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Meio Ambiente

Tucano madruga na sacada e resume relação de Campo Grande com a natureza

Araras, tucanos, antas e capivaras dividem a cidade com moradores, em uma relação que encanta e exige proteção

Por Inara Silva | 26/08/2026 07:12

Confira a galeria de imagens:

  • (Foto: Juliano Almeida)
  • (Foto: Juliano Almeida)
  • (Foto: Juliano Almeida)
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  • (Foto: Jean Fernandes)
  • (Foto: Jean Fernandes)
  • (Foto: Jean Fernandes)

Capital do turismo de observação de aves, rota de espécies migratórias e reconhecida internacionalmente como Cidade Árvore do Mundo, Campo Grande chega aos 127 anos tendo na convivência cotidiana com a fauna silvestre uma de suas características mais marcantes. Na cidade também conhecida pelos ipês, araras cruzam o céu, capivaras ocupam parques e uma diversidade de aves, antas, tamanduás, quatis e outros animais encontra abrigo entre árvores, áreas verdes e remanescentes de Cerrado, dividindo o espaço urbano com a população.

RESUMO

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Campo Grande completa 127 anos com a convivência com a fauna silvestre como marca registrada. A capital abriga mais de 400 espécies de aves, além de antas, tamanduás e outros animais que dividem o espaço urbano com a população. Pesquisadores alertam, porém, que 18% dos registros com tamanduás e 11% com serpentes resultam em animais feridos ou mortos, principalmente por atropelamentos. Especialistas reforçam que preservar a vegetação e adotar práticas responsáveis são essenciais para manter essa convivência.

É uma proximidade que se revela em situações cotidianas, durante uma caminhada, no caminho para o trabalho ou até em casa. No bairro Carandá Bosque, o jornalista e fotógrafo Jean Fernandes recebe há mais de dois anos a visita diária de um tucano. Por volta das 5h ou 5h30, quando o dia começa a clarear, a ave pousa em sua sacada.

O visitante ganhou até apelido, “seu Tuca”. Jean conta que nunca ofereceu alimento ou água, mas o tucano chega espontaneamente, permanece algum tempo e depois segue seu caminho.

Morador de Campo Grande há 30 anos, Jean também coleciona encontros durante as caminhadas que faz na região do Parque dos Poderes. Já avistou antas, jaguatiricas, quatis e cutias. Para ele, viver em uma Capital onde esse contato com animais silvestres ainda faz parte da rotina é um privilégio, por isso, costuma registrar esses encontros rotineiros em imagens.

Tucano madruga na sacada e resume relação de Campo Grande com a natureza
Tucano aparece diariamente na casa do jornalista Jean Fernandes na Capital. (Foto: Jean Fernandes)

Segundo a bióloga Larissa Tinoco, coordenadora de campo do Projeto Aves Urbanas - Araras na Cidade, do Instituto Arara Azul, a diversidade vai muito além dos animais mais conhecidos. Docente do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Uniderp, ela afirma que Campo Grande abriga mais de 400 espécies de aves.

Entre elas estão o udu-de-coroa-azul e o gavião-pega-macaco, uma águia já avistada em regiões como a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Bandeiras e Parque das Nações Indígenas. Ela explica que a Capital também integra a rota de espécies migratórias, como andorinhas, gavião-tesoura, sovi e falcão-peregrino. Antas, tamanduás, tatus e jiboias estão entre os representantes de outros grupos da fauna encontrados na cidade.


Araras nos quintais - Entre tantas espécies, as araras-canindé conquistaram um lugar especial na paisagem e na relação dos moradores com Campo Grande. Reconhecidas pela Lei Municipal nº 5.561/2015 como ave símbolo de Campo Grande, as araras-canindé estão presentes também na cultura e na arte da cidade. Larissa cita o estudo que demonstra o orgulho dos moradores por tê-las no cotidiano e relaciona seu avistamento a sensações de alegria e bem-estar.

Conforme a pesquisadora, essa relação chega aos quintais, pois Campo Grande possui grande disponibilidade de palmeiras cujos troncos, depois de mortos, podem ser utilizados pelas araras para reprodução. Em muitos casos, quando é necessária a retirada da copa, moradores mantêm o tronco justamente para possibilitar a formação de ninhos.

A pesquisadora afirma que a participação da população também é fundamental para o trabalho científico, sendo que grande parte dos ninhos acompanhados pelo Projeto Aves Urbanas foi informada pelos próprios moradores. Eles comunicam novos locais, registram o comportamento das aves e abrem suas casas para as equipes de monitoramento.

As cavidades podem ainda ser utilizadas por tucanos, corujas, urubus e outras aves. Quando isso acontece, alguns moradores temem que os novos ocupantes estejam ameaçando as araras. Larissa explica que disputas por cavidades e a predação de ovos e filhotes fazem parte das relações naturais entre as espécies.

Esses episódios também abrem espaço para ampliar a conservação para animais que despertam menos simpatia, como urubus, corujas e outras aves que também desempenham funções ecológicas importantes e, assim como as araras, fazem parte do equilíbrio do ambiente.

Tucano madruga na sacada e resume relação de Campo Grande com a natureza
Pássaros usam árvore como abrigo em Campo Grande (Foto: Osmar Veiga)

Árvores como riqueza - Para a pesquisadora, a diversidade encontrada em Campo Grande está diretamente relacionada à arborização e aos remanescentes de vegetação nativa. Árvores de ruas e quintais, parques, praças e áreas ainda cobertas por Cerrado oferecem alimento, abrigo e locais para reprodução.

Essa relação torna a conservação da vegetação especialmente importante diante do crescimento urbano. Larissa aponta a perda de habitat provocada pela expansão da cidade e cita regiões como Jardim Veraneio e Chácara dos Poderes, onde áreas de Cerrado vêm dando lugar a condomínios e empreendimentos. A especialista também chama a atenção para a supressão de árvores em áreas já urbanizadas, inclusive espécies que fornecem alimento e abrigo à fauna.

Para a pesquisadora, desenvolvimento urbano e conservação podem coexistir, mas isso depende da articulação entre poder público, instituições de pesquisa, universidades, empresas e sociedade. Os próprios moradores participam dessa construção quando preservam árvores, ajudam no monitoramento, param os veículos para permitir a travessia da fauna ou procuram ajuda ao encontrar um animal ferido.

Tucano madruga na sacada e resume relação de Campo Grande com a natureza
Ninho de arara com ovos na área urbana de Campo Grande (Foto: Larissa Tinoco)

Encontro vira conflito - Essa convivência, porém, nem sempre é harmoniosa. Os encontros entre pessoas e animais silvestres também podem resultar em conflitos, uma relação que vem sendo investigada por Lucas Freitas de Paula, educador ambiental do ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) e graduando em Ciências Biológicas pela UFMS.

Em levantamento sobre ocorrências de tamanduás e serpentes na área urbana, resultados preliminares mostram que 18% dos registros envolvendo tamanduás e 11% daqueles relacionados às serpentes resultaram em animais feridos ou mortos.

Lucas ressalta, porém, que os dados são subnotificados, já que nem todo encontro entre pessoas e animais silvestres chega ao conhecimento dos órgãos ambientais. Segundo ele, isso pode ocorrer tanto porque algumas situações não são percebidas como risco para as pessoas ou para a fauna quanto pela falta de informação sobre como e quando acionar os serviços responsáveis.

Segundo o estudo, a colisão com veículos aparece como o principal desafio à sobrevivência dos dois grupos estudados. Entre os tamanduás, também foram identificados conflitos com animais domésticos e, no caso das serpentes, ferimentos provocados por máquinas utilizadas na limpeza de áreas. Lucas aponta a sinalização e a atenção redobrada dos motoristas em regiões de maior movimentação da fauna, além do cuidado com animais domésticos, como formas de reduzir esses riscos.

Embora as grandes áreas verdes ainda existentes permitam que diferentes espécies persistam no ambiente urbano, Lucas explica que o avanço da urbanização reduziu parte do habitat natural desses animais. Durante o levantamento, o pesquisador encontrou registros de tamanduás e serpentes até em ambientes intensamente urbanizados, como escolas, igrejas e pizzarias.

Apesar dos desafios, os dados iniciais indicam uma mudança na reação dos moradores. Segundo Lucas, as pessoas têm recorrido aos órgãos ambientais diante desses encontros, atitude que pode evitar o agravamento das situações tanto para os seres humanos quanto para os animais.

Tucano madruga na sacada e resume relação de Campo Grande com a natureza
Lucas Freitas mostra falsa coral, da família Colubridae, terceira família de serpentes mais encontrada na área urbana (Foto: Arquivo pessoal)

Saúde de todos - Os riscos identificados nessa convivência mostram que a presença da fauna nas cidades não pode ser analisada apenas sob a perspectiva da conservação dos animais. Ela envolve também a saúde das pessoas e as condições do ambiente, dimensões conectadas pelo conceito de Saúde Única.

Em Mato Grosso do Sul, a SES (Secretaria de Estado de Saúde) possui uma Coordenadoria de Saúde Única, responsável por fortalecer a articulação entre diferentes áreas, setores e instituições diante de situações que envolvam as interfaces entre saúde humana, animal e ambiental.

Segundo a coordenadora de Saúde Única da SES, Danila Fernanda Frias, encontrar um animal silvestre na cidade não significa, por si só, que exista uma ameaça.

“Campo Grande possui uma biodiversidade muito rica, e precisamos aprender a conviver com essa fauna de maneira segura e responsável, respeitando os animais e evitando situações que favoreçam contatos desnecessários”, afirma.

Entre os principais cuidados estão:

  • não alimentar, capturar ou manipular animais silvestres,

  • evitar o contato deles com animais domésticos e

  • comunicar aos serviços competentes situações envolvendo animais feridos, mortos ou com comportamento incomum.

Danila afirma que algumas espécies podem participar dos ciclos de agentes infecciosos, parasitos e vetores, mas isso não significa que todo animal encontrado na cidade esteja doente ou represente risco de transmissão. Para a coordenadora, é importante evitar uma visão de medo ou de culpabilização da fauna e observar fatores que podem aumentar riscos, entre eles alterações ambientais, ocupação de habitats, descarte inadequado de resíduos e maior proximidade entre pessoas, animais domésticos e silvestres.

Ela afirma que a observação da própria fauna também pode contribuir para a saúde pública. Mudanças na ocorrência ou no comportamento dos animais, assim como episódios de adoecimento ou mortalidade, podem sinalizar alterações no ambiente ou a circulação de agentes de importância para a saúde. Associadas a informações sobre saúde animal e ambiental, essas ocorrências podem ajudar na identificação precoce de situações com possíveis repercussões para as pessoas.

Tucano madruga na sacada e resume relação de Campo Grande com a natureza
Norte-americanos participam de turismo científico com o Instituto Arara Azul na Capital (Foto: Osmar Veiga)

Preservar para continuar - A manutenção dessa relação passa, portanto, por pesquisa, monitoramento, educação ambiental, proteção das áreas verdes e participação da sociedade. Trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Arara Azul e pelo ICAS ajudam a compreender como os animais utilizam a cidade, identificar ameaças e orientar formas mais seguras de coexistência.

A SES também considera organizações da sociedade civil e grupos ligados à proteção e ao resgate da fauna parceiros importantes nesse processo. Além da atuação direta, essas instituições contribuem para a educação ambiental e para orientar a população sobre como agir diante dos animais. Na perspectiva da Saúde Única, proteger as pessoas envolve também cuidar da saúde dos animais e do ambiente compartilhado.

Larissa Tinoco ressalta que no Instituto Arara Azul, pesquisa, conservação e turismo também se encontram. O instituto desenvolve o turismo científico, no qual visitantes podem acompanhar pesquisadores em atividades de campo relacionadas às araras, como o monitoramento dos ninhos e, quando realizado, o manejo de filhotes. A experiência aproxima quem visita Campo Grande não apenas das aves, mas do trabalho necessário para conservá-las.

Para Lucas, coexistir significa compreender que pessoas e animais silvestres compartilham o espaço e que os seres humanos também fazem parte da natureza. A responsabilidade, reforça Larissa, não cabe apenas ao poder público, mas a todos que compartilham a cidade. E a continuidade dessa convivência depende de preservar aquilo que dá sustentação à vida silvestre.

“Sem a vegetação, sem a arborização, sem floresta urbana, a gente não tem animais. E a gente diminui muito a qualidade de vida,” destaca Larissa Tinoco.