. "Cada vez que a gente levanta uma lona, pagamos encargos com engenheiro, Corpo de Bombeiros e aluguéis de terrenos", conta. "Nós precisamos ser recebidos de braços abertos", acrescenta.

Na hora das acrobacias é preciso unir forças para segurar o cabo de aço. (Foto: Thailla Torres)Na hora das acrobacias é preciso unir forças para segurar o cabo de aço. (Foto: Thailla Torres)
A pequena Yasmin, de 3 anos, dá show no palco dançando ao lado da mãe. (Foto: Thailla Torres)A pequena Yasmin, de 3 anos, dá show no palco dançando ao lado da mãe. (Foto: Thailla Torres)

A dificuldade fez o circo reduzir os número de espetáculos no palco. "Antes o globo da morte tinha três motos, hoje é apenas uma. Não temos condições de comprar outra", lamenta o dono.

Em uma hora e meia de espetáculo, o público aproveita de uma simplicidade familiar, mas que não mede esforços para fazer do show um grande espetáculo. Na hora das acrobacias no alto, um grupo de meninos se esforçam para segurar firme o cabo de aço. Em um momento do show, um dos acrobatas sofre uma queda, mas levanta-se tão rápido que nem parece ter sentido o chão. "Está tudo bem", garante o locutor.

Durante cinco minutos de intervalo, vem a chance de oferecer pipoca, pirulitos e bebidas para que a plateia compre. As atrações voltam e quem assiste de perto, filma as partes mais engraçadas com o celular. No palco, quem recebe os aplausos, se despede do respeitável público com um sorriso e o sentimento de dever cumprido. 

"Se a nossa família está no palco até hoje, é por amor, não tem outra explicação. Mãe, filho, avó, tios e primos, todo mundo se dedica porque acredita na arte circense. É isso que somos, artistas", diz Sebastian.

O trapezista vive na região sul levando seu "Planeta Circo" para cidades do interior, mas quem tiver interesse em assistir seu espetáculo no trapézio, pode aproveitar sua presença em Campo Grande nas próximas duas semanas, no Top Circo que ainda está na Avenida Manoel da Costa Lima.

Circo está montado na Avenida Manoel da Costa Lima. (Foto: Thailla Torres)Circo está montado na Avenida Manoel da Costa Lima. (Foto: Thailla Torres)


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