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Capital

Antes dos bairros, as saídas: por que campo-grandense se localiza pelas rodovias

Divisão oficial segue córregos, mas moradores preferem ruas e pontos conhecidos

Por Kamila Alcântara | 26/08/2026 07:34
Antes dos bairros, as saídas: por que campo-grandense se localiza pelas rodovias
Placa fixada na entrada de Campo Grande, no encontro da BR-163 com a Avenida Cônsul Assaf Trad (Foto: Paulo Francis)

Pergunte a um campo-grandense onde fica determinado endereço e há boas chances de a resposta não trazer nenhuma das sete regiões urbanas usadas oficialmente para dividir a cidade. Em vez de Prosa ou Anhanduizinho, aparecem referências muito mais familiares: saída de Cuiabá, saída de São Paulo, saída de Três Lagoas, saída de Rochedo.

RESUMO

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Campo Grande, que completa 127 anos, ainda é orientada por seus moradores a partir das antigas saídas rodoviárias, como as de Cuiabá, São Paulo e Três Lagoas, em vez das sete regiões urbanas oficiais. O hábito tem raízes históricas nas estradas boiadeiras que estruturaram o crescimento da cidade e persistem no cotidiano, misturadas a referências de bairros, avenidas e grandes estabelecimentos comerciais.

Aos 127 anos, Campo Grande ainda é explicada por seus moradores a partir de caminhos que apontam para fora dela. Não é apenas força de expressão. O costume está ligado à própria formação da cidade, quando estradas usadas por boiadeiros, pecuaristas e viajantes funcionavam como vias de entrada e saída do antigo povoado.

O contraste é curioso. No planejamento urbano, Campo Grande é organizada atualmente em sete regiões: Centro, Prosa, Segredo, Bandeira, Imbirussu, Lagoa e Anhanduizinho. Essa divisão surgiu após estudos que passaram a usar as bacias hidrográficas dos córregos urbanos como referência.

Na rua, porém, a água perdeu a disputa para o asfalto. Cabeleireira desde 2010 na região norte da Capital, Adriana de Oliveira diz que identifica o próprio endereço principalmente pela saída de Cuiabá e por pontos conhecidos do caminho.

Antes dos bairros, as saídas: por que campo-grandense se localiza pelas rodovias
Adriana de Oliveira tem um salão de beleza na Avenida Carlinda Pereira Contar e só se localiza pela saída de Cuiabá (Foto: Juliano Almeida)

“Eu tenho um salão. Onde que é esse salão? Saída de Cuiabá, saída do Parque dos Poderes. Então, em qualquer outro lugar que você vai, quando pergunta onde você mora, não fala o bairro, dá um ponto de referência. Já é um hábito do campo-grandense”, conta.

A lógica não surgiu por acaso. No livro Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), publicado em 2012, o arquiteto e urbanista Ângelo Arruda mostra que a vila em formação mantinha comunicação com outras partes de Mato Grosso e do País por meio de estradas boiadeiras que chegavam ao núcleo urbano por diferentes entradas.

Uma das mais importantes seguia em direção ao Pantanal. As próprias saídas boiadeiras chegaram a servir como limites oficiais da vila e eram utilizadas intensamente pelo comércio de gado e pelo trânsito de pessoas entre Campo Grande, São Paulo e Minas Gerais.

Ou seja, antes de existir GPS, bairro planejado ou região urbana, já fazia sentido explicar Campo Grande dizendo para onde determinada estrada levava.

Esse desenho deixou marcas que sobreviveram à expansão da cidade. O atual bairro Amambaí, primeiro bairro planejado de Campo Grande, implantado em 1921, teve seu traçado influenciado justamente pela existência das antigas estradas boiadeiras para Aquidauana e Imbirussu.

Na mesma época, a região onde seriam instalados os quartéis militares ficava junto à estrada para Corumbá e Aquidauana, descrita no estudo como uma rota bastante usada pelos pecuaristas.

Até vias hoje completamente incorporadas à malha urbana nasceram ou se consolidaram com essa função. A atual Avenida Tamandaré, por exemplo, aparece no histórico da expansão da Capital como a antiga saída para Rochedinho.

Com o passar das décadas, Campo Grande cresceu, mas as antigas direções continuaram funcionando como eixos de expansão.

Antes dos bairros, as saídas: por que campo-grandense se localiza pelas rodovias
Mapa da Evolução Urbana de Campo Grande sobre planta de 1939, dos aquivos de Ângela Arruda

O primeiro grande planejamento urbano da cidade foi elaborado em 1909 por Nilo Javary Barém. A planta tinha formato ortogonal, com uma grande avenida central e ruas regulares, estabelecendo os primeiros rumos organizados de expansão da então vila.

Décadas depois, os planos urbanísticos passaram a trabalhar com grandes vias, corredores e ligações entre diferentes setores. O PDDI (Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado), elaborado pela Hidroservice, e posteriormente o trabalho do escritório de Jaime Lerner reforçaram a importância dos corredores urbanos. O antigo minianel, por exemplo, fazia a ligação entre vias de acesso sem obrigar o motorista a atravessar o centro.

Nos anos 1980, essa lógica ganhou ainda mais força com o anel viário, que passou a interligar as saídas de São Paulo, Três Lagoas e Cuiabá e atraiu empresas atacadistas e serviços ligados à agropecuária.

Ao mesmo tempo, conjuntos habitacionais levaram milhares de moradores para áreas afastadas do centro. Moreninhas são o exemplo mais evidente. O conjunto foi implantado na década de 1980 com cerca de 4 mil casas populares e avançou tanto para o sul que foi necessário ampliar o perímetro urbano para acomodá-lo.

Naquele período, havia áreas rurais, fazendas e chácaras ao redor do conjunto. A Avenida Gury Marques, principal ligação daquela região, é identificada no próprio estudo como “saída para São Paulo”.

É aí que a explicação histórica encontra a memória de quem viu a cidade crescer. O professor de história Victor Hugo lembra que, décadas atrás, alguns bairros hoje completamente incorporados à Capital pareciam praticamente outras cidades. Para chegar às Moreninhas, por exemplo, era necessário sair da área urbanizada e percorrer trecho de rodovia.

“Você não ia de bairro em bairro para as Moreninhas. Você pegava literalmente a rodovia, na saída da cidade, para chegar nas Moreninhas”, afirma.

Ele cita também Nova Lima, Hospital São Julião e, posteriormente, Los Angeles como exemplos de áreas que cresceram afastadas do núcleo central. Victor ressalva que sua interpretação é baseada na experiência histórica e urbana da cidade, e não em uma pesquisa acadêmica específica sobre a expressão “saídas”.

O estudo de Ângelo dá sustentação à parte dessa percepção. Ao analisar Campo Grande em 2012, o autor descreveu uma cidade “excessivamente horizontal”, com ocupação distante e grande quantidade de espaços vazios entre áreas urbanizadas.

O Plano de Massa elaborado no fim dos anos 1980 mostra justamente a tentativa de combater esse espalhamento. O planejamento previa adensar o anel central, estimular a ocupação de uma segunda faixa de até oito quilômetros do centro e desestimular novas moradias no terceiro anel, onde já estavam conjuntos como as Moreninhas. O diagnóstico era de uma cidade com perímetro enorme e muitos vazios urbanos.

Antes dos bairros, as saídas: por que campo-grandense se localiza pelas rodovias
Divisão oficial da região urbana de Campo Grande, que usa como referência os córregos da cidade (Imagem: reprodução Sisgran)

Nem todo campo-grandense, porém, se localiza exclusivamente pelas saídas. Balconista de farmácia, Walkiria Aimee, de 46 anos, diz que, principalmente para entregas, os clientes costumam informar o bairro. Ainda assim, nem sempre é o bairro que consta oficialmente no endereço.

“É o predominante. O cliente fala que mora no Anache, no Vida Nova. Mas para a gente que está mais distante, fala região do Nova Lima. Quando está próximo da Chácara dos Poderes, fala na direção do Parque dos Poderes, porque ninguém vai lembrar onde é Chácara dos Poderes”, explica.

A localização cotidiana, portanto, mistura bairros, grandes empreendimentos, avenidas, regiões conhecidas e saídas rodoviárias. Às vezes entra até um componente social.

Walkiria observa que moradores podem evitar o nome de determinadas localidades por causa do estigma associado à periferia e optar por referências consideradas mais valorizadas, como um shopping, grande comércio ou condomínio próximo.

Antes dos bairros, as saídas: por que campo-grandense se localiza pelas rodovias
No trabalho de balconista de farmácia, Walkiria Aimée observa que a qualidade dos serviços oferecidos no bairro dita como o morador se inclui nele (Foto: Juliano Almeida)

“Tem gente que vai lá para o Nova Lima e fala: ‘não, eu moro aqui na frente da Leroy Merlin’. Só para não falar onde mora. Ou fala ‘pertinho do Alphaville’”, relata.

Para ela, quanto mais comércio, infraestrutura e serviços chegam a uma região, mais a forma como seus moradores identificam o lugar também muda.

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