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Comportamento

Por causa da farda, Edilaine teve o pai assassinado e perdeu 1º filho

Policial militar conta com foi superar a dor de perder o pai, o seu primeiro filho e também o irmão – tudo no mesmo ano

Por Raul Delvizio | 25/02/2021 06:53
Edilaine fardada durante evento oficial da Polícia Militar. (Foto: Arquivo Pessoal)
Edilaine fardada durante evento oficial da Polícia Militar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 18 anos, o sonho de Edilaine Mansueto era entrar para o time da PPMS (Polícia Militar de Mato Grosso do Sul). Quando conseguiu, o que não imaginava era enfrentar a dor do luto. Num gesto de "retaliação" pelo serviço da filha, seu pai Odair teve a vida interrompida por bandidos. No mesmo ano, grávida do 1º filho, Edilaine perdeu a gestação durante o processo do pesar.

O ano era 2006, conta. "Meu pai foi vítima de latrocínio (roubo seguido de morte), onde resolveram matá-lo por ele ter sido 'afrontoso' dizendo que tinha uma filha policial. Degolaram ele com o próprio canivete que guardava no bolso. Fiquei muito abalada, tive um choque emocional tremendo. Nisso, eu que estava gestante de 3 meses, acabei não somente por perder o avô do meu filho, mas a criança também", relembra.

Carreguei por muito tempo a sensação de que meu pai perdeu a vida devido o que eu fazia de melhor".

Edilaine se orgulha das medalhas conquistadas. (Foto: Arquivo Pessoal)
Edilaine se orgulha das medalhas conquistadas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Logo após o enterro do pai, ela voltou ao local onde acharam o corpo dele. Até então não sabia o motivo do crime. Por ser pedreiro, Odair tinha o costume de usar um canivete para raspar o cimento acumulado nas unhas. Foi assim que Edilaine conseguiu pistas.

"Me empenhei ao máximo para prender a dupla. Muitos esperavam que eu fizesse 'justiça com minhas próprias mãos', mas eu jamais me igualaria a eles. O que eu fiz, mesmo sendo muito difícil naquela época, foi o que eu continuo exercendo até hoje: representei a lei e deixei que a justiça prevalecesse", afirma.

Uma semana depois, Edilaine conseguiu prender os assassinos. "Me recordo de ter sentido um alívio enorme, por mais que nunca teria meu pai ou meu filho de volta. Carregar a profissão de polícia no Brasil não é fácil. Eu mesma pude sentir na pele o peso disso", diz.

Edilaine, ao lado de colegas de trabalho, durante treino da corporação. (Foto: Arquivo Pessoal)
Edilaine, ao lado de colegas de trabalho, durante treino da corporação. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas esta não foi a única dor na vida dessa policial. Quando seu irmão caiu de moto, teve apenas algumas escoriações. No posto de saúde, entretanto, o rapaz foi liberado. Após uma semana, ele não conseguia mais andar. Quando a cunhada de Edilaine avisou a ela e juntas levaram Gledistom ao Hospital Regional, ele ficou internado apenas por um dia – falecendo no outro.

"Devido a falta de assepsia, entrou uma bactéria em sua corrente sanguínea e ele teve uma infecção generalizada. Foi uma falha terrível. Quando mais precisávamos, não foi possível recebermos um simples atendimento", lamenta.

Mesmo diante de tantas perdas e pancadas que já passou, Edilaine buscou superar o luto. Em suas palavras, "é em fogo forte que se forja aço bom! Essa é uma frase que utilizamos muito no meio militar. Eu fiz das minhas cicatrizes medalhas no peito para continuar a viver", reflete.

Edilaine durante ronda ostensiva em viatura da PM.(Foto: Arquivo Pessoal)
Edilaine durante ronda ostensiva em viatura da PM.(Foto: Arquivo Pessoal)

"Muitas pessoas me veem sorrindo e acham que não tenho problemas. Claro que tenho, mas é que eu procuro resolvê-los com sorriso no rosto. Nada vai adiantar perder o equilíbrio e deixar o caos tomar conta", diz.

Empoderamento – Filha de pai pedreiro e mãe dona de casa, cresceu em uma família simples mas de muito amor. Desde cedo, aos 12 anos de idade, Edilaine conta que se quisesse ter um futuro promissor teria que batalhar. Uma luta também na época em que entrou para a PMMS, em que apenas 10% das vagas eram destinadas às mulheres.

"Quando entrei na corporação, não foi fácil provar de que também era capaz assim como qualquer policial masculino. Ouvia piadinhas, às vezes era deixada fora de algumas missões por 'acharem' que eu não daria conta. Mas dava. Como sempre digo, conquistei meu espaço fazendo o meu melhor", confirma.

Após concluir a academia e trabalhar em outros setores da PMMS, Edilaine foi convidada na sequência para entrar na equipe de segurança do ex-governador Zeca do PT e André Puccinelli, além do atual Reinaldo Azambuja. Por 19 anos, desempenhou a função de segurança de autoridades e se tornou uma especialista na área, com dois cursos e uma pós-graduação.

"Durante o último Governo fiz a segurança pessoal da hoje deputada federal Rose Modesto que à época estava como vice-governadora. Experiência muito valiosa pois a tinha também como modelo de mulher que conquistou um espaço relevante em nossa sociedade. Assim como na polícia, o gênero masculino ainda é predominante na política. Sempre a observava falar e tentava absorver seus bons exemplos de postura", revela.

Por 19 anos, ela desempenhou a atividade de segurança de autoridades; vestida de preta, Edilaine ao fundo, à esquerda (Foto: Arquivo Pessoal)
Por 19 anos, ela desempenhou a atividade de segurança de autoridades; vestida de preta, Edilaine ao fundo, à esquerda (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 42 anos, hoje Edilaine exerce o cargo de subtenente da PMMS, além de subcomandante da Força Tática do 1º Batalhão – responsável pela área central da Capital. Além de "chefe", ela é mãe e transformou os traumas do passado em superação.

"Tenho uma filha que está com 13 anos agora. Quero que ela sempre veja em mim seu maior exemplo de mulher forte e determinada, que não aceita discriminação de gênero ou falta de profissionalismo. Se ela seguirá o trabalho da mãe, aí é com ela. Mas independente disso, terá sempre o meu total apoio", garante.

Para Edilaine, o bom da vida é a jornada – e a mudança. "Ainda bem que a vida seguiu o seu curso. A verdade é que, assim que acordamos da cama, temos escolhas a tomar: enfrentar os problemas reclamando ou ser grata por mais um dia vivido", finaliza.

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Registro com sua filha, que hoje tem 13 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro com sua filha, que hoje tem 13 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
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