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Únicas pilotos da Força Aérea em MS, sonho fez Débora e Laura irem longe

Comportamento

Únicas pilotos da Força Aérea em MS, sonho fez Débora e Laura irem longe

As duas revelaram as glórias e dificuldades de serem as únicas pilotos em um ambiente em que a maioria é homem

Por Raul Delvizio | 08/03/2021 07:10
Aos 25 anos, Laura é a segundo-tenente do Esquadrão de Busca e Salvamento (Foto: Arquivo Pessoal)
Aos 25 anos, Laura é a segundo-tenente do Esquadrão de Busca e Salvamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Em Campo Grande, duas mulheres mostram que, quando se trata de alcançar sonhos, nem o céu é o limite. Únicas pilotos femininas da FAB (Força Aérea Brasileira) em MS, major Débora Ferreira Monnerat, 36 anos, e a segundo-tenente Laura Cabral Cruz Lopes da Silveira, 25, nunca quiseram outra coisa a não ser se tornarem aviadoras. Mais do que trabalho, foi sobre as nuvens onde encontraram seu lugar e também se posicionaram como as "caçadoras" do ar. Juntas, elas fazem parte do Esquadrão Pelicano, na qual tem a missão de busca e salvamento de aeronaves perdidas no tráfego aéreo nacional.

Ao Lado B, as duas aeronautas contaram sobre suas vidas, revelaram as dificuldades no caminho já que o ambiente militar ainda é predominantemente masculino e mostraram que o pioneirismo fez jus não só na profissão delas, mas como de muitas outras.

Laura sorri para clique de dentro de um avião (Foto: Arquivo Pessoal)
Laura sorri para clique de dentro de um avião (Foto: Arquivo Pessoal)

"Na minha infância em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, eu assistia a Esquadrilha da Fumaça fazer suas apresentações sem nunca ao menos imaginar que algum dia eu pudesse estar lá em cima, pilotando um avião, fazendo também parte daquela história. Na minha família isso era algo distante, mas na típica dúvida de ensino médio – 'o que vou fazer pra minha vida?' – o militarismo virou uma certeza. Na época, a AFA (Academia da Força Aérea) era a única academia das Forças Militares que aceitava cadetes femininas. Resolvi trilhar, sabendo que outras mulheres já tinham feito aquilo pouco antes de mim, se tornado aeronautas e me inspirando a fazer o mesmo", diz Laura.

Aqui, ao lado de um helicóptero (Foto: Arquivo Pessoal)
Aqui, ao lado de um helicóptero (Foto: Arquivo Pessoal)

A gaúcha revela que prestou as provas em três anos seguidos, até conseguir entrar para a academia em 2015. Ela até chegou a cursar a faculdade de Engenharia Cartográfica como um plano B, mas não foi preciso. Em janeiro do ano seguinte já estava se apresentando à AFA.

"Descobri o interesse pela aviação de asas rotativas (helicóptero) logo de cara, principalmente pela capacidade de resgatar e salvar vidas. Mas foi o Esquadrão Pelicano, aqui de Campo Grande, que me abriu os olhos para a atividade, assim como outras localidades que também atuam com helicóptero, inclusive na minha terra natal. Quando me formei em final de 2019, a próxima etapa era fazer essa especialização. De Natal (RN), fiz o meu melhor para chegar a Mato Grosso do Sul", garante. Atualmente, Laura faz um curso de instrução para pilotar o Black Hawk da FAB.

Débora também faz parte do Esquadrão de Busca e Salvamento da FAB em MS (Foto: Arquivo Pessoal)
Débora também faz parte do Esquadrão de Busca e Salvamento da FAB em MS (Foto: Arquivo Pessoal)

Já Débora trilhou um caminho semelhante à colega. "Entrei para a Força Aérea em 2004, isso na segunda turma de mulheres aviadoras na AFA de Pirassununga, São Paulo. Não conhecia nenhum militar nem tinha noção da vida no militarismo. Muitas pessoas diziam que eu nem iria conseguir, mas provei o contrário. Desde menina, sempre quis me tornar piloto. Tive o incentivo dos meus pais que acreditaram nesse sonho junto comigo, e isso fez a maior diferença", ressalta.

Tinha 20 anos quando pilotou pela primeira vez, uma aeronave modelo T-25. Após quatro anos em regime de internato, só sendo liberada aos finais de semana, Débora se formou em 2007 e escolheu trabalhar na aviação de busca e salvamento. Foi aí que veio parar em Campo Grande. Por aqui, se apaixonou pela cidade, pelo esquadrão e pela missão imposta.

"É um trabalho silencioso mas de muita relevância. Praticamente todos os meses somos acionados para buscar aeronaves de pequeno porte, que muitas vezes nem são noticiadas nos jornais. Também atuamos durante situações de enchentes, incêndios em locais de difícil acesso, assim como de ajuda humanitária. Em janeiro, por exemplo, pude participar do transporte de enfermos graves com covid-19, de Manaus à Brasília. Talvez poucas pessoas saibam, mas esse suporte nacional vem, na maioria das vezes, daqui mesmo de Campo Grande", se orgulha. Major com 1.500 horas de voo, hoje ela é também instrutora da aeronave SC-105.

Major Débora tem 36 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Major Débora tem 36 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Meio masculino – Por mais que a profissão escolhida seja predominantemente masculina, as duas mulheres da FAB cumprem escalas, atribuições e têm responsabilidades da mesma maneira que os homens. "A diferença existe, é claro, afinal somos entre homens e mulheres de diferentes hierarquias. Porém, aqui somos tratadas com muito profissionalismo e respeito. Para mim, o maior empoderamento é nós muheres fazermos um trabalho bem feito, com competência e dedicação. É assim que nos colocamos em posição de admiração", reflete a major.

Já para a tenente Laura, adaptação é a palavra da vez. "A FAB foi pioneira em permitir mulheres na academia. Muitos passos já foram dados e outros ainda precisam vir também. Requer adaptação de ambos os lados. O que posso dizer é que o relacionamento interpessoal entre nós mulheres com os homens é como outro qualquer. Acredito que as dificuldades são as mesmas no mundo civil, apenas o extra da rigidez na instrução aérea, o salto de emergência, os exercícios de campanha, as sobrevivências na selva ou no mar. Em todas essas horas, o respeito é fundamental", confirma.

Débora com companheiros do esquadrão (Foto: Arquivo Pessoal)
Débora com companheiros do esquadrão (Foto: Arquivo Pessoal)

O céu não é o limite, mas nosso meio. Não importa gênero, cor ou classe social, busque sempre persistir em seus sonhos".

Para as duas, quando se trata do próprio potencial, não existe "se superar" – apenas fazer. "Seja homem ou mulher, todos nós podemos alcançar voos tão altos quanto o tamanho do sonho. Hoje e cada vez mais mulheres assumem posições relevantes na sociedade. No militarismo não é diferente. Cabe a nós mesmos a consistência, dedicação e perseverança", afirma Débora.

"Sonhar é bom, mas ficar só no desejar não é prático. Não só imagine, mas esteja no seu 'lá'. Corra atrás, esteja pronta. Às vezes a vida não sai da forma como a gente planeja, mas podemos realizar nosso sonhos de diversas maneiras. Saiba que é possível, e vale a pena investir".

"O céu não é o limite, mas nosso meio", afirma Laura (Foto: Arquivo Pessoal)
"O céu não é o limite, mas nosso meio", afirma Laura (Foto: Arquivo Pessoal)

Para as mulheres que um dia dia tiverem o interesse de entrar para a FAB como elas o fizeram, aqui vão algumas dicas: "estude muito! Se prepare não só fisicamente, mas trabalhe sua inteligência emocional também. Os desafios são intensos, e esses atributos são necessários para o sucesso durante toda a carreira. Agora, caso não consiga ser uma aviadora militar, tudo bem, você pode ser por outras Forças Armadas ou pelas Forças Auxiliares. Na Escola de Especialistas de Aeronáutica, por exemplo, você pode se tornar tripulante. Ou ainda buscar a carreira de piloto civil. Existem muitas mulheres com histórias incríveis que estão dispostas a dar o braço e ajudar a alcançar voo nos céus do Brasil", finalizam.

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