Guanandi ou Moreninha? A disputa pela feira mais raiz de Campo Grande
Feirantes e visitantes apontam os diferenciais de dois espaços tradicionais da Capital
Perguntar qual é a melhor feira de Campo Grande pode ser tão polêmico quanto discutir futebol. Tem quem jure que a do Guanandi é imbatível. Outros garantem que nada supera a Moreninha. Para entender essa rivalidade, o Lado B passou a manhã de domingo nas duas feiras.
RESUMO
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Feiras tradicionais de Campo Grande, como a do Guanandi e a da Moreninha, preservam a essência do comércio de bairro e atraem frequentadores fiéis por diferentes motivos. No Guanandi, o pastel e o caldo de cana reúnem famílias aos domingos, enquanto feirantes como Bryan Inoue mantêm receitas de 1989. Na Moreninha, o movimento diminuiu após a pandemia, mas feirantes e clientes resistem pelo vínculo afetivo construído ao longo de décadas.
No Guanandi, a resposta apareceu quase de forma unânime: o pastel. Mas basta caminhar entre as barracas para perceber que o sucesso da feira vai muito além da comida. O movimento intenso, as famílias circulando e a relação entre feirantes e clientes ajudam a explicar por que tanta gente escolhe passar o domingo por ali.
Feirante há 17 anos, Kacy da Silva conhece bem esse movimento. Ao longo da semana, ela trabalha em cinco feiras diferentes espalhadas pela Capital, mas diz que o domingo tem um clima especial. Segundo ela, o Guanandi reúne pessoas de diferentes bairros logo nas primeiras horas da manhã, em busca do tradicional café da manhã de feira. "Tem mais gente, o pessoal vem cedo comer pastel, tomar um caldo de cana", conta.
Para Kacy, esse é apenas um dos diferenciais. Ela destaca a variedade de produtos, das roupas às barracas de alimentação, e o vínculo criado ao longo dos anos com clientes que já chegam sabendo exatamente onde encontrá-la.
"A gente faz amizade. É um conjunto de tudo: os feirantes, os clientes e a própria feira.", completa.
Quem cresceu acompanhando essa movimentação foi Victor Leal, de 21 anos. Programador durante a semana, ele ajuda o tio na banca de eletrônicos desde os 12 anos e diz que praticamente viu a feira crescer.
Victor já trabalhou em outras feiras da cidade, mas prefere o Guanandi. Para ele, o diferencial está na variedade e no movimento constante de pessoas.
"Tem muita coisa para fazer, muita barraca de comida, de roupa... e daqui a pouco fica ainda mais cheio", comenta.
Quando perguntado sobre o que ninguém pode deixar de experimentar, a resposta veio sem pensar duas vezes: "Aqui tem o melhor pastel de Campo Grande."
A fama do pastel tem uma explicação que atravessa gerações. Bryan Inoue cresceu dentro da barraca da família. Ele brinca que suas primeiras lembranças são de dormir em caixas de repolho enquanto o pai trabalhava na feira. Hoje, ele está à frente do negócio iniciado em 1989.
Segundo Bryan, a receita nunca mudou. O segredo continua sendo o mesmo criado pelo pai há mais de três décadas, e talvez seja justamente isso que faz tantos clientes atravessarem a cidade apenas para comer um pastel de frango com catupiry ou carne com queijo.
Mais do que vender, ele diz que construiu uma comunidade.
"Os clientes viraram amigos. Tem gente que acorda e manda mensagem dizendo que já está pensando no pastel.", relembra.
Para ele, o ambiente familiar também diferencia a feira. Aos domingos, famílias inteiras passeiam entre as barracas, transformando o café da manhã em um programa tradicional.
Entre uma barraca e outra, quem também faz parte dessa tradição é o palhaço Putuco. Há mais de 20 anos levando apresentações às feiras de Campo Grande, ele está no Guanandi há cerca de 15 anos e vê no espaço uma oportunidade de aproximar arte e infância.
Segundo ele, a combinação entre brinquedos, comidas típicas e atrações para crianças cria um ambiente diferente das demais feiras.
A ligação afetiva com o Guanandi também atravessa gerações. A servidora pública Rute Cândida frequenta a feira há mais de duas décadas. O filho, José Pedro, de 24 anos, praticamente cresceu entre as barracas. As lembranças começam ainda no carrinho de bebê.
Hoje, ele percebe que muita coisa mudou na cidade, mas acredita que a feira conseguiu preservar a essência.
"Ela nunca perdeu a característica inicial. Continua sendo uma feira de bairro, aquela feira raiz.", explica.
Para a família, segurança, preços acessíveis e o ambiente familiar ajudam a explicar por que o passeio continua fazendo parte da rotina.
O cenário encontrado pela reportagem na Feira da Moreninha foi diferente. O movimento era tímido. Poucas pessoas circulavam entre as barracas. Ainda assim, bastaram alguns minutos de conversa para perceber que quem permanece ali o faz por muito mais do que as vendas.

Há 30 anos na feira, Osmar Rocha viu o local viver dias muito mais movimentados. Ele lembra de uma época em que as barracas ocupavam um espaço muito maior e o fluxo de pessoas era constante. Na opinião dele, a pandemia marcou uma mudança definitiva.
Mesmo assim, desistir nunca foi uma opção.
Após uma cirurgia no coração, Osmar deixou de trabalhar em festas e eventos e decidiu permanecer apenas na feira. O motivo é simples: ali ele encontrou amizades.
"Não gosto de ficar em casa. Eu gosto da feira. Pode estar frio, pode estar chovendo, eu venho. Se vender, vendeu.", disse.
A feirante Silmara Ferreira também percebeu essa transformação. Moradora da Moreninha, ela começou vendendo biscoitos anos atrás e voltou recentemente com uma banca de bolos em fatias. Para complementar a renda, trabalha durante a semana como merendeira em uma escola e reserva os domingos para a confeitaria.
Ela acredita que o surgimento de novas feiras pela cidade acabou espalhando o público. Ainda assim, faz questão de continuar onde tudo começou para ela. "É o meu cantinho", define.
Mesmo com menos movimento, Silmara sonha em deixar o emprego formal para viver apenas da confeitaria na feira da Moreninha.
Entre os clientes fiéis está a assistente administrativa Renata Lopes, moradora da Moreninha desde criança. Ela frequenta a feira desde a adolescência e praticamente não visita outras.
Mais do que comprar frutas e verduras, Renata diz que gosta da proximidade. Conhece as barracas, confia nos feirantes e faz questão de prestigiar o comércio do próprio bairro. "É o aconchego. É prático, é perto de casa e eu já sei onde encontro qualidade", afirma.

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