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Diversão

Barzinho e modão ajudam a contar a história dos 127 anos de Campo Grande

Ranking revela as músicas mais tocadas e confirma a força do sertanejo na noite

Por Kamila Alcântara | 26/08/2026 09:45
Barzinho e modão ajudam a contar a história dos 127 anos de Campo Grande
Restaurante em Campo Grande, no Bairro Universitário, tem música sertaneja ao vivo de segunda a sábado e a preferência é "modão" (Foto: Reprodução/Instagram/Confraria)

Aos 127 anos, Campo Grande chega ao aniversário embalada pelo crescimento dos barzinhos e por uma trilha sonora que deixa pouca margem para dúvida: o sertanejo continua dominando as noites da Capital. Dos clássicos do modão à sofrência mais recente, músicas sobre amor, separação e saudade formam o repertório preferido nos palcos locais.

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Campo Grande celebra 127 anos com o sertanejo dominando as noites da cidade. Levantamento do Ecad aponta que bares e restaurantes concentram 52% da arrecadação de direitos autorais na capital em 2025, seguidos por rádios com 27% e shows com 17%. A música mais executada nos últimos dez anos foi Boate Azul. Mato Grosso do Sul arrecadou mais de R$ 12 milhões, com Campo Grande respondendo por ao menos R$ 6,24 milhões.

Um levantamento preparado pelo Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) para o aniversário da cidade mostra que bares, restaurantes, lojas, academias e outros estabelecimentos comerciais respondem pela maior parcela da arrecadação de direitos autorais em Campo Grande.

Esse grupo, classificado como Usuários Gerais, concentrou 52% do valor arrecadado na Capital em 2025. As rádios responderam por 27%, enquanto shows e eventos representaram 17%. Os 4% restantes não foram detalhados no estudo encaminhado ao Campo Grande News.

Os números refletem a presença da música no cotidiano de uma cidade onde bares com apresentações ao vivo se espalharam por diferentes regiões. A programação vai de casas especializadas em sertanejo a espaços que misturam pagode, rock, música regional e apresentações acústicas. Apesar da variedade, é o modão que aparece com mais força quando são analisados os repertórios dos shows.

“Boate Azul”, composição de Benedito Seviero e Tomaz, foi a música mais executada nas apresentações realizadas em Campo Grande nos últimos dez anos. Na sequência aparece “Evidências”, de José Augusto e Paulo Sérgio Valle.

O ranking também reúne “Ainda Ontem Chorei de Saudade”, “Telefone Mudo”, “Pense em Mim” e “Saudade de Minha Terra”. Sucessos mais recentes, como “Aquele 1%”, “Suíte 14”, “O Nosso Santo Bateu” e “Seu Polícia”, completam o retrato musical da Capital.

A seleção revela um público que aceita novas versões do sertanejo, mas não larga os clássicos. Mudam os artistas, os arranjos e até o estilo dos bares. A dor de cotovelo, porém, segue firme no repertório.

O estudo não representa tudo o que os moradores escutam. O ranking considera exclusivamente músicas apresentadas em shows que recolheram direitos autorais e tiveram seus repertórios informados ao Ecad pelos organizadores. Não entram nessa relação, necessariamente, as reproduções em plataformas digitais, festas particulares e eventos que não fazem parte da base da entidade.

Em 2025, mais de R$ 12 milhões foram arrecadados em Mato Grosso do Sul pela execução pública de músicas. Campo Grande concentrou mais de 52% desse total, o equivalente a pelo menos R$ 6,24 milhões. O valor exato da Capital não foi informado.

Do dinheiro arrecadado, 85% são destinados a compositores, intérpretes, músicos e outros titulares de direitos autorais. As associações de gestão coletiva ficam com 6% para despesas administrativas, enquanto o Ecad recebe 9% para manter suas operações.

Barzinho e modão ajudam a contar a história dos 127 anos de Campo Grande

O ranking ajuda a explicar o que acontece todas as noites nos bares de Campo Grande. No restaurante onde Lennon Macedo trabalha como gerente, no Bairro Universitário, o sertanejo ocupa o palco de segunda-feira a sábado, com um artista diferente a cada dia.

Segundo ele, clássicos como “Boate Azul”, “Evidências” e “Mercedita” estão entre os pedidos mais frequentes do público. Como o estabelecimento é voltado ao sertanejo, a escolha dos músicos já considera o repertório procurado pelos clientes.

“A casa tem um segmento sertanejo, então filtramos os cantores de acordo com o repertório que os clientes vêm para curtir. Essas músicas estão entre as mais tocadas na noite”, afirma Lennon.

Mesma preferência levou o empresário Paulo Frazili a apostar em um restaurante dedicado exclusivamente ao modão, no Bairro Coophafé. Segundo ele, o sertanejo mais tradicional tem forte identificação com o público de Campo Grande, o que se reflete na programação da casa. “É um estilo que o público pede e do qual participa bastante quando toca”, afirma.

Percepção é compartilhada pelo cantor João Paulo, de 28 anos, que vive da música e se apresenta, em média, em dois ou três bares diferentes por semana. Ao longo do mês, ele calcula passar por 12 a 15 estabelecimentos, com apresentações que duram entre duas horas e meia e três horas.

Para João, o domínio do modão não é uma imposição dos contratantes. A escolha parte principalmente de quem está sentado à mesa e faz pedidos aos artistas. “Essa aclamação pelos modões vem exclusivamente do público. Poucas vezes vi a casa influenciando o repertório. Como artista, você vai sentindo o gosto das pessoas, e o modão tem uma aceitação praticamente unânime. Em boteco e barzinho, não tem erro”, conta.

Na avaliação do cantor, a redução do espaço das grandes casas de shows e a multiplicação dos bares ajudaram a fortalecer esse repertório. O ambiente mais próximo do público favorece músicas antigas, conhecidas e fáceis de cantar em conjunto.

“O barzinho remete a uma coisa mais raiz. É aquele lugar de tomar uma cerveja ouvindo ‘Boate Azul’ ou ‘Ainda Ontem Chorei de Saudade’. A balada é mais para se animar, enquanto o boteco traz essa ligação com o modão e com o público”, compara.

A preferência também exige preparo dos músicos. Como os pedidos mudam a cada apresentação, conhecer apenas os maiores sucessos não basta. Há clientes que solicitam desde os clássicos até faixas pouco conhecidas de duplas tradicionais.

João chama essas canções de “lado B” ou “lado C”, expressões usadas para identificar obras que não alcançaram a mesma popularidade dos grandes sucessos. São músicas geralmente lembradas por fãs que acompanham com mais profundidade a trajetória de artistas e duplas.

“O barzinho é uma escola muito grande porque aparecem pedidos inusitados. Quanto mais repertório o cantor souber, mais pessoas conseguirá agradar. Tem quem peça os clássicos, mas também quem peça músicas menos conhecidas. Isso exige que o profissional aprofunde o conhecimento das canções antigas”, termina.

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