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Meio Ambiente

Arborizar não basta: preservação de nascentes depende de educação da cidade

Estudo mostra que acúmulo de lixo e descarte em qualquer lugar é algo que a própria população poderia evitar

Por Lucia Morel | 07/12/2023 17:00
Área de drenagem de água da chuva recebe esgoto bruto na Bacia do Lajeado. (Foto: Pesquisa)
Área de drenagem de água da chuva recebe esgoto bruto na Bacia do Lajeado. (Foto: Pesquisa)

Mesmo com o aumento da cobertura vegetal das 96 nascentes identificadas em Campo Grande, isso não garante a proteção e a sobrevivência dessas fontes de água. Houve sim incremento real de árvores no entorno, mas segundo levantamento do projeto “Água Para o Futuro”, isso não basta, até porque algumas espécies vegetais degradam ao invés de preservar.

A pesquisa foi feita pela Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) através de pedido do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, responsável pelo projeto. Os dados principais já foram definidos e das 96 nascentes, que são (ou deveriam ser tratadas como) APPs (Áreas de Preservação Permanente), ao menos 18% (18 delas) estão em nível de atenção crítico ou alto, com degradação provocada por lixo, erosão e infestação da espécie arbórea Leucena, considerada uma praga porque mata as demais formas vegetais.

Cinco dessas fontes de água apresentaram problemas considerados críticos pelos pesquisadores, sendo duas na bacia do Córrego Lajeado e uma em cada um dos seguintes corpos d'água: Bandeira, Prosa e Coqueiro. Localizados na área urbana de Campo Grande, o sofrimento deles decorre da presença intensa do homem, que provoca o acúmulo de sedimentos e lixo.

Para a avaliação, os pesquisadores levaram em conta seis itens: ausência de isolamento com cercas; invasão por leucena; ausência ou insuficiência de vegetação nativa; presença de resíduos sólidos; processos erosivos; e por fim, possível lançamento de efluente sanitários. Os locais críticos estão com quatro ou cinco desses itens presentes.

Uma das piores situações é na bacia do Lajeado, porque há possibilidade real de lançamento de esgoto nela. O acesso a ela é no bairro Tiradentes, pela Avenida José Nogueira Vieira, entre as ruas Marquês de Pombal e Babilônia. O lançamento da água da área da nascente se dá no Córrego Estribo, que percorre 2,5 km até o Córrego Lajeado. “O escoamento oriundo do referido dissipador apresenta características de esgoto sanitário bruto, haja vista a coloração e odor”, cita a pesquisa. Tal dissipador seria da rede de drenagem.

Estrutura de microdrenagem assoreada e repleta de lixo, também na Bacia do Lajeado. (Foto: Pesquisa)
Estrutura de microdrenagem assoreada e repleta de lixo, também na Bacia do Lajeado. (Foto: Pesquisa)

Há ainda presença maciça de leucena e outras espécies exóticas, ou seja, não originárias da localidade. Há isolamento apenas na área de lançamento de águas pluviais e para que o local possa ser revitalizado, a Uems recomendou a erradicação de plantas exóticas e invasoras para que a vegetação possa sobreviver; análise físico-química e microbiológica do escoamento proveniente da rede de drenagem, e “caso constate-se que se trata de esgoto, proceder a identificação da origem para interrupção do lançamento”; por fim, retirada dos resíduos sólidos e cercamento da área total.

Bandeira – Outra situação bem infeliz é na bacia do Bandeira perto de bairros como Vilas Boas, TV Morena e da UFMS (Universidade Federal de MS). “O Córrego Bandeira, da mesma forma que o Cabaça, apresenta-se degradado pelo lançamento de efluentes domésticos, industriais e comerciais”, cita o levantamento da Uems.

Um dos locais mais conhecidos e que usam a água dessa bacia é o Lago do Amor, na UFMS, que recebe esses dois córregos e “apresenta-se com sérios problemas de eutrofização” (surgimento excessivo de organismos como algas e cianobactérias ), o que indica “estresse ambiental, envolvendo elevadas concentrações de matéria orgânica”.

A nascente específica localizada pelos pesquisadores pode ser acessada no bairro Vilas Boas, pela Rua Miguel Sutil, entre a Rua Antônio Francisco Lisboa e Rua Araújo Lima. Lá, não há cercamento, o que facilita inclusive o acesso direto ao corpo d'água. “O fluxo produzido pela nascente escoa para o córrego Portinho Pache (afluente do Córrego Bandeira), no qual foram identificados processos erosivos nas margens. Identificou-se também o acúmulo de resíduos sólidos em grande quantidade”.

Outro problema nessa nascente é a presença da espécie invasora leucena, de forma abundante. Para a Uems, esse ao invés de positivo, é negativo em relação à APP.

Árvores leucena, invasoras e nocivas às outras espécies vegetais. (Foto: Pesquisa)
Árvores leucena, invasoras e nocivas às outras espécies vegetais. (Foto: Pesquisa)

“A leucena está inserida na lista das 100 piores espécies invasoras do mundo, onde atualmente tem sido reconhecida como invasora agressiva e causadora da perda de biodiversidade, com ameaça destacada às ilhas oceânicas, como Havaí, Galápagos, Fiji, Indonésia, Filipinas”, cita a pesquisa.

Mais um infortúnio: descarte de resíduos sólidos em abundância ao redor da nascente, dentro do Córrego Portinho Pache, que segundo os pesquisadores, “é um indicador da baixa resiliência da APP, e do comprometimento da fauna silvestre terrestre e aquática”.

O cercamento da APP e a promoção de políticas públicas voltadas para conservação e preservação, conforme a pesquisa, pode impedir o descarte de resíduos sólidos pela população, “garantindo assim a preservação dos processos ecológicos”.

Nascente do Bandeira, no Córrego Portinho Pache, tomada por lixo. (Foto: Pesquisa)
Nascente do Bandeira, no Córrego Portinho Pache, tomada por lixo. (Foto: Pesquisa)

Outra nascente do Lageado comprometida em nível crítico fica no Residencial Oiti, com acesso na Rua Alzira Brandão, entre a Rua Padre Burnier e Rua Ribeirão Bonito. Na bacia do Prosa, a localização é na Vila Margarida, na Rua Sérgio Porto, em área sem cercamento. Já no Coqueiro, a nascente fica no bairro Chácara dos Poderes, com acesso na Estrada Se 1 entre as estradas Né Um e Né Dois.

Prefeitura – De acordo com a Semadur (Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano), “Campo Grande possui 33 córregos, portanto, as margens desses córregos são consideradas APPs”. Entretanto, “a faixa dessa área de proteção vai depender da largura do curso d’água, conforme determinado pela legislação federal”.

Também são consideradas APPs as nascentes e olhos d’água, nas quais a faixa de proteção deve ser de um raio de 50 metros da margem. “As APPs são protegidas pela legislação federal e municipal, e a Semadur realiza a fiscalização e monitoramento dessas áreas para o cumprimento da legislação por parte dos munícipes que possuem esses espaços em seus lotes”, enfatiza.

Ciente do projeto Água para o Futuro, o município será um dos entes que receberá os resultados da pesquisa para que possa implementar ações de proteção e preservação efetivas.

A Águas Guariroba, por sua vez, informou que a área de captação usada do Córrego Lageado para o abastecimento de Campo Grande fica no bairro Universitário, ou seja, em nenhumas das áreas citadas como críticas no estudo.

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Confira a galeria de imagens:

  • Afloramento de água no Córrego Coqueiro, quase imperceptível. (Foto: Pesquisa)
  • Erosão visceral na nascente do Córrego Coqueiro. (Foto: Pesquisa)
  • Sujeira e muito lixo na Bacia do Córrego Lageado. (Foto: Pesquisa)
  • Nascente do Prosa imperceptível debaixo de tanta sujeira. (Foto: Pesquisa)
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