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Arquitetura

Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça

Morador do Flamboyant há décadas, aposentado dedica parte da rotina ao plantio e manutenção de espaço público

Por Thailla Torres | 26/08/2026 08:35
Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Wilson também é responsável pela florada das primaveras plantadas na praça. (Foto: Paulo Francis)

Toda vez que passo pela praça do Bairro Flamboyant e vejo as primaveras floridas, uma pergunta me acompanha: será que foi aquele senhor que sempre está por aqui quem plantou? O senhor é Wilson Marques. Tem 83 anos e, sim, parte daquela florada tem as mãos dele.

Há anos, quem circula pela região pode encontrá-lo em uma rotina que não está escrita em contrato algum. Wilson chega de carro, abre o porta-malas e tira de lá roçadeira, rastelo, ferramentas. Recolhe folhas, corta o mato, junta lixo deixado pelos outros, planta, observa o que precisa de cuidado. Às vezes, leva comida para os passarinhos.

Não é funcionário da prefeitura. Não recebe para isso. Não tem obrigação de estar ali. Está porque considera a praça um pouco sua. E também de todo mundo.

No dia em que Campo Grande completa 127 anos, a história de Wilson ajuda o Lado B a contar uma cidade que nem sempre aparece nas fotografias oficiais de aniversário. Uma cidade construída também em gestos pequenos, repetidos e quase anônimos. Gente que cuida de uma calçada, de uma árvore, do vizinho, de uma praça. Gente que faz antes mesmo de perguntar de quem é a responsabilidade. Foi justamente isso que me fez bater à porta de Wilson nessa semana.


Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Wilson caminha em direção a estrutura construída para os passarinhos toda semana para alimentá-los (Foto: Paulo Francis)

Antes de caminharmos até a praça, ele me recebeu em casa para um café. Entre uma xícara e outra, a conversa mostrou que o cuidado visto do lado de fora não nasceu agora. Aos 83 anos, Wilson parece ter encontrado no movimento uma maneira de continuar participando do mundo.

Quando pergunto a idade, ele responde sem cerimônia: “83. Só isso”.

Depois lembra um amigo poeta, Aldo, já falecido, e uma reflexão sobre os anos que passam: “Não importa quantos anos eu tenho. Não sou eu que tenho os anos, são eles que vão me tendo”.

Wilson nasceu em Guararapes, no interior de São Paulo. É filho de Ernesto e Maria e o caçula de sete homens. Os seis irmãos já morreram. Os pais, nordestinos, chegaram a São Paulo como tantas famílias que migraram em busca de sobrevivência. A mãe era de Macaúbas, na Bahia.

Ainda jovem, ele veio para o então Mato Grosso e não voltou mais. “Elegemos isso daqui como terra natal”, resume.

A vida profissional foi construída no serviço público. Wilson trabalhou cerca de 40 anos na Receita Estadual, como fiscal e auditor. Por causa da carreira, passou por cidades como Três Lagoas, Ponta Porã, Naviraí e Dourados, até chegar definitivamente a Campo Grande, no início da década de 1980.

No Flamboyant, está desde o fim daquela década, quando a região tinha outra paisagem. “Aqui era longe”, lembra.

Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Wilson é uma boa-praça que, coicidências à parte, cuida com carinho da praça. (Foto: Paulo Francis)

Wilson não viu só o bairro mudar. Viu uma cidade inteira crescer enquanto o mundo ao redor se transformava. Faz parte de uma geração que conheceu a infância sem televisão e sem energia elétrica no sítio e chegou aos tempos em que um aparelho cabe na palma da mão e conecta pessoas em segundos. “Nós não vimos o Flamboyant se transformar. Nós vimos a vida transformada”, diz.

Para ele, porém, existe uma contradição nesse avanço. A tecnologia deu um salto enorme, o conforto aumentou e as possibilidades se multiplicaram, mas o ser humano não avançou necessariamente na mesma velocidade. “O homem tem tudo, todos os confortos, mas não é feliz”, diz.

Quando pergunto o que falta, Wilson responde sem demorar: “Falta maturidade à humanidade. Falta humanização.”

E é nesse ponto que a praça deixa de ser apenas uma praça. Wilson se aposentou em 2011. Durante algum tempo, ainda manteve uma fazenda e viajava semanalmente para cuidar dela. Até perceber que precisava parar. Não de viver, mas de reorganizar a maneira de ocupar os dias.

A praça acabou entrando nesse espaço. Sem grandes planos ou pretensões, começou a cuidar do lugar. Com ajuda de outras pessoas, participou de melhorias. Conta que o engenheiro Rafael colaborou no projeto das passarelas e na regularização junto à prefeitura. O parquinho também surgiu a partir de iniciativa privada. Em outros momentos, Wilson acompanhou problemas com a iluminação e viu fios serem furtados mais de uma vez.

Ele sabe que há limites para o que um morador consegue fazer e defende maior participação do poder público. Mas sua lógica não é substituir a prefeitura. É lembrar que patrimônio público não significa patrimônio de ninguém.

“Eu sempre digo para as pessoas: gente, isso daqui não é da prefeitura. Isso aqui é patrimônio público. É meu, é seu. Se cada um fizer um pouquinho...”

Wilson acredita que Campo Grande precisa estimular uma consciência maior de cidadania e cuidado com seus espaços. Reconhece que a cidade cresceu, multiplicou ruas, praças e equipamentos públicos e que o poder público não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Mas também acredita que a população precisa se reconhecer como parte desses lugares. “A gente precisa desenvolver uma consciência de cuidados. Isso é importante”, afirma.

Na prática, nem sempre funciona. Há quem passe e jogue lixo justamente onde ele acabou de limpar. Wilson vê. E recolhe outra vez.

Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça

“Eu aposto no fazer. Muito embora a gente saiba que as pessoas às vezes demoram, a gente continua fazendo, igual ao beija-flor, que leva no bico uma gotinha d'água para tentar apagar o incêndio.”

A disposição para servir não começou no Flamboyant. Durante cerca de dez anos, Wilson participou de um trabalho social ligado à Casa da Sopa, na região do Dom Antônio. A rotina começava às 4h da manhã, com ida à Ceasa e preparo de aproximadamente 420 porções de sopa para distribuição.

A pandemia interrompeu aquele formato, mas não o trabalho. Hoje, segundo ele, o grupo continua preparando cerca de 70 cestas básicas por semana para famílias da região. Foi ali que Wilson conheceu de perto uma Campo Grande que muita gente atravessa sem enxergar.

“Era um trabalho gratificante, porque você ia ao encontro de uma realidade que muitas pessoas não conhecem. Essa sociedade à margem, muito especialmente crianças e muitos velhos, que precisam de certo cuidado e que o poder público não alcança. E parte da sociedade também ignora, não quer ver.”

Para ele, ajudar nunca foi uma via de mão única. “É uma caridade que volta para você como gratificação da alma.”

Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Wilson colocando comiga para os pássaros que estão na praça. (Foto: Paulo Francis)

Wilson fala exatamente assim, como coloco entre aspas. Mistura lembranças, livros, filosofia e cotidiano sem fazer esforço para parecer filosófico. Sempre gostou de estudar. Começou Direito, embora não tenha concluído o curso, e mantém livros em casa. Lembra de quando pesquisar significava procurar uma obra na biblioteca e, se estivesse emprestada, esperar. Hoje reconhece a facilidade do acesso à informação, mas também enxerga o paradoxo de uma sociedade permanentemente conectada e, muitas vezes, distante de quem mora ao lado. “Hoje nós não conhecemos nem os nossos vizinhos”, lamenta.

Pai de seis filhos, ele os chama de “seis pérolas da minha vida”. Fala com orgulho da relação construída com eles, não apenas de pai e filhos, mas de amizade, zelo e cuidado. Parte da família continua morando perto, no mesmo bairro que ele escolheu décadas atrás.

Ao falar das dificuldades da vida e, especialmente, dos caminhos enfrentados pelos mais jovens, Wilson recorre a uma frase atribuída a Che Guevara:

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura” — “É preciso endurecer-se, mas sem perder a ternura.”

E talvez essa frase ajude a explicar o homem que, aos 83 anos, ainda estaciona o carro ao lado de uma praça para retirar ferramentas do porta-malas.

Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Wilson carrega no porta-malas do carro soprador, rastelo, roçadeira e outras ferramentas. (Foto: Paulo Francis)

Wilson não idealiza a vida. Sabe que a cidade tem problemas, que existem responsabilidades que pertencem ao poder público e que uma pessoa sozinha não transforma tudo. Sabe também que envelhecer exige reconhecer limites. Mas isso não significa deixar de fazer.

“Eu faço isso em gratidão ao poder de perceber que estou vivo, que posso andar, caminhar, falar, fazer, sentir, chorar. Isso tudo é um valor.”

É uma definição bastante precisa do que se vê naquela praça. Wilson poderia passar por ela e apenas notar o mato alto. Poderia reclamar do lixo. Poderia esperar. Em vez disso, abre o porta-malas.

“Você utiliza o seu tempo, o seu espaço, esse entendimento da vida pulsando para ser útil, para fazer alguma coisa.”

Na tarde em que caminhamos juntos por ali, as primaveras estavam floridas. Minha pergunta, finalmente, ganhou resposta. Sim, Wilson teve participação naquela florada. Mas, depois de ouvi-lo, as flores pareciam quase um detalhe.

Aos 127 anos, Campo Grande é feita de avenidas, prédios, bairros que avançaram sobre lugares onde um dia só havia mato. É feita das grandes obras que ficam registradas na história e das decisões públicas que mudam o cotidiano. Mas também é feita por gente que ninguém nomeou para cuidar dela.

Gente que olha para um espaço público e entende o significado mais simples da palavra “público”: aquilo que pertence a todos, portanto, também a mim.

Wilson não sabe quantas pessoas conhecem seu nome entre aquelas que passam pela praça. Talvez nem importe. Na próxima semana, provavelmente estará lá outra vez. Com a roçadeira, o rastelo, alguma muda para plantar ou comida para os passarinhos. Fazendo a parte dele, gota por gota.

E, sem perceber a dimensão disso, ele ajuda a construir a cidade que escolheu como sua.

Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Wilson se despediu após a conversa e na próxima semana certamente estará pela praça novamente. (Foto: Paulo Francis)
Wilson tem 83 anos e a missão que ninguém lhe deu: cuidar da praça
Essa é a praça cuidada pelo Wilson Marques, de 83 anos, que ainda sonha fazer um sarau no lugar. (Foto: Paulo Francis)


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