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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

28/10/2019 07:38

Quando humano é "enquadrado", quem sofre é o cachorro

Na região da antiga rodoviária, moradores de rua criaram uma rede para cães não ficarem desamparados a cada operação na área

Alana Portela
O cachorro ficou deitado ao lado dos amigos durante a operação Laburu da Polícia Militar na antiga rodoviária de Campo Grande (Foto: Marcos Maluf)O cachorro ficou deitado ao lado dos amigos durante a operação "Laburu" da Polícia Militar na antiga rodoviária de Campo Grande (Foto: Marcos Maluf)

Virou rotina na região da antiga rodoviária. Vira e mexe a polícia "enquadra" moradores de rua que vivem por ali, a maioria, de dependentes químicos. Nessas horas, quem perde a parceria são os cachorros, amigos inseparáveis de muita gente que perdeu o teto, mas não a afetividade. Por isso, apesar da tristeza do bichinho quando o amigo vai preso, sempre aparece alguém para cuidar enquanto o dono não volta. 

Na semana passada, enquanto outra operação levava suspeitos de tráfico para a cadeia, um dos cães chamou atenção na foto do repórter Marcos Maluf, pelo ar sereno, enquanto os humanos eram revistados. E essa relação rende muita conversa. Em uma manhã acompanhando a rotina por ali, descobrimos que animal de rua é muito bem alimentado e que a maioria se preocupa mais com bicho do que com gente. 

“Se acontecer alguma coisa comigo, tenho meus companheiros para ficarem com a Menina e com o Guri”, diz João Carlos Alves Martins. Ele é conhecido por Gaúcho e mora embaixo da ponte, no cruzamento das Avenidas Ernesto Geisel e Manoel da Costa Lima. Há três meses, adotou dois vira-latas recém desmamados para serem seus filhos. “Hoje, eles são tudo pra mim”, afirma.

“Qualquer pessoa chegar aqui não vai ver coisa feia, porque não deixo faltar água e nem ficarem magricelos. Sempre estão alegres e bem alimentados. Ganho ração pra eles e até as marmitas comem. Cuido mais deles do que de mim. Amo muito, como se fossem meus filhos, e já fui parar na delegacia porque bati em um cara que queria pegar eles”, conta Gaúcho.

Menina à esquerda e Guri a direita ficam na sombra e acorrentados para não serem atropelados na rua (Foto: CGNews)Menina à esquerda e Guri a direita ficam na sombra e acorrentados para não serem atropelados na rua (Foto: CGNews)

Ele mora no mesmo local há 23 anos, veio de outro estado para tentar a sorte aqui. O destino deu uma reviravolta e quando percebeu já estava no caminho errado. No meio dos vícios e crimes, a vida é solitária, mas Menina e Guri são os únicos entre tantos “amigos” que não vão julgar nem abandoná-lo, independentemente das circunstâncias.

Os “filhos” são a chance de Gaúcho, e de vários outros moradores de rua, demonstrarem que não perderam a humanidade e manter o laço da afetividade. Por isso, ele faz questão de estar sempre por perto dos seus bichinhos. “Dormem comigo no barraco, nos pés da cama. Acordo cedo e eles me acompanham até a calçada da rua, onde faço os copos de garrafas de vidro”.

Os cachorrinhos são de porte pequenos e ficam presos a uma corda, para não correrem o risco de serem atropelados na rua. Deitam, brincam, bebem água, comem e latem enquanto o dono e outros quatro moradores de rua trabalham vendendo copos no mesmo semáforo.

É cada um por si, mas quando o assunto é a Menina e o Guri, todos se ajudam. Enquanto um vende, outro aguarda sentado do lado dos cachorros, e quando o sinal fecha novamente, é a vez do outro voltar para cuidar e assim vai o dia inteiro.

Cleiton Miller Miguel da Silva (Foto: CGNews)Cleiton Miller Miguel da Silva (Foto: CGNews)
Antônia Aparecida dos Santos dando água para Georginho (Foto: CGNews)Antônia Aparecida dos Santos dando água para Georginho (Foto: CGNews)

“Fazem nossa alegria”, afirma Nelson Odair Mendonça de Oliveira sobre Menina e Guri. “Sou dependente químico, tenho meus vícios e fracassos, mas quando ganho dou para os cachorros. Sempre dão marmita, mas por conta dos entorpecentes fico sem fome”, relata.

Ele é o responsável por cortar as garrafas de vidro e fazer os copos. Criou um fogão improvisado e quando amanhece, acende o fogo para começar os trabalhos. Em seguida, Gaúcho leva os cachorros assim o dia fica mais divertido. “Sou 100% eles. É melhor ter um cachorro amigo, que um amigo cachorro. Às vezes, podemos até não gostar da gente, mas gostamos deles que gostam da gente”, destaca.

Antônia segurando Georginho no colo para não levarem dela (Foto: CGNews)Antônia segurando Georginho no colo para não levarem dela (Foto: CGNews)

Antiga rodoviáriaMais para o Centro da Capital, a história não é diferente. Cleber Miller Miguel da Silva de 31 anos e Antônia Aparecida dos Santos de 45, adotaram o vira-lata “Georginho”. “Somos apaixonados por ele, e ele gosta da gente”, afirma o dono.

O casal é dependente químico, montou uma barraca perto da antiga rodoviária onde mora com o cachorro. No meio da bagunça e miséria, ainda sobrou um espaço para doguinho e como “bons” pais, não deixam faltar alimento para o “filho”.

“Estou sempre catando reciclagem e comida no lixo para dar a ele. Às vezes, sobra carne ou osso na marmita e a pessoa joga fora, então pego e dou para o Georginho. Ele é tudo que temos e dorme com a gente”, declara o casal.

Georginho já teve três donos, mas há um ano está com Cleiton e Antônia. “A última que estava com ele era a Ana Paula, e viviam na Avenida Afonso Pena. Mas teve uma briga por lá, alguém bateu nele e o Georginho fugiu. Depois a Ana foi para uma clínica de reabilitação e o cachorro começou a nos seguir. Agora é nosso”, contam.

Enquanto conversavam com a reportagem, dois policiais civis desceram da viatura e, com as armas na mão, “enquadraram” Cleiton. A confusão assustou e, para proteger o filho, Antônia pegou Georginho no colo, se afastou e deu um grito. “Meu cachorro ninguém leva”.

Ela não segurou o choro quando pensou na possibilidade de Georginho ser levado. Contudo, após uma revista na barraca, os policiais foram embora. Cleiton ficou nervoso com a confusão e pegou o cachorro no colo para acalmar. Após receber carinho e lambidas do “filho”, o clima melhorou.

Contudo, caso Cleiton fosse preso, Antônia ficaria com a “guarda” do cachorro, mas também contaria com a ajuda dos colegas que ficam na antiga rodoviária para cuidá-lo.

Suspeitos deitados ao lado de cachorrinha durante abordagem (Foto: Reprodução/ Passeando em Campo Grande)Suspeitos deitados ao lado de cachorrinha durante abordagem (Foto: Reprodução/ Passeando em Campo Grande)

Outra imagem que também chamou atenção foi a da cachorrinha “se entregou” à polícia junto com o dono, que foi preso por tráfico de drogas em Deodápolis, 252 quilômetros de Campo Grande. O fato aconteceu em março deste ano.

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