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Comportamento

Orgulho para aldeia é ver Dara ser a 1ª médica kaiowá de MS

Nascida em Caarapó, Dara é a índia que se formou médica aos 25 anos sem esconder suas raízes nativas

Por Raul Delvizio | 12/03/2021 09:18
Dara é a médica kaiowá que fala guarani e mora em aldeia (Foto: Arquivo Pessoal)
Dara é a médica kaiowá que fala guarani e mora em aldeia (Foto: Arquivo Pessoal)

Na aldeia indígena Te’yikue, a 15 quilômetros do centro do município de Caarapó, Dara Ramires Lemes teve uma infância feliz. Mas é nessa mesma comunidade que até hoje vive com a família e, sem negar suas raízes e laços culturais, se formou aos 25 anos a primeira médica generalista de MS que fala guarani e é filha de um kaiowá.

Trabalhando em um posto de saúde no interior, ela atende seus pacientes com uma proximidade cultural que a diferencia de todos os outros colegas. “Percebo que as pessoas se sentem mais à vontade falando a língua nativa. Todos eles, assim como eu, também falam português, porém é um conforto saber que estamos dialogando na mesma identidade cultural”, afirma.

Jovem médica em treinamento cirúrgico (Foto: Arquivo Pessoal)
Jovem médica em treinamento cirúrgico (Foto: Arquivo Pessoal)

Mesmo recém-formada – registro profissional veio em dezembro do ano passado –, Dara acompanhou de perto a covid-19 se alastrar nas comunidades indígenas espalhadas pelo Brasil. Para ela, tanto o estado de MS quanto o país ainda têm muito a evoluir quando o assunto é representatividade.

“Mas eu acredito que muito em breve teremos mais e mais profissionais assim como eu no sistema de saúde. Já existem universitários cursando enfermagem, odontologia e áreas afins que também são filhos de diferentes etnias. Com certeza, assim como eu, também irão se somar no futuro dos povos indígenas”, torce.

Antes de se tornar médica, a história de Dara começou em Caarapó, onde nasceu. Sem se lembrar do ano, acabou mudando para uma fazenda próximo a Ponta Porã. Foi lá que iniciou os estudos pré-escolares. Aos 5 anos, retornaram a sua cidade natal e nunca mais saiu da aldeia Te’yikue.

Dara ao lado dos pais, mãe Zeni e o pai Dario (Foto: Arquivo Pessoal)
Dara ao lado dos pais, mãe Zeni e o pai Dario (Foto: Arquivo Pessoal)

“Desde então moramos aqui. Lembro que quando chegamos não havia nada no local. Hoje, a casa já é rodeada de árvores frutíferas e foi construído um campo de futebol nos fundos. Um ambiente agradável de se viver e curtir em comunidade”, reflete.

Nas suas memórias, ela se recorda de amar jogar bola, participar dos treinos de futebol e competições. “Ganhei vários títulos pela escola indígena. Lembro também de gostar muito de aprender, de estudar, mas odiava tirar notas ruins”, admite.

“Ajudava na vendinha dos meus pais desde meus 5 anos. Não sei como, mas eles confiavam em mim. E, mesmo com essa idade, eu sabia atender direitinho e dar o troco correto ao cliente”, revela.

Infância feliz foi em meio à natureza (Foto: Arquivo Pessoal)
Infância feliz foi em meio à natureza (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas como é que Dara acabou se tornando médica? A resposta é: incentivo. “Meus pais sempre me apoiaram. Tanto é que viram em mim um talento de atleta. Foi pelo esporte que me ajudou a ser disciplinada e responsável. Mas também eles alertavam que o caminho do estudo precisava vir antes de tudo”.

Na adolescência, a jovem médica praticava o futsal no interior do estado e, na sequência, o futebol de campo. Acabou que  foi aprovada para jogar em Campo Grande. Mas durou pouco. Dara foi parar em Belo Horizonte, onde passou para o time infanto-juvenil do Atlético Mineiro.

Dara foi jogadora de base do Atlético Mineiro (Foto: Arquivo Pessoal)
Dara foi jogadora de base do Atlético Mineiro (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro do time na época (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro do time na época (Foto: Arquivo Pessoal)

“Meu pai Dario não só foi um jogador de futebol nato, mas passou o gostinho pelo esporte para mim e meu irmão, ele que até hoje é atleta e atualmente mora em Portugal. Quanto a mim, resolvi parar de jogar bola. Concluí o ensino médio, prestei vestibular e vi que precisava de muito mais para conseguir ser aprovada no meu sonho. Mas fui adiante. Entrei em um cursinho, estudava diariamente e finalmente consegui passar”, diz.

“As dificuldades eram tantas para uma menina indígena de aldeia. Parecia que eu não poderia sonhar tão alto, mas descobri que sim. O sentimento que fica agora é o da gratidão. Grata por Deus ter me abençoado com pais maravilhosos, proporcionar na minha formação de médica em uma universidade federal e por jamais esquecer de quem realmente sou, de cultivar minha raízes”, finaliza.

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Registro ao lado do pai, no dia que Dara recebeu o registro do CRM (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro ao lado do pai, no dia que Dara recebeu o registro do CRM (Foto: Arquivo Pessoal)
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