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Capital

Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história

De São João del-Rei, ela fez a jornada até Campo Grande ao lado do marido, mas não ganhou homenagens

Por Aline dos Santos | 26/08/2026 07:51
 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Cozinha era espaço feminino na casa, reproduzida em museu que homenageia história da cidade. (Foto: Osmar Veiga)

Numa história contada por homens, as mulheres acabam esquecidas. E é essa a sina de Maria Carolina de Oliveira, mais conhecida como a “esposa do fundador” de Campo Grande. Tentar encontrar fragmentos da matriarca da cidade é tarefa árdua, seja em vida ou morte.

RESUMO

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Maria Carolina de Oliveira, esposa do fundador de Campo Grande, José Antônio Pereira, permanece esquecida na história oficial da cidade, apesar de ter participado da jornada de 1875 que originou o município. Seus restos mortais estão no Cemitério Santo Antônio, em túmulo sem identificação própria. Pesquisadores apontam que a historiografia tradicional privilegiou figuras masculinas, tornando invisíveis mulheres como Maria Carolina e Tia Eva, parteira negra que também ajudou a construir Campo Grande.

Certo é que participou, ao lado do marido José Antônio Pereira (que assinava o nome como Jozé em documentos como juiz de paz, mas aqui vamos manter a grafia mais tradicional), da jornada de 1875., quando a comitiva deixou Minas Gerais em direção ao sul do então Mato Grosso. Ele tinha 50 anos, a idade dela não se sabe.

José Antônio já havia estado por aqui antes. O arraial foi fundado em 21 de junho de 1872, portanto há 151 anos. Nesta quarta-feira (dia 26), a celebração é dos 127 anos de emancipação político-administrativa de Campo Grande.

“Maria Carolina de Oliveira é uma personagem que merece maior atenção na história da formação de Campo Grande. A historiografia tradicional concentra-se principalmente em José Antônio Pereira, reconhecido como fundador da cidade, mas os registros indicam que Maria Carolina participou diretamente da trajetória que levou a família ao sul da então Província de Mato Grosso”, afirma Carlos Alexandre de Barros Trubiliano, pesquisador com ênfase em história regional e com várias publicações sobre a cidade.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Foto no museu reproduz figura de José Antônio Pereira. (Foto: Osmar Veiga)

Atualmente professor associado da Universidade Federal de Rondônia, Carlos Alexandre é graduado em História pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), com mestrado pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e doutorado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

O casamento dos mineiros que fariam “nascer” Campo Grande foi em São João del-Rei (MG), histórica cidade fundada em 1704. Depois, o casal viveu em São Francisco das Chagas do Monte Alegre, atual Monte Alegre de Minas, onde constituiu sua família. Monte Alegre e Campo Grande são separadas por 892 quilômetros.

De acordo com o historiador Carlos Alexandre, Maria Carolina, os filhos, parentes e agregados integraram a comitiva que deixou Minas Gerais em direção ao sul de Mato Grosso.

A chegada foi em 14 de agosto de 1875, conforme registrada por Eurípedes Barsanulfo Pereira, em História da Fundação de Campo Grande.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Escultura reproduz Antônio Luiz Pereira (filho dos fundadores), a esposa Ana Luiza e a filha Carlinda Pereira. (Foto: Osmar Veiga)

“A viagem, realizada em uma grande comitiva e utilizando carros de bois, foi longa e difícil, evidenciando que a formação do núcleo inicial de Campo Grande foi uma experiência familiar e coletiva, e não apenas a ação individual de José Antônio”.

De acordo com o historiador, ainda existem lacunas sobre a vida de Maria Carolina. “E isso constitui uma possibilidade de pesquisa. Registros paroquiais e cartoriais de São João del-Rei e Monte Alegre de Minas, especialmente livros de casamento, batismo e óbito, podem esclarecer sua origem, filiação, idade e trajetória”, afirma Carlos Alexandre.

Em terras campo-grandense, o casal de pioneiros teve oito filhos e o endereço da família segue vivo na Avenida Guaicurus, antiga Fazenda Bálsamo. No local, doado à prefeitura em 1966 e restaurado em 1999 para visitação pública, a pequena casa de pau-a-pique, o engenho e o monjolo para secar os grãos se espalham por uma grande área verde.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Museu tenta reviver rotina doméstca da Campo Grande de outrora. (Foto: Osmar Veiga)

Na manhã de segunda-feira (dia 24), em meio ao trânsito intenso da avenida e ao som das buzinas que animavam o trabalho dos cabos eleitorais, olhar para o museu era abrir a janela do passado. As duas cidades – a de ontem e a de hoje - se encontravam na mesma esquina.

A história da cidade é representada por esculturas de um casal e uma menina: Antônio Luiz Pereira (filho dos fundadores), a esposa Ana Luiza e a filha Carlinda Pereira.

Antônio e o pai eram muito parecidos fisicamente e a imagem dele é a que representa a do fundador nas homenagens que se espalham pela cidade.

Na última morada, Maria Carolina não tem nome 

Bisneto de Maria Carolina Oliveira, Edson Contar, de 86 anos, rememora que ela nasceu em São João del-Rei, onde conheceu o esposo, oriundo de Barbacena (MG). “Tiveram 8 filhos, entre eles meu avô Antônio Luiz, que acompanhou o pai na fundação da cidade”, diz Contar, que é jornalista, turismólogo, poeta, compositor e roteirista.

Segundo o bisneto, Maria Carolina morreu por volta de 1895. Os restos mortais estão no túmulo 1 do Cemitério Santo Antônio, na Avenida Consolação, na Vila Santa Dorotheia.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Túmulo de Maria Carolina e de José Antônio tem foto dele, mas nada sobre ela. (Foto: Osmar Veiga)

A última morada, logo na entrada do cemitério, chama atenção pelo formato de Obelisco, uma miniatura do monumento na Avenida Afonso Pena. O Obelisco original exibe o busto em homenagem a José Antônio. O túmulo também traz informações sobre o fundador: foto, a data de nascimento em 19 de março de 1825 e de morte em 11 de janeiro de 1900. Um código QR Code apagado já não permite acessar dados sobre a história do fundador.

O cemitério é assolado por furtos, em que os invasores levam todo metal que possa ter algum valor de revenda. Em 2022, quando os ladrões levaram a foto da sepultura, ainda tinha placa com os nomes do fundador, do filho Antônio Luiz Pereira (21-06-1853/24-09-1942) e da nora Ana Luiza de Souza (11-07-1861/03-09-1935).

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Lilson Souza conta que o túmulo do fundador da cidade é um dos mais procurados pelos visitantes., (Foto: Osmar Veiga)

“Nos furtos, eles levam as placas. Essa do José Antônio Pereira, que está lá agora, foi a gente mesmo que recolocou. Pedimos para fazer em aço inox para não perder essa identificação. É em aço inox porque dificilmente os ladrões levam. Não mexem porque não tem valor de revenda”, afirma Lilson Souza, da administração do Cemitério Santo Antônio.

No cemitério, o túmulo do fundador da cidade é um dos mais procurados pelos visitantes. “As pessoas procuram muito pelo José Antônio Pereira, Glauce Rocha, Zé Correia e Lídia Baís”.

O cemitério Santo Antônio teve três endereços, mudando conforme a cidade crescia. De 1872 a 1887, era localizado na atual Praça Ary Coelho. Entre 1888 e 1913, o cemitério era na Avenida Afonso Pena, onde atualmente está a Casa da Indústria.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
De 1872 a 1887, Cemitério Santo Antônio era localizado na atual Praça Ary Coelho. (Foto: Osmar Veiga)

De 1914 em diante, o endereço é a Avenida Consolação. A transferência para o novo local levou dez anos. “O processo de translado foi de 1914 a 1924. Conforme os registros históricos, aqui era a região da Fazenda Bandeira, do Amando de Oliveira. A cidade foi crescendo e tinha a necessidade de o cemitério ser afastado da comunidade. A partir de 1914, começou a ter os sepultamentos”.

O local tem 15 mil túmulos e ocupa área de quatro hectares. Em média, são 10 sepultamentos por mês.

Mulheres que fizeram história 

O historiador Carlos Alexandre afirma que a história não necessariamente “se esquece” das mulheres, mas grande parte dos registros históricos foi produzida a partir de uma perspectiva predominantemente masculina.

Documentos administrativos, políticos, fundiários e relatos de viagens costumavam destacar os homens como proprietários, chefes de família, autoridades e protagonistas das decisões, enquanto as mulheres apareciam, muitas vezes, apenas como esposas, mães ou filhas.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Busto de Tia Eva na comunidade que leva seu nome. (Foto: Fundação de Cultura)

“Isso contribuiu para tornar menos visíveis experiências femininas como a de Maria Carolina de Oliveira. No caso da formação de Campo Grande, essa questão é particularmente evidente: a narrativa tradicional consagrou José Antônio Pereira como fundador, enquanto Maria Carolina aparece principalmente como sua esposa, embora tenha participado da trajetória migratória e da constituição da família”, diz o pesquisador.

Conforme o historiador, José Antônio e Maria Carolina se estabeleceram numa região juntamente com outras famílias, inserindo-se em uma sociedade na qual parentesco, casamento, religião e compadrio desempenhavam papel fundamental na construção de alianças e relações de poder.

“O compadrio, por exemplo, envolvia batizados, casamentos e vínculos entre famílias, e as mulheres participavam diretamente dessas redes de sociabilidade, ainda que sua atuação nem sempre fosse registrada de forma explícita. Por isso, Maria Carolina não deve ser compreendida apenas como a esposa de José Antônio, mas como parte de uma estrutura familiar que também contribuiu para a construção das relações sociais e de poder que se estabeleceram naquele povoado”, afirma Carlos Alexandre.

Outra personagem que vem do passado é Eva Maria de Jesus, a Tia Eva. Nascida escravizada em 1847, ela chegou ao sul de Mato Grosso no final do século XIX e permaneceu na região que posteriormente se consolidaria como Campo Grande. Tia Eva foi parteira, cozinheira e benzedeira, se firmando como referência religiosa e comunitária.

 Matriarca de Campo Grande, Maria Carolina é personagem “esquecida” na história
Historiador Carlos Alexandre de Barrros Trubiliano. (Foto: Arquivo pessoal)

“Sua trajetória demonstra que a participação feminina na construção da cidade não se limitou às famílias consideradas pioneiras pelas narrativas oficiais, mas envolveu também mulheres negras, pobres e descendentes de pessoas escravizadas”, diz o pesquisador.

Para o historiador, a comparação entre Maria Carolina de Oliveira e Tia Eva é particularmente interessante porque evidencia diferentes formas de participação feminina nas relações de poder e sociabilidade.

Ele detalha que Maria Carolina estava inserida nas redes familiares, de parentesco e compadrio que contribuíram para o prestígio de José Antônio Pereira. Tia Eva, por sua vez, construiu sua autoridade por outros caminhos, especialmente por meio da religiosidade, dos conhecimentos de cura, das relações comunitárias e da formação de redes de solidariedade.

“Suas trajetórias mostram que o poder feminino nem sempre se expressava nos espaços formais ou institucionais. Muitas vezes, ele era construído no cotidiano, nas relações de parentesco, na fé, nos cuidados, na transmissão de conhecimentos e na capacidade de estabelecer vínculos comunitários. Em ambos os casos, suas histórias reforçam a necessidade de ampliar a narrativa tradicional sobre a História da cidade e reconhecer que as mulheres participaram ativamente da construção das relações de poder, das redes de sociabilidade e dos espaços de pertencimento que deram forma à sociedade campo-grandense”.


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