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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

24/07/2018 08:43

Celso é o "sem juízo" que usa recicláveis para construir até Fusca Transformers

Ele acumula material reciclável em casa e ninguém imagina o que já foi capaz de criar

Thailla Torres
Fusca Transformers é a criação mais inusitada do bairro Taveirópolis. (Foto: Thailla Torres)Fusca Transformers é a criação mais inusitada do bairro Taveirópolis. (Foto: Thailla Torres)

É só bater palmas na casa de Celso Ramos Aristimunho, de 60 anos, para ver que ali mora alguém diferente. Com jeito calmo e de voz baixa, o dono abre as portas sorridente ao saber que mais uma vez alguém se interessou pela sua maior obra de arte, o Fusca batizado de Transformers, completamente reformado com materiais recicláveis.

O carro é um sucesso no bairro, ele diz. "Onde passo, as pessoas querem tirar foto. Mas ainda não terminei e falta muita coisa para ficar pronto. Mas quando terminar quero chamar até a televisão", brinca.

A reforma começou há 5 anos quando Celso comprou o veículo e pagou em três prestações. Era um carro detonado, que precisaria de muito dinheiro para ser reformado em uma oficina. Por esse motivo, ele decidiu fazer tudo sozinho, com materiais que, há anos, guardava dentro de casa.

Frente do carro é maior atração. (Foto: Thailla Torres)Frente do carro é maior atração. (Foto: Thailla Torres)
Bagageiro feito com peças encontradas no lixo. (Foto: Thailla Torres)Bagageiro feito com peças encontradas no lixo. (Foto: Thailla Torres)
Detalhe do Batman na porta do veículo. (Foto: Thailla Torres)Detalhe do Batman na porta do veículo. (Foto: Thailla Torres)
Ainda faltam detalhes para o carro chamar mais atenção, diz Celso. (Foto: Thailla Torres)Ainda faltam detalhes para o carro chamar mais atenção, diz Celso. (Foto: Thailla Torres)

Celso passou a juntar materiais recicláveis em 1996 depois de perder o emprego. Formado em Administração, o diploma não o ajudou a conseguir emprego. "Eu não conseguia mais trabalho por conta da minha saúde debilitada, tenho sérios problemas intestinais".

Tornou-se feirante e vendia pão caseiro pelas ruas da cidade. "Ao mesmo tempo fui aprender a reformar carro que é uma coisa que gosto muito. Desde então, comecei a recolher materiais recicláveis".

Pessoas conhecidas chamavam Celso de louco e homem sem juízo, por recolher tanto material. Mas decidido a mudar de vida, ele deu de ombros para os comentários e continuou a revirar o lixo. "Me chamavam de mendigo e fora do juízo, mas eu falava para todo mundo que faria um comércio com aqueles materiais".

Na mesma década, Celso diz que conseguiu comprar uma casa, bem antiga, na Rua Maracaju onde passou a vender pães com a família. "Eu olhava orgulho para o nosso barracão de lona que funcionava todos os dias com a venda de pães. Pensava no que um homem sem juízo era capaz de fazer".

O sucesso com os pães fez a família mudar de casa, levar uma vida mais tranquila, mas ele continuou com os recicláveis. "Eu vi que o trabalho com as minhas próprias mãos era muito mais lucrativo".

Celso mostra o que restou após o incêndio do fim de semana. (Foto: Thailla Torres)Celso mostra o que restou após o incêndio do fim de semana. (Foto: Thailla Torres)

Há cinco anos, Celso perdeu o pai e voltou para a casa antiga, no Taveirópolis, que abriga sua família há 40 anos. O lugar é diferente desde a fachada, com curvas e portões de madeira que levam os visitantes ao passado. "Isso tudo foi invenção do meu pai. Ele queria uma fachada bem diferente", conta.

Do lado de dentro, além do Fusca, paredes e janelas da casa são todas pintadade de branco. "É para economizar energia e quanto mais claro for a pintura, não precisamos de lâmpadas", justifica.

No imóvel, a tinta, o forro e os detalhes pelo quintal foram feitos por Celso, tudo com o uso de recicláveis. "Eu não sou um acumulador, eu trabalho com cada peça que pego na rua. Até a tinta branca que passei na parede, eu encontrei no lixo", garante.

Transformer - Foi assim que conseguiu criar o Fusca Transformers. "Tudo que tem nele é peça que ferro-velho joga fora. Eu não descarto nada". O carro tem bagageiro no teto, ventilador adaptado no interior e lâmpadas por todos os lados. "É a minha máquina", se orgulha.

A única tristeza é que um incêndio, no último fim de semana destruiu parte de todos os materiais recolhidos por Celso. "O fogo começou e levou muita coisa embora. Tinha lataria, bancos, batedeira velha, ventilador e um monte de objeto que eu ia transformar em alguma coisa mirabolante".

Ele se diz o cientista do bairro, porque além do Transformers, jura que é capaz de criar qualquer coisa dentro de casa. "Eu fiz uma coisa que posso até ganhar um prêmio", diz. Celso tira da caixa um motor de ventilador que foi transformado em carregador de celular portátil e lanterna. "Basta rodar a manivela e o celular começa a carregar".

Motor de ventilador virou carregador de celular e lanterna com manivela. (Foto: Thailla Torres)Motor de ventilador virou carregador de celular e lanterna com manivela. (Foto: Thailla Torres)
Bicicleta motorizada por ele é o novo xodó. (Foto: Thailla Torres)Bicicleta motorizada por ele é o novo xodó. (Foto: Thailla Torres)

O catador prova que seu objeto funciona. Ao lado dos destroços que ainda restam no quintal, ele mostra o que ficou intacto e que em breve será transformado. "Essa madeira vou usar para alguns móveis e essas peças estou usando para criar um gerador", mostra.

Recentemente, ganhou uma bicicleta que foi motorizada por ele e hoje é o maior xodó da casa. "Ando de bike e tenho meu Fusca para trazer as compras do mercado".

Tem gente que questiona sua formação e o que lhe motiva a revirar o lixo. "Sou formado, mas muita coisa caducou na minha cabeça, não tenho mais condições de voltar a trabalhar com isso (Administração). Me sinto bem inventando coisas".

Hoje, o único desejo é recomeçar o depósito de recicláveis para terminar o Fusca e continuar trabalhando. "A única ajuda que peço é doações de recicláveis. Quem quiser se desfazer de algo, pode me doar, aceito de coração", pede.

Se alguém tiver interesse de ajudar Celso, os telefone para contato são (67) 98444-3110 ou 984083577.

Celso aparece e se despede simpático na porta de casa. (Foto: Thailla Torres)Celso aparece e se despede simpático na porta de casa. (Foto: Thailla Torres)


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