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Campo Grande, Terça-feira, 18 de Setembro de 2018

13/08/2018 07:45

Na 14 de Julho, sorveteria ficou na memória como passeio depois do cinema

Lugar era ponto de encontro na cidade e tinha visitante que ia só para admirar as máquinas “Carpegianni” funcionando.

Thailla Torres
Sorveteria ficava no térreo de um edifício construído em 1937 para ser morada de Said Name. Sorveteria ficava no térreo de um edifício construído em 1937 para ser morada de Said Name.

Quando a gente passa pela 14 de Julho, em frente a Praça Ary Coelho, um endereço em especial vem à memória. No número 1829, ficava a sorveteria "Torino", que durante os anos 70, 80 e 90 era ponto de encontro do campo-grandense, após as matinês e as sessões do Cine Alhambra. Mas além de fazer parte da história de diversão dos moradores, o local já foi atração para quem quisesse ouvir as máquinas de sorvete funcionando ou experimentar os tradicionais sabores italianos.

Quem resgata histórias dessa época é uma das netas dos fundadores da sorveteria. Até 1976, foram eles que comandaram o estabelecimento até venderem para os antigos funcionários. Os primeiros donos eram italianos, Giuseppe Ballatore e Clara Ballatore, carinhosamente lembrados Vô Zé e Vô Nona. "Eles, nossos avós, estão na memória emocional de Campo Grande. Foram e são os melhores avós de todos os tempos", lembra a neta Mirella Ballatore, de 54 anos.

Vó Nonna ao lado de Tia Helena, na sorveteria que funcionava todos os dias. Vó Nonna ao lado de Tia Helena, na sorveteria que funcionava todos os dias.

Ela conta que avós vieram da Itália para fugir da guerra. Giuseppe foi o primeiro a chegar e ficou um ano em Santos, trabalhando como garçom e aprendendo o português lendo jornal. "À época ficou hospedado em  uma pensão para imigrantes. E as passagens eram pagas metade pelo governo italiano e metade pelo governo brasileiro".

Um ano depois chegou Nona, em uma navio que aportava no Porto de Santos, após um mês de travessia. Juntos vieram tentar uma vida diferente em Campo Grande. "Quando a família chegou, não tinham dinheiro para móveis e dormiam em cima de caixotes de madeira. Depois puderam ir para um casa de alvenaria que alugaram na Rua Barão do Rio Branco próximo da antiga rodoviária. Dividiram a casa com dois patriotas porque eles não tinham onde morar". 

A sorveteria nasceu das referências italianas com a promessa de sabores inigualáveis. Ficou localizada na 14 de Julho, no térreo de um edifício projetado e executado em 1937 pelo arquiteto alemão Frederico Urlass, foi ele quem mais difundiu o estilo Art Déco em Campo Grande. Em cima da sorveteria, vivia a família de Said Name.

Quem viveu naquela época lembra de um lugar lotado. Aniversário da cidade e feriado de 7 de setembro o movimento era mais intenso. Nos fins semana, além dos cinemas e sessões de matinê, a promessa era levar a família para tomar um sorvete. 

Quem não podia comprar, ía ao local pelo menos para admirar o funcionamento das máquinas. "Eles batiam o sorvete nas duas máquinas “Carpegianni”, trazidas de São Paulo pelo Vô Zé.  Elas funcionavam com salmoura e todo mundo ficava admirado".

Avô em frente ao edifício construído por ele na Rua 26 de Agosto. (Foto: Arquivo Pessoal)Avô em frente ao edifício construído por ele na Rua 26 de Agosto. (Foto: Arquivo Pessoal)

No cardápio da época, vários sabores: creme, chocolate, nata, morango, coco queimado, milho verde, limão, ameixa, tamarindo. Mas no quesito picolé de groselha, o Espumone e Cassata não tinha pra ninguém, descreve a neta. "Eram todos preparados por Nonna. Tinha também bolo e vitamina de mamão, banana e abacate. Os melhores sabores".

A família tem poucas fotos da época, mas uma delas em que aparece o sorriso de Vó Nonna acima, ao lado da irmã, faz  os netos voltarem ao passado. "Eles eram muito caprichosos. Achei essa foto em que aparece Tia Helena e Vó Nonna. Chamávamos de vó duas vezes, uma em português e outra em italiano, para não briga", brinca o neto Mario Márcio Ballatore ao encontrar o retrato.

O casal ficou na administração da sorveteria até 1976, quando venderam aos antigos funcionários, afirma Mirella. "Depois vovô morreu em 1989. Nonna, em 2004. Os novos proprietários levaram a sorveteria até 2011, quando acabaram de vez com ela".

Os avós também estão na memória arquitetônica de Campo Grande. "Construíram um edifício na Rua 26 de Agosto, que têm seus nomes, entre a 13 de Maio e Rui Barbosa, em frente à MACE. Conquista das vendas do melhor sorvete da cidade. Hoje eles são memórias e uma amor eterno em nossos corações. Nos derem a direção, a disciplina  devemos tudo a eles".

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