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Meio Ambiente

Às margens do Anhanduí, aposentado cria bosque urbano com 700 plantas

Otávio Pitelin transformou o local em pomar aberto à vizinhança e aos pássaros

Por Inara Silva | 22/02/2026 09:16
Às margens do Anhanduí, aposentado cria bosque urbano com 700 plantas
Otávio Pitelin, de 69 anos, em meio ao seu bosque, mostra a fruta noni. (Foto: Renan Kubota)

Quem passa apressado pela Avenida Ernesto Geisel talvez não perceba que, entre o concreto e o movimento dos carros, existe uma pequena floresta. Às margens do Rio Anhanduí, no bairro Taquarussu, um corredor de cerca de um quilômetro de extensão abriga o que o aposentado Otávio Pitelin, de 69 anos, gosta de chamar de “condomínio das frutas”.

RESUMO

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Aposentado Otávio Pitelin, de 69 anos, transformou as margens do Rio Anhanduí, em Campo Grande, em um bosque urbano com mais de 700 plantas. O espaço, que se estende por um quilômetro no bairro Taquarussu, abriga árvores frutíferas, espécies do Cerrado e ervas medicinais. O projeto, iniciado em 1988, cresceu sem apoio público ou planejamento formal. Pitelin mantém o local aberto à comunidade, permitindo que moradores e passantes colham frutas livremente. Ex-guarda municipal, ele atribui parte de sua recuperação de um grave acidente às plantas que cultiva, considerando o trabalho no bosque como terapia.

Ali, entre calçada, barranco e canteiros improvisados, crescem mais de 700 plantas,  árvores frutíferas, espécies do Cerrado e ervas medicinais, cultivadas pelo jardineiro voluntário.

“Eu só queria que mais gente fizesse isso. Não custa. É uma terapia gigantesca”, resume, com as mãos ainda sujas de terra.

Do sítio ao bosque - O gosto pela plantação veio da infância em Indápolis, distrito de Dourados, onde cresceu no sítio do avô. Aos 18 anos, deixou a vida rural para servir na Base Aérea em Campo Grande .

Desde 1976  mora na mesma casa, em frente ao rio, acompanhou toda a urbanização da região. E em 1988, começou a plantar as primeiras mudas com o irmão, médico interessado em fitoterapia. A ideia inicial era cultivar plantas para fazer remédios naturais. O irmão se mudou da cidade e Otávio continuou plantando.

“Fui ficando… quando vi, já tinha um monte de árvore,” relembra.

Às margens do Anhanduí, aposentado cria bosque urbano com 700 plantas
A pequena floresta, às margens do Rio Anhanduí, tem cerca de 1km de extensão (Foto: Renan Kubota)

Erros e Acertos - Não há placa, projeto paisagístico ou verba pública. O bosque cresceu na base da observação, tentativa e erro. Otávio nunca cursou agronomia. Fez, nos anos 1980, alguns cursos de ervas medicinais, em São Paulo, e aprendeu o resto “mexendo com a terra”.

Hoje, o espaço reúne espécies variadas como araticum, graviola, gabiroba, caqui, ameixa, jaca, limão-galego, limão-rosa, jenipapo, jatobá, caju, pitanga, noni, uvaia, além de ipês e imbaúbas, estas últimas, segundo ele, favoritas de sabiás, bem-te-vis e sanhaços. A moringa, garante, vive cheia de pássaros.

“Muita coisa aqui é mais pros passarinhos do que pra gente.”

As sementes vêm de todos os lados. Ele as recolhe em caminhadas, recebe de amigos, parentes e até desconhecidos que já sabem do destino será a margem do Anhanduí.

“Onde eu ando, ando caçando sementes,” afirma.

Às margens do Anhanduí, aposentado cria bosque urbano com 700 plantas
Otávio Pitelin mostra suas plantas com orgulho. (Foto: Renan Kubota)

Agrofloresta improvisada - Sem irrigação constante, ele precisou adaptar técnicas. Plantou feijão-andu entre as mudas para fazer sombra e proteger o solo que seca rápido por ser terra de aterro. O feijão também virou alimento compartilhado.

“O pessoal de rua colhe pra comer. Isso é o mais importante.”

Otávio mistura espécies de propósito, testando como convivem. Em cada cova, coloca várias mudas, criando uma pequena agrofloresta urbana.

Fugir do Concreto - Para ele, o maior problema das cidades não é falta de discurso ambiental, mas excesso de chão impermeável.

“Todo mundo fala de clima. Mas a terra está com sede. A chuva cai no asfalto e vai embora. Não entra no solo,” diz ao demonstrar que sempre que chove corre para ver as raízes das plantas e, geralmente, estão secas.

A crítica vem acompanhada de ação prática, pois onde vê espaço vazio, Otávio Pitelin planta. Ele afirma que há árvores cultivadas por ele em vários pontos da cidade, como oitis, sete-copas e mangueiras. Sempre com a mesma lógica, que é gerar sombra, alimento e abrigo.

“Se eu não plantar, onde o idoso vai caminhar no sol quente?”

Às margens do Anhanduí, aposentado cria bosque urbano com 700 plantas
Feijão andu colhido ainda verde (Foto: Renan Kubota)

Colheita livre - Em sua floresta, nada é cercado. Frutas são colhidas por vizinhos, andarilhos e curiosos. Ele não se incomoda.

“É para todo mundo. Para passarinho, para quem precisa, para quem quiser.”

Na região das Moreninhas, mantém um terreno com um pomar de pitaya, ainda em pequena produção, mais voltado à família. O que amadurece primeiro vai para filhos e netos. Mas a ideia é, futuramente, vender.

Pausa forçada - Otávio já foi radialista, vigia e atuou por 26 anos na Guarda Municipal de Campo Grande. Ele se aposentou há cinco meses, consequência de um atropelamento sofrido em 2021, durante atendimento de ocorrência, na madrugada. Teve ferimentos na cabeça, na perna e quebrou o braço em 19 pedaços. Ficou internado, passou por cirurgias complexas e hoje carrega duas hastes e 22 parafusos. “Eu quase perdi o braço”, afirma.

Ele atribui parte da recuperação à alimentação e às plantas que cultiva. Voltou devagar às margens do rio e retomou a rotina. “Aqui é meu remédio.”

Atualmente, 250 sementes germinam à espera de espaço. Ele ainda procura novas espécies e o pequi está na sua lista de desejos.

“Se todo mundo fizesse um pouquinho”, diz, olhando a fileira de árvores que ajudou a crescer, “Campo Grande virava um paraíso.”

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Árvore moringa gera sombra e atrai passarinhos, segundo Otávio. (Foto: Renan Kubota)

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  • Fotos: Renan Kubota
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