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Campo Grande, Terça-feira, 15 de Outubro de 2019

15/07/2019 08:23

Paulo não tem redes sociais, não dirige e ama vender banana com os filhos

Sociólogo e historiador, Paulo Cabral é conhecido pelo intelectual, mas leva uma vida simples e adora romper com os estereótipos

Thailla Torres
Paulo não tem redes sociais e não suporta celular, mas diz que ama compartilhar seu conhecimento no dia a dia. (Foto: Paulo Francis)Paulo não tem redes sociais e não suporta celular, mas diz que ama compartilhar seu conhecimento no dia a dia. (Foto: Paulo Francis)

O sociólogo e historiador Paulo Cabral é uma das figuras famosas na mídia sul-mato-grossense. Da política ao comportamento social, ele fala sobre tudo. Mas o Lado B quis conhecer de perto as particularidades do homem de 70 anos, inteligente, e com uma memória privilegiada, que também se diverte desconstruindo estereótipos, provando que, além de professor e intelectual, gosta mesmo é de ser simples.

Paulo não só passa o tempo lendo, estudando e pesquisando. Aposentado, ele adora andar pela cidade, observar as pessoas e conversar. Mas é ao lado dos filhos, que são produtores de banana em Mato Grosso do Sul, que o sociólogo se diverte vendendo a fruta. “É muito engraçado, porque isso desconserta todas as pessoas. Certa vez, perguntaram-me se eu era irmão do sociólogo e quando afirmei que na verdade era eu, a pessoa ficou surpresa”, conta.

A venda de bananas não é uma profissão, mas um momento de prazer ao lado dos filhos. “Quando eu os visito lá em Terenos, também ajudo a vender na feira e acho tudo muito divertido. É um momento especial pra mim”.

Pai de quatro filhos e avô de dois, Paulo tem “particularidades” que chamam atenção há alguns anos. Não tem redes sociais e só teve o primeiro celular em 2007, porque foi obrigado, mas até pouco tempo quem quisesse conversar teria mesmo que ligar no fixo ou encontra-lo por aí. “Eu só fui ter celular quando a Uniderp foi vendida e assumi uma nova função. Mas antes quando o celular ainda era adereço de mão e o povo se estapeava para ter um, eu não queria uma coleira eletrônica. Me causa estranheza ainda algumas urgências que não são urgências. Há 20 anos não havia celular e as pessoas sobreviviam perfeitamente”.

Paulo recebendo diploma de Ciências Sociais. (Foto: Arquivo Pessoal)Paulo recebendo diploma de Ciências Sociais. (Foto: Arquivo Pessoal)

Embora todo conhecimento, diz ser tão arcaico que até hoje nunca dirigiu. “Eu não dirijo e nunca me propus a aprender dirigir. Sou um cara que ando e viajo, aliás, sempre fui meio aloprado nesse aspecto. Então eu me desligo enquanto estou andando e isso seria um risco para mim e para sociedade. Prefiro andar a pé, de ônibus, de carona, hoje, também uso Uber”.

Depois de sete décadas de vida, a memória do sociólogo é surpreendente, aparece em detalhes e datas, nas histórias do Bixiga, um dos tradicionais bairros da cidade de São Paulo, onde nasceu até as memórias de Campo Grande. Mas não é só de conteúdo que vive o professor. Na memória, nada faria sentido se não fosse compartilhado. O público leigo tem vez com Paulo e por isso é fácil falar da vida sem se sentir diminuído por saber menos que ele.

“Eu tenho consciência que o meu trabalho é intelectual, mas sei que a minha palavra tem um reflexo. Sempre tive dificuldade a ficar preso aos estereótipos. Essa coisa de não falar algo porque sou um intelectual nunca foi comigo. Não adianta eu ficar num registro linguístico hermético, então nesse sentido eu vulgarizo todo o meu saber. Não tenho necessidade desse pedantismo acadêmico, quero mesmo é falar de coisas complexas de maneira simples”.

Costuma dizer que é “arroz e festa”, por isso, não tem problemas em atender todo mundo. “Se a mídia me chama, eu vou, se os acadêmicos me chamam, eu vou também. Atendo todo mundo com a mesma postura, nunca diferencei os profissionais e nem as pessoas”.

Paulo diz que houveram situações determinantes sua postura ao longo da vida. Gosta de lembrar a infância ao lado da avó que era analfabeta, mas falava um português da norma culta, de forma que ele pode ter um ouvido muito treinado. “E isso era uma tremenda contradição porque eu nasci no Bixiga, meu pai era eletricista, minha mãe bordadeira profissional, meus avôs carroceiros, minhas avós lavadeiras, então a gente era pobre”.

“Eu sou um cara bem resolvido como pessoa e me sinto muito privilegiado porque sempre trabalhei com o que gosto de fazer. (Foto: Paulo Francis)“Eu sou um cara bem resolvido como pessoa e me sinto muito privilegiado porque sempre trabalhei com o que gosto de fazer". (Foto: Paulo Francis)

Formado por imigrantes italianos, o Bixiga ganhou importância história e turística graças às suas cantinas, às festas de rua e a um intenso corredor cultural. Mas foi também cenário que fez Paulo enxergar uma separação violenta das classes. “De alguma maneira isso contribuiu para que escolhesse Ciências Sociais, além de diversos outros episódios que me levaram a pensar sobre a sociedade”.

Dificuldades na infância geraram cobranças, mas ele garante que sofreu por pouco tempo. “Eu fui um guri extremamente obeso, então eu era muito ruim no brinquedo, não jogava futebol direito, sempre que tivesse algo que requeria correr eu era o último a ser escolhido, sofria bullying. Então eu tiver que ser bom em alguma coisa e virei um aluno aplicado. Isso de certa forma me transformou”.

Optou por cursar Ciências Sociais, em 1968, quando o curso ainda era pouco divulgado. Formado em 1972, na fase mais sombria da ditadura militar, ele e os amigos eram vistos, bacharéis e licenciados, como subversivos e perigosos. “Por isso, tínhamos que estudar muito para não ser desqualificado como baderneiro. A fala precisava ter credibilidade. Assim fiz a universidade sem nenhuma dependência”.

Prefere não falar dos traumas da vida, mas não esquece do grande amigo que desapareceu na ditadura. “Abílio era negro, pobre e diziam que ele teria sido preso. O fato é que ele desapareceu uma semana antes de completar 22 anos, no quarto anos de faculdade e nunca mais tivemos notícias. Chegamos a ter aula com militares fardados dentro da sala de aula, ninguém ia sozinho ao banheiro porque muitos desapareciam, foi um horror completo”.

Por isso, a profissionalização foi construída de maneira difícil. Inicialmente na docência, depois, também na administração pública, Paulo atuou em diferentes frentes de trabalho, mas sempre falando português, brinca. “Quando comecei a lecionar eu não posso falar de Sociologia em ‘sociologuês’ com as pessoas, tinha que ser em português, de maneira simples. E eu acho que isso de alguma maneira acabou facilitando o meu contato com a mídia e com diversas pessoas”.

A primeira vez que falou para a televisão em Campo Grande foi no programa Recado, da Marilu Guimarães, sobre preconceito racial. Depois disso nunca titubeou para falar com a imprensa, muito menos se vangloriou pelo saber. “O conhecimento pode ser uma arma de poder e, se você está numa discussão, isso te dá uma vantagem muito grande. Mas existe um grande problema que é a necessidade das pessoas se reafirmarem e isso acontece com pessoas que não são felizes naquilo que fazem”.

Embora tenha trabalhado durante os três turnos durante 40 anos, garante que nunca fez da profissão algo escravizante ou alienador. “Já ocupei alguns cargos e nunca tive o exercício autocrático. Trabalho é importante, mas prezo muitíssimo pela minha família, não falo de assuntos polêmicos na mesa e não abro mão dos domingos”.

A moral da história é que um grande intelecto não faz diferença em relação à sua satisfação com a vida se ainda houver um vazio, esclarece Paulo. “Eu sou um cara bem resolvido como pessoa e me sinto muito privilegiado porque sempre trabalhei com o que gosto de fazer. Também tive a felicidade e o acaso de encontrar gente muito bacana no meu caminho, de ter tido oportunidades interessantes, por isso, não preciso ficar me afirmando em cima de nada, sou um sujeito feliz”, finaliza.

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