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Diversão

Luciano Huck narra trecho de “quase morte” e “milagre” vivido em MS

"Vivemos os piores quatro minutos das nossas vidas”, diz apresentador em vídeo

Por Thailla Torres | 28/08/2021 08:47
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

Angélica, como se estivesse fazendo uma prece, fazia repetidamente um pedido aflito: “Pousa, pousa!”. “Nós não vamos pousar, nós vamos cair.” Falei para eles olhando para cada um nos olhos”.

Seis anos após o pouso forçado de avião que levava Luciano Huck, Angélica, os filhos e duas funcionárias, o apresentador lançou um livro onde conta detalhes do episódio ocorrido em Mato Grosso do Sul, em 2015.

Luciano usou as redes sociais para divulgar um trecho da obra em que narra os momentos de desespero e de “quase morte”.

O livro De Porta em Porta é dividido em duas partes: numa, Huck usa as entrevistas que fez no ano passado com gente como Yuval-Noah Harari, Esther Duflo, Michael Sandel e Anne Applebaum para tentar explicar os movimentos do mundo nesta segunda década do século; na outra metade, ele procura compartilhar memórias pessoais e relatos de encontros com brasileiros anônimos.

Um dos capítulos narra com detalhes o acidente ocorrido nas proximidades da rodovia MS-080, a seis quilômetros do córrego Ceroula, na fazenda Palmeira, em 24 de maio de 2015. Passageiros e pilotos foram resgatados pelos Bombeiros e ninguém ficou gravemente ferido.

Leia o trecho completo narrado pelo apresentador:

"Antes da morte existe um silêncio, um vácuo de som em que tudo parece estar suspenso. Todos que estavam naquela cabine ouviram o som desse silêncio.

O avião bateu no chão. Ouviu-se então um estrondo ensurdecedor misturado com sons agonizantes de ferragens se dilacerando. O avião deslizou por mais de 200 metros pelo capim alto do pasto ermo. Só parou quando o bimotor que vinha arrastando cercas de arame farpado que dividem os pastos da fazenda, se chocou com o trecho mais elevado do terreno. Ouviu-se um novo silêncio.

Todos vivos. Um milagre. Na vida há sempre um momento de confrontação profunda com a verdade. Aquele instante no qual o futuro da gente se define. O meu foi esse, num descampado do Pantanal do Mato Grosso do Sul, numa manhã de domingo de 24 de maio de 2015. O dia estava deslumbrante. No céu azul não havia nem sequer um fiapo de nuvem. Quando o avião começou a subir, mirei a paisagem pela janela. Toda essa paz durou pouco.

Faltando cerca de 130 km para o aeroporto de Campo Grande, o barulho do avião mudou. O painel mostrava que um dos motores havia apagado. Dali em diante, vivemos os piores quatro minutos das nossas vidas. Quando começamos a perder a altura, mirei a paisagem de novo pela janela, agora com os olhos bem preocupados. Naquele momento devíamos estar a uns três mil pés do solo ou cerca de um quilometro, o que é muito baixo. As crianças começaram a gritar. Já não havia dúvidas que não chegaríamos ao aeroporto.

Léa e Didi, que tanto nos ajudam com as crianças, estavam petrificadas, em silêncio. Angélica, como se estivesse fazendo uma prece, fazia repetidamente um pedido aflito: “Pousa, pousa!”. “Nós não vamos pousar, nós vamos cair.” Falei para eles olhando para cada um nos olhos. “Todo mundo bota o cinto e abaixa a cabeça.”

Segundos depois já estávamos perto do solo. O piloto desligou os motores. Foi então que se deu aquele silêncio estranho que parece prenunciar a presença da morte. O bimotor colidiu três vezes contra o solo, subindo e descendo, até derrapar de lado e finalmente parou, apoiado em uma das asas.

Antes disso, vi Angélica voando da cadeira e batendo a cabeça na lateral oposta da cabine. Tivemos muita sorte. Além de contar com a perícia do piloto, Osmar Frattin e do co-piloto José Flávio Zanatto.

Angélica e Luciano após deixarem hospital de Campo Grande.
Angélica e Luciano após deixarem hospital de Campo Grande.

Mais tarde no hospital, descobrimos que fui eu o único passageiro a se machucar com mais gravidade. Quebrei a décima primeira vértebra, mas naquela hora, cuidando da família, não sentia nenhuma dor. A queda me tirou de vez da zona de conforto. Comecei a refletir sobre por que Deus havia sido tão generoso comigo sobre qual seria o meu chamado nessa segunda chance, nessa nova vida.

Da porta para dentro de casa, ficou claro que Angélica e eu deveríamos priorizar ainda mais o que já era prioridade: Nossa família.

Da porta para fora, iniciei uma cruzada pelo conhecimento. Queria ouvir, ouvir e ouvir mais um pouco. Percebi que deveria usar meus privilégios para servir aos outros. Este livro resume um pouco desse convite ao aprendizado e à transformação que somos capazes de fazer. E também uma singela homenagem ao conhecimento, à ciência e à potência de quem se esforça para fazer deste mundo... um lugar melhor para todos."

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