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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

24/05/2017 07:44

Japonês há mais tempo em sala de aula começou a carreira usando tamanco

Chuck é diretor, mas não deixa de dar aulas do conteúdo mais temido ainda hoje, a Matemática

Paula Maciulevicius
Com quase 40 anos de sala de aula, professor contabiliza ter ensinado matemática para pelo menos 30 mil alunos. (Foto: Marina Pacheco)Com quase 40 anos de sala de aula, professor contabiliza ter ensinado matemática para pelo menos 30 mil alunos. (Foto: Marina Pacheco)

Um dos professores mais queridos da cidade ensina justamente a matéria que é um terror para muitos alunos, a matemática. Há quase 40 anos dentro de sala de aula, Chuck é um dos personagens de Campo Grande cuja trajetória o Lado B escolheu contar. Tímido, o professor diz que não tem muito a ser narrado. No entanto, os números provam ao contrário: pelo menos 30 mil alunos passaram pelas suas aulas ao longo dos anos.

A sugestão para a entrevista veio de uma das primeiras alunas de Chuck, ainda no Colégio Dom Bosco, assim que ele voltou de São Paulo, no final da década de 70.

O episódio que marcou a adolescente à época volta à memória do professor acompanhado de uma risada cheia de saudade. "Nossa senhora, eu nem lembrava disso", brinca Chuck. Sobre a história de que ele começou a carreira usando tamancos de madeira, a explicação para o detalhe é uma volta ao passado. "Eu não fiz isso para chamar atenção, na verdade foram pouquíssimas vezes", conta.

Onde está o Chuck? Professor é o penúltimo à direita. Foto dos anos 90, no Colégio Dom Bosco. (Foto: Arquivo Pessoal/Professor Carlão)Onde está o Chuck? Professor é o penúltimo à direita. Foto dos anos 90, no Colégio Dom Bosco. (Foto: Arquivo Pessoal/Professor Carlão)

Nascido em Campo Grande, Chuck se mudou com toda família para São Paulo por volta dos 15 anos, para estudar. Naquela época os pais não tinham condições de bancá-lo sozinho enquanto cursava Engenharia na USP.

"Só que São Paulo é muito bom para os jovens, para mim era uma coisa espetacular, mas para os meus pais não. Quando eu vinha para cá nas festas de fim de ano, eu via o quanto o ambiente daqui para eles era melhor", recorda.

Em uma das visitas, surgiu o convite dos padres salesianos para que Chuck desse aulas no Dom Bosco. "Era uma oportunidade que eu não tinha em São Paulo. Lá eu só conseguia substituir ou dar aulas em supletivo, o que não era um ganho muito grande", explica.

Chuck voltou a Campo Grande antes dos pais e ficou morando na casa da avó. "Eu não tinha trazido todas as minhas coisas, roupas, tudo. Então a minha avó me emprestou um tamanco de madeira japonês. Não foi no sentido de chamar atenção que usei, foi pela necessidade", justifica.

Seis meses depois da chegada, o pai do professor morreu e ele passou a ser o "cabeça da família". "Comecei a me dedicar mais para ganhar mais também. Troquei a faculdade e terminei Matemática aqui", conta.

Já nos anos 2000, no Colégio Avant Garde. (Foto: Arquivo Pessoal/Professor Carlão)Já nos anos 2000, no Colégio Avant Garde. (Foto: Arquivo Pessoal/Professor Carlão)

A Campo Grande dos anos 70 e 80 contava com dois grandes colégios. Os alunos se dividiam entre a Mace e o Dom Bosco. "Lá nós chegamos a ter 12 salas de 100 alunos cada só no terceiro ano. Então basicamente 80% dos meus alunos são filhos de ex-alunos", contabiliza. Sobre lembrar de tantos ex-alunos, Chuck brinca que só dos bagunceiros ele gravou melhor os nomes.

Persistir em sala de aula exige gostar - e muito - daquilo que se faz. "Para mim é um privilégio trabalhar. Também, se não gostasse, eu ia matar um aluno a cada dia", brinca. Lá pelos anos 2000, Chuck e mais outros sócios abriram o Colégio Avant Garde, onde ele esteve por uma década, até iniciar outro colégio, a Novaescola. Mesmo atuando como diretor, Chuck não deixa de ensinar matemática.

"Se você fica só como diretor passa uma imagem de delegado, de quem prende e pune. Então entrando em sala, o aluno começa a te enxergar diferente e isso facilita muito também na hora de conversar com o professor", explica.

O "Chuck", pronunciado por aqui com "Chuquie", que o acompanhou por toda a vida escolar era apelido da época de USP e ficou conhecido por aqui quando os colegas de lá vieram passar férias em Campo Grande. "O certo seria Chuck em inglês mesmo por causa de um colega, mas ninguém falava assim se não ele entenderia que o deboche era com ele. E você sabe que tudo o que você não gosta pega. Acham até hoje que é meu nome japonês", diz.

E até a mãe de Newton Miyahira o chama de Chuck. Sobre a idade, ele se nega a estragar a brincadeira dos alunos. Segredo não é, mas é melhor que se deixe os estudantes brincarem. "Falam que eu só não apareço no retrato da Santa Ceia porque fui eu que fiz a foto, que quando Deus disse 'haja luz', eu que acendi o fósforo. Que o a.C. e d.C é antes de Chuck e depois de Chuck", conta.

No ano passado, ao fazer aniversário, a vela do bolo era um oito deitado, símbolo do infinito. "Eles querem descobrir a minha idade. Fazem as contas 'meu pai tem 50, 60, então você deve ter 80'".

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Parabéns pela reportagem, Paulinha.
Realmente o Chuck é pré-histórico...
 
PAULO VALDECI JORGE em 24/05/2017 14:50:06
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