"Não tem como pagar 1,8 mi no cash": vice da Santa Casa reclama de fiscalização
Diálogo com empresário é sobre contrato considerado rota para desviar dinheiro

Diálogo entre o então vice-presidente da Santa Casa de Campo Grande, engenheiro Jary Carvalho de Castro, e o empresário Maurício Aparecido Benites, sócio-administrador da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda, cujo contrato é apontado pela Operação Antidotum para desvio de R$ 1,4 milhão.
RESUMO
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Diálogo entre o então vice-presidente da Santa Casa de Campo Grande, Jary Carvalho de Castro, e o empresário Maurício Benites revela como seriam feitos pagamentos de R$ 1,8 milhão em contrato de digitalização de prontuários, alvo da Operação Antidotum. O MPMS aponta desvio de R$ 1,4 milhão. Jary renunciou ao cargo em janeiro de 2026, o que impediu sua prisão. Maurício foi preso na operação deflagrada na última sexta-feira.
Conforme o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), o contrato para digitalização de prontuários no hospital previa pagamento de R$ 1,8 milhão por ano e tinha vigência de três anos, num total de R$ 5,4 milhões. A contratação foi formalizada em 29 de outubro de 2024.
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Em áudio encaminhado no dia 8 de abril de 2025, Jary, então vice-presidente da Santa Casa (ele renunciou em janeiro de 2026), explicou a Maurício Benites como os pagamentos seriam realizados. Jary informou que a Santa Casa estava submetida à fiscalização e que, por essa razão, o valor de R$ 1,8 milhão não poderia ser pago ao empresário de uma única vez.
Leia a transcrição:
“Maurício, dentro do pacote de R$ 25 milhões, veio esse R$ 1,8 milhões da senadora. Só que específico para pagamento prioritário dos médicos e medicamento para o hospital não parar. Então, esse primeiro mês agora eu não consigo, porque vai vim oito milhões... vão vir três parcelas de oito milhões e trezentos. Na segunda e na terceira, eu vou ver com o Rinaldo como é que a gente faz para pagar uma parte para você. Não tem como pagar um milhão e oitocentos cash, não tem, porque eu estou com a fiscalização em cima, estou com o governo em cima, estou com a auditoria em cima, que a prioridade do governo, e foi muito bem frisada isso na reunião, e a senadora estava presente, está toda a bancada federal presente, não é, não é... é coisa pública, inclusive a prefeita também estava, é para pagar medicamento e médicos. E nós vamos fazer das tripas, coração, pagar algumas partes para você. É o que nós conseguimos, entendeu? O problema nasceu quando a emenda que vinha direcionada para a digitalização, ela desviou e foi para São Paulo, esse um milhão e oitocentos. E aí, ela falou que tinha dinheiro com o governo, e realmente tem, mas ele especificou no documento, até te mostro o documento que foi assinado por toda a bancada federal, pelo secretário de saúde, pela prefeita e pela doutora Alir, a especificação do recurso,tá? Inclusive, a doutora Alir, no discurso, falou, agradeceu a senadora da digitalização, todo mundo sabe, o setor é público e notório, só que estão com esse imbróglio. Se nós não comprarmos medicamento e pagar o médico, para tudo”.
O relatório da operação não menciona quem é a senadora que fez a emenda. Contudo, se trata de Soraya Thronicke (PSB), que é candidata à reeleição. A parlamentar destinou R$ 1 milhão para a digitalização de prontuários.
A renúncia ao cargo de vice-presidente da Santa Casa livrou o engenheiro Jary de ser preso na Operação Antidotum, que investiga fraudes milionárias em contratos. Numa das passagens da investigação, o então vice garante que “a caneta está com a gente”, reforçando o poder decisório sobre as contratações. Ele já foi presidente do Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia).
O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) chegou a pedir a decretação da prisão de Jary. Contudo, a juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias, negou. Para a magistrada, não existem fundamentos contemporâneos que evidenciem a imprescindibilidade da custódia preventiva.
Maurício foi preso na operação, deflagrada na sexta-feira (dia 11) pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com apoio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).
O advogado Fábio Leandro, que representa Maurício Aparecido Benites, afirma que vai fazer a defesa em juízo. Contudo, ele ressalta que Ministério Público aponta valores totalmente equivocados, que sequer foram recebidos pela contratada. A reportagem não conseguiu contato com Jary Carvalho de Castro.
A senadora Soraya Thronicke esclareceu que sempre indicou emendas para os diversos hospitais do estado,e que as emendas seguem os instrumentos legais próprios: são repassadas por intermédio dos entes públicos responsáveis por sua execução, como o Governo do Estado e o Fundo Municipal de Saúde.
"A indicação de uma emenda não se confunde com sua execução administrativa. Cabe aos gestores responsáveis aplicar os recursos conforme a legislação, a finalidade autorizada e os mecanismos de controle. O parlamentar não participa da escolha de fornecedores, da celebração de contratos, da fiscalização dos serviços ou da autorização de pagamentos. A senadora Soraya não participou, portanto, da contratação da empresa investigada, da definição de fornecedores, da celebração ou fiscalização do contrato objeto da operação, nem da autorização de pagamentos relacionados a ele", diz a nota enviada ao Campo Grande News.
A senadora defende a rigorosa apuração dos fatos e a individualização de eventuais responsabilidades com base nas provas produzidas pela investigação.

