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Comportamento

Única profissão da vida, há 30 anos, Luciano é fruteiro na Dom Aquino

Ele conta que viu diversos lojistas se despedirem da rua, mas garante que só sai de lá aposentado

Por Aletheya Alves | 25/05/2022 06:22
Dos 45 anos, Luciano trabalha como vendedor de frutas na Dom Aquino há 30. (Foto: Aletheya Alves)
Dos 45 anos, Luciano trabalha como vendedor de frutas na Dom Aquino há 30. (Foto: Aletheya Alves)

Em 30 anos, Luciano da Silva Souza, de 45, já vendeu tanta fruta que nem se imagina abandonando sua barraquinha, que já virou ponto tradicional em Campo Grande. Fruteiro na Dom Aquino desde seus 15 anos, ele conta que até hoje sua única profissão foi vender os alimentos na mesma rua e, se seus desejos forem atendidos, só sai dali quando conseguir se aposentar.

“Aquela loja ali da frente vendia roupa, a outra, que hoje vende capinha de celular, era uma rede, do lado tinha um banco que hoje não existe mais. Vi muita gente aqui, até pessoas que já morreram”. Entre um cliente e outro, mantendo a atenção para cada um que aparecia entre a conversa, Luciano foi recuperando as lembranças de uma vida construída no coração da cidade e contando sobre como até hoje continua no mesmo lugar.

Enquanto alguns mantém fotografias que registram o tempo passado, Luciano explica que ele guarda as memórias vividas na Dom Aquino apenas em sua mente. Isso porque, conforme ele detalha, fazer fotos nunca foi algo que passou por sua cabeça devido ao ritmo de trabalho e custo de ter uma câmera até pouco tempo.

Durante estas três décadas, o vendedor já passou por três pontos de venda diferentes, mas todos na Dom Aquino. “Primeiro, eu vendia entre a 14 de Julho e a Treze de Maio, mas depois, vim para a quadra entre a Calógeras e a 14” conta.

Quando começou a trabalhar, Luciano ainda tinha companhia dos viajantes que chegavam à antiga rodoviária e, com a evolução dos anos, cada fachada de loja e detalhes da rua foram mudando. Sem precisar de imagens, ele explica que manter seu ponto na Dom Aquino fez com que ele visse Campo Grande em várias fases.

Foto de 1982 mostra cenário que Luciano viveu dez anos depois e relembra. (Foto: Roberto Higa)
Foto de 1982 mostra cenário que Luciano viveu dez anos depois e relembra. (Foto: Roberto Higa)

De acordo com as lembranças do vendedor, na época em que começou a trabalhar na rua, os "camelôs" ainda tinham espaço nas calçadas e era com eles que ele dividia a área. "Depois, veio o Camelódromo e o pessoal foi para lá, mas, como eu era fruteiro, continuei aqui", diz.

Um dos detalhes que nem se passa pela cabeça de quem não manteve esse contato, conforme ele explica, é de que, por exemplo, era mais fácil encontrar frutas nas ruas do que em mercados.

Naquela época, tinha muito fruteiro, porque mercado não tinha prática de vender isso. Então, as pessoas vinham para o Centro e compravam com a gente. Tanto que antes, eu chegava a vender mais de 300 bandejas de morango em um dia", relembra.

O tempo foi passando e a maior parte dos colegas que trabalhavam no mesmo ramo foram mudando de profissão. Questionado sobre a vontade de ter seguido um rumo parecido, o vendedor detalha que viu sua vida sendo construída em conjunto com as frutas naquele endereço, por isso, resolveu permanecer por ali.

Vendedor lembra de quando vendia mais de 300 bandejas de morango ao dia. (Foto: Aletheya Alves)
Vendedor lembra de quando vendia mais de 300 bandejas de morango ao dia. (Foto: Aletheya Alves)

“Muita gente passou por aqui, mas eu continuei. Já tive momentos difíceis, mas a gente sempre superou e hoje, não consigo mais ficar longe. Necessidade mesmo eu nunca passei e isso porque fui conquistando os clientes”, justifica.

Além de ver as ruas e fachadas de lojas mudando, o vendedor conta que acompanhar o desenvolvimento da população também é um benefício de seguir a mesma profissão por tanto tempo.

“Tem gente que vem comprar fruta aqui de mim hoje que eu conheci quando era criança. Por eu ter 30 anos de trabalho, as pessoas sabem que podem confiar e preferem comprar aqui.”

Apesar das vendas terem reduzido no decorrer dos anos, Luciano diz que tem fé no contato com os clientes. E por já ter passado sua vida inteira garantindo a comida na mesma com o trabalho, diz que realmente só sai dali quando a aposentadoria chegar.

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