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Lado Rural

Pesquisa que nasce no campo impulsiona nova revolução agrícola em MS

Fundação Chapadão une ciência, genética e IA para elevar produtividade no agro

Por Lucimar Couto | 16/06/2026 10:56
Pesquisa que nasce no campo impulsiona nova revolução agrícola em MS
A engenheira agrônoma Aniele Versotto Teixeira destaca o papel dos laboratórios da Fundação Chapadão na identificação de doenças, validação de produtos biológicos e desenvolvimento de tecnologias que ajudam a aumentar a produtividade e a sustentabilidade das lavouras em Mato Grosso do Sul. (Foto Fundação Chapadão)

Há quase três décadas, uma instituição criada por produtores rurais para enfrentar uma ameaça silenciosa às lavouras de soja ajuda a transformar a realidade agrícola do norte de Mato Grosso do Sul. Prestes a completar 29 anos de atuação, a Fundação Chapadão consolidou-se como uma das principais referências em pesquisa agropecuária do Estado e agora amplia sua atuação para responder aos novos desafios do campo, que vão da inteligência artificial às mudanças climáticas.

RESUMO

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A Fundação Chapadão, que completa 29 anos de atuação no norte de Mato Grosso do Sul, consolidou-se como referência em pesquisa agropecuária e agora amplia sua atuação para enfrentar desafios como inteligência artificial e mudanças climáticas. A instituição impacta mais de 600 mil hectares cultivados em municípios como Chapadão do Sul e Costa Rica, com foco em soja, milho e algodão, e conta com investimentos estaduais que chegaram a R$ 3,7 milhões na safra 2024/2025.

O que começou nos anos 1990 como uma iniciativa para combater os prejuízos causados pelos nematoides evoluiu para uma estrutura científica que atende uma extensa área produtiva do Estado, desenvolvendo pesquisas voltadas ao aumento da produtividade, sustentabilidade e competitividade das principais cadeias agrícolas sul-mato-grossenses.

Atualmente, a Fundação atua em municípios como Chapadão do Sul, Costa Rica, Paraíso das Águas, Alcinópolis, Cassilândia, Paranaíba, Coxim e Sonora, impactando diretamente mais de 600 mil hectares cultivados. O foco principal permanece nas culturas que sustentam a economia agrícola da região: soja, milho e algodão.

Para o presidente da instituição, Ilton Henrichsen, as características climáticas do norte de Mato Grosso do Sul favorecem a consolidação dessas atividades, tornando a região uma das mais estáveis para a produção de grãos no País.

“A soja e o milho estão muito consolidados na nossa região. Por isso, as pesquisas continuarão focadas no desenvolvimento de novas cultivares, no aumento da produtividade e em soluções para os desafios que surgem a cada safra”, afirma.

Ao mesmo tempo, novas fronteiras produtivas começam a ganhar espaço nas agendas dos pesquisadores. A expansão da cana-de-açúcar em áreas consideradas menos aptas para grãos e o avanço dos citros em municípios como Cassilândia e Paranaíba já despertam interesse crescente da comunidade científica.

Da luta contra nematoides ao laboratório de alta tecnologia

Segundo o diretor-executivo da Fundação Chapadão, André Bartolomeu Piesanti, a instituição nasceu de uma necessidade prática dos agricultores. Na época, o avanço dos nematoides colocava em risco a viabilidade econômica das lavouras de soja da região.

Hoje, a realidade é bem diferente. A Fundação conta com sete pesquisadores e laboratórios especializados em fitopatologia, entomologia, nematologia, herbologia, genética, análise de sementes e fertilidade do solo. Os estudos abrangem desde o controle biológico de pragas até a validação de novas cultivares e tecnologias para mitigar os impactos climáticos sobre as lavouras.

Uma das principais missões dos pesquisadores é avaliar, em condições regionais, as variedades que chegam ao mercado. O objetivo é identificar quais materiais apresentam melhor desempenho diante do clima, do solo e das doenças presentes em Mato Grosso do Sul.

“Não avaliamos apenas a produtividade. Estudamos o comportamento da planta, sua adaptação às diferentes regiões e sua resposta às condições climáticas para garantir maior segurança ao produtor”, explica o engenheiro agrônomo Fábio Lima Abrantes, responsável pela área de genética da instituição.

Inteligência artificial chega às lavouras

Se a genética segue como um dos pilares da pesquisa agropecuária, a inteligência artificial desponta como a próxima revolução tecnológica no campo.

Segundo Piesanti, a tecnologia já está presente em diversas etapas da produção agrícola, desde o monitoramento de lavouras e a mecanização até a interpretação de grandes volumes de dados gerados pelas propriedades rurais. A expectativa é que, nos próximos anos, a IA também transforme profundamente os processos de pesquisa científica.

“A inteligência artificial veio para ficar. O grande diferencial é a capacidade de transformar um enorme volume de dados em informações úteis para a tomada de decisão do produtor”, afirma.

Na mesma linha, Abrantes destaca que a tecnologia já permite análises mais rápidas e precisas de imagens de satélite, informações climáticas e históricos produtivos, auxiliando na previsão de produtividade e na identificação antecipada de riscos para as lavouras.

Ciência para produzir mais e com sustentabilidade

Além do ganho de produtividade, a sustentabilidade tornou-se um dos eixos centrais das pesquisas desenvolvidas pela Fundação Chapadão. A crescente exigência dos mercados internacionais por rastreabilidade e comprovação de boas práticas ambientais vem moldando uma nova geração de tecnologias para o campo.

No caso do algodão, por exemplo, já é possível identificar a origem exata da produção, desde a fazenda até o lote colhido, uma exigência cada vez mais valorizada pelos compradores internacionais.

Outro desafio é reduzir a dependência brasileira de insumos importados, especialmente fertilizantes e matérias-primas utilizadas na fabricação de defensivos agrícolas. Para os pesquisadores, encontrar alternativas nacionais tornou-se questão estratégica para garantir competitividade ao setor diante das oscilações geopolíticas e econômicas globais.

Investimentos fortalecem inovação no agro

A manutenção dessa estrutura científica depende de investimentos permanentes. Segundo a Fundação Chapadão, os recursos estaduais têm sido fundamentais para custear experimentos, aquisição de insumos e manutenção das pesquisas de campo.

Os aportes estaduais chegaram a cerca de R$ 2,5 milhões por safra nos anos de 2023 e 2024, aumentaram para R$ 3,7 milhões no ciclo 2024/2025 e devem alcançar aproximadamente R$ 2,7 milhões na safra 2026/2027.

Para o diretor-presidente da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect), Cristiano Marcelo Espínola Carvalho, os resultados demonstram que o Estado construiu uma base sólida de validação tecnológica capaz de oferecer mais segurança aos produtores na adoção de novas ferramentas e cultivares.

Em um cenário de mudanças climáticas, novas exigências de mercado e crescente digitalização da produção rural, a avaliação dos pesquisadores é que o papel da ciência no campo tende a se tornar ainda mais estratégico. E, no norte de Mato Grosso do Sul, a Fundação Chapadão pretende continuar sendo uma das pontes entre o laboratório e a lavoura, transformando conhecimento em produtividade e inovação para o agro sul-mato-grossense.