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Comportamento

Vinícius aprendeu mais do que imaginava ao amar transexual

Não foi nada fácil conquistar o coração da atual namorada, uma vez que o preconceito é o maior desafio

Por Raul Delvizio | 05/04/2021 07:40
Babi e seu namorado Vinícius em selfie romântica; ela mulher trans, ele homem hetero (Foto: Arquivo Pessoal)
Babi e seu namorado Vinícius em selfie romântica; ela mulher trans, ele homem hetero (Foto: Arquivo Pessoal)

Em um mundo que pouco respeita pessoas LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais e todas as demais existências de gêneros e sexualidade), o auxiliar Vinícius e a cabeleireira Maria Babi reconstroem o afeto. Ele é um homem cis – que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu – e ela é uma mulher transexual. Juntos vivem o desafio de amar e lutar contra quem acha que não há espaço para a relação deles.

No preconceito que insiste em dizer que uma relação "normal" só existe entre homem e mulher cisgênero, escolher amar uma transexual é nadar contra a corrente e vencer uma série de estigmas. Por isso, Vinícius Vilhalba da Silva, de 20 anos, resolveu compartilhar sua história de como escolheu passar por cima disso e dar as mãos contra a transfobia.

Mas antes, uma palavrinha de Maria Babi Chagas da Silva. Aceitar a relação foi um processo para ela também, já que o medo de "ser usada" vivia à frente da vontade de dividir a vida com alguém. Por muito tempo, ela diz que se sentiu um "objeto sexual" em suas experiências amorosas, insegurança que persistiu até seus 24 anos – quando finalmente encontrou Vinícius.

"Com ele foi diferente. Pelo que eu já vivi, achei que seria mais um cara a me usar sexualmente ou me encher de ilusões amorosas e depois que conseguisse o que queria pularia fora do barco. Porém, ele se mostrou mais do que isso. Desde o começo, eu sou 'perfeita' aos olhos dele", diz.

Vinícius dá um beijinho na bocheca da namorada, e ela se "assusta" de brincadeira (Foto: Arquivo Pessoal)
Vinícius dá um beijinho na bocheca da namorada, e ela se "assusta" de brincadeira (Foto: Arquivo Pessoal)

Vinícius conta orgulhoso como conheceu Babi. Tudo começou nas redes sociais. "Fluiu uma conversa legal. E olha que ela nunca olhava a caixa de mensagens! Passou um tempo e acabamos por decidir nos conhecer pessoalmente. Quando eu a vi pela primeira vez, pode até parecer clichê, mas eu realmente senti borboletas no meu estômago", admite.

Os dois moram em Dourados e, antes de se encontrarem, Vinícius diz que já sabia da transexualidade de Babi, mas que isso nunca mudou sua admiração. "Sempre tive atrações por mulheres cis e, quando a vi, uma mulher transexual, simplesmente me apaixonei!, revela.

Como as pessoas ainda confundem ou custam a entender a diferença identidade de gênero com orientação sexual, não é difícil Vinícius ter que se explicar. "Não sinto atração por homens, por gays, apenas por ela. Por isso, fui verdadeiro e correto com ela desde o início, mostrando que estava ali para valer e que, aos meus olhos, a via como ela realmente é: uma mulher", explica.

Prova disso foi quando ele mostrava fotos de Babi para seus amigos e familiares – questão de orgulho ao rapaz. "Ele resistiu às pressões externas e argumentava que me amava, dizendo que para ele eu era uma mulher como outra qualquer e ponto. Independente da minha transexualidade, sempre achei que eu fosse merecedora de alguém que me amasse e aceitasse como eu mesma me vejo e reconheço", diz a namorada.

Firme e forte, relacionamento dos dois já dura quase 1 ano; "vai durar o quanto tive que ser", garantem (Foto: Arquivo Pessoal)
Firme e forte, relacionamento dos dois já dura quase 1 ano; "vai durar o quanto tive que ser", garantem (Foto: Arquivo Pessoal)

Claro que nem tudo foram flores. "Os familiares dele diziam que eu não daria netos pois eu não era uma mulher 'de verdade' e que nunca seria uma. Aquilo me ofendia muito", garante Babi. "Já alguns conhecidos falavam comentários maldosos, perguntando se minha namorada tinha ou não vagina. Além de grosseiro, era uma questão que só cabia a nós dois", diz Vinícius, acrescentando: "desde o início, este relacionamento nunca me foi um empecilho", revela.

Mas independente do que o mundo pensa, o casal só quer que o amor dure e vença. "Ela me faz querer ser um homem melhor. Por causa do nosso relacionamento, me sinto uma pessoa mais experiente e madura. Não só pela questão da transexualidade, mas por saber aquilo que eu quero e seguir meu coração", revela o rapaz. Já a namorada elogia: "ele é fofo, carinhoso e do mesmo signo que o meu. Fazemos aniversário com 4 dias de diferença. Estava escrito nos astros", brinca.

Em Dourados, Babi é a mulher trans cabelereira e maquiadora de salão de beleza (Foto: Arquivo Pessoal)
Em Dourados, Babi é a mulher trans cabelereira e maquiadora de salão de beleza (Foto: Arquivo Pessoal)
Aos 20 anos, Vinícius confirma: "desde o início, este relacionamento nunca me foi um empecilho" (Foto: Arquivo Pessoal)
Aos 20 anos, Vinícius confirma: "desde o início, este relacionamento nunca me foi um empecilho" (Foto: Arquivo Pessoal)

Hoje em dia, com pelo menos 11 meses de namoro, a relação de Babi com os familiares de Vinícius anda mais amena. "Minha sogra já mudou bastante e eu também. Descontraímos juntas a mente comparando ao que era antes, quando eu comecei a namorar seu filho. Me arrisco a dizer que somos amigas e que o mesmo respeito que ela me dá como nora eu também ofereceu em sua retribuição".

Quanto à sociedade douradense, os dois até colocam panos quentes. "A gente sai de mãos dadas na rua e até vejo as pessoas nos olhando com cara de surpresa, do tipo 'caramba, ela namora!', mas não olhares de opressão. Na verdade, a reação das pessoas em relação à gente foi bem tranquilo. Não senti medo ou vergonha, mas tive um sentimento de pertencimento. Acho que com isso estou fazendo uma estrada para que outras mulheres trans de Dourados também possam caminhar sem tantas pedras no caminho. Afinal, tudo é possível e todo dia damos cara a tapa", finaliza Babi.

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